Em si mesmo há ninguém que se
oponha à preservação da natureza. Ninguém.
Os indiferentes - ignorantes - quando muito não são
contra. A natureza é legal, murmuram.
Todavia há inamovíveis grupos.
Há pessoas. Há institutos devotadamente mergulhados
nesta causa. Propalam. Muitas vezes, perigosamente. Gritam.
Muitas vezes, irascivelmente. Vociferam. Muitas vezes, desesperadamente.
Choram. Debulham-se em dor comovedoramente.
A natureza é violentamente degradada.
Estão arrasando a Terra. Acuda-nos quem!? Deus?! Entanto,
se ele é a própria natureza e não reage?
Ou reagirá extinguindo-se. E assim a todos? E a tudo?
É inconcebível, porém. Os predadores
incólumes. E os não-predadores, preservadores,
na mesma só vala? Ah! insensatez à imediata
análise.
Que a civilização é predadora
da natureza, é certo. Desde que assim, o homem deforma.
Corrompe para habitar. Para sobreviver. Para amealhar. Para
cumular. Para enriquecer. Para mandar. E a essa degradação
irreversível denomina-se transformação.
Mares desapareceram Rios desapareceram. Desaparecem. Desapareceram
espécies de árvores. De plantas. De ervas. Desapareceram
espécies de insetos. Espécies de animais. De
pássaros. Espécies de homens mesmo.
Os recursos naturais também. O que
parecia inesgotável enuncia limites. Parece que Marte
é uma saída de emergência. A Lua continuará
exclusividade da poesia. Todavia, nada demove os que crêem
na força da natureza. E dela se fazem determinados
preservadores. E dela se fazem restauradores incansáveis.
Diligentes.
E vão plantando árvores. Formando
jardins. Disseminando relvas. As árvores. As flores.
Os mais engajados abrem militância política pela
causa. Instituem partidos políticos. Organizações
não governamentais. Exigem dos parlamentares. Dos governantes,
políticas públicas em favor do meio ambiente.
Da ecologia.
Ele não integra a militância
organizada. Não discute a necessidade de defender a
natureza. Mas onde estivesse. Por onde passasse. E fizesse
estada. Por ali fincava afazeres ecológicos. Agia.
Não enceta proselitismo. O fazer agregando os que se
conscientizam. E o que era árido acaba fértil.
O que era monturo, ficava límpido. O que era tosco
ganhava cor. Ficava vivo. O que não fora, passara a
ser.
Se terreno baldio houvesse, à quiçaça
dado. Onde queimavam lixo. Onde atiravam o indesejável.
Onde acumulavam-se entulhos. Com pouco, o espaço às
traças ganhava feição atrativa. Fazia
a limpa. Punha as relvas. As gramíneas reverdecendo.
Os pés de flores colorindo o espaço. Atraindo
os pássaros. As borboletas. As abelhas. O lugar infecto
e morto, se torna vivo. Resplendente. Lugar que, abruptamente,
fica alegre. Belo. O que era feio.
Assim, sua dedicação à
vida. Que a natureza plena é a vida plena. Que a morte
natural se fundamenta na plena vida que a natureza inscreve.
Então, esta latência de preservação
da vida pulsando em si é que o movia assim. Reciclar
o lixo. Semear árvores. Espalhar flores. Atrair pássaros.
Abelhas. Borboletas. Para que os ratos não evadam de
seu habitat. Para que os répteis não evadam
de seu habitat. Para que os abutres mantenham-se em seu território.
Ele plantava. Semeava. Gota d`água. Com sua quase ínfima
humildência cônscia e pertinaz. Em vão
não seria.
E num átimo se dissera isso novamente
ante o milagre que lhe ofertara o duvidoso jacarandá.
Plantara-o tenra muda naquele lugar. Como também plantara
o ipê. A cássia. Cultivados, cresceram. A cássia
e o ipê não se demoraram a mostra sua cara. Menos
o jacarandá. Que seria roxo. Todavia, os que partilhavam
do bem-estar de vê-los e tê-los passaram a apontar
o que jacarandá chegara como a farinha-seca que se
fizera.
A crer nos falares, introjetara decepção.
Porque queria sombra. Entretanto esperaria mais. Adquirira-o
como jacarandá-roxo. Seu rápido crescimento
retilíneo dava a semelhança com farinha-seca.
Que, afinal, era árvore, enfim. Sem sombra, é
certo. Plantava. Cortar afligia-o.
Mas, certa manhã de primavera. Estiagem
de prolongada chuva. Viu: num pendão do alto do jacarandá
suas flores roxo-azuis lhe dizendo: se aquiete, porque de
fato somos.