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"...Meu pé-de-jacarandá"
Data 07/nov/2002

Em si mesmo há ninguém que se oponha à preservação da natureza. Ninguém. Os indiferentes - ignorantes - quando muito não são contra. A natureza é legal, murmuram.

Todavia há inamovíveis grupos. Há pessoas. Há institutos devotadamente mergulhados nesta causa. Propalam. Muitas vezes, perigosamente. Gritam. Muitas vezes, irascivelmente. Vociferam. Muitas vezes, desesperadamente. Choram. Debulham-se em dor comovedoramente.

A natureza é violentamente degradada. Estão arrasando a Terra. Acuda-nos quem!? Deus?! Entanto, se ele é a própria natureza e não reage? Ou reagirá extinguindo-se. E assim a todos? E a tudo? É inconcebível, porém. Os predadores incólumes. E os não-predadores, preservadores, na mesma só vala? Ah! insensatez à imediata análise.

Que a civilização é predadora da natureza, é certo. Desde que assim, o homem deforma. Corrompe para habitar. Para sobreviver. Para amealhar. Para cumular. Para enriquecer. Para mandar. E a essa degradação irreversível denomina-se transformação. Mares desapareceram Rios desapareceram. Desaparecem. Desapareceram espécies de árvores. De plantas. De ervas. Desapareceram espécies de insetos. Espécies de animais. De pássaros. Espécies de homens mesmo.

Os recursos naturais também. O que parecia inesgotável enuncia limites. Parece que Marte é uma saída de emergência. A Lua continuará exclusividade da poesia. Todavia, nada demove os que crêem na força da natureza. E dela se fazem determinados preservadores. E dela se fazem restauradores incansáveis. Diligentes.

E vão plantando árvores. Formando jardins. Disseminando relvas. As árvores. As flores. Os mais engajados abrem militância política pela causa. Instituem partidos políticos. Organizações não governamentais. Exigem dos parlamentares. Dos governantes, políticas públicas em favor do meio ambiente. Da ecologia.

Ele não integra a militância organizada. Não discute a necessidade de defender a natureza. Mas onde estivesse. Por onde passasse. E fizesse estada. Por ali fincava afazeres ecológicos. Agia. Não enceta proselitismo. O fazer agregando os que se conscientizam. E o que era árido acaba fértil. O que era monturo, ficava límpido. O que era tosco ganhava cor. Ficava vivo. O que não fora, passara a ser.

Se terreno baldio houvesse, à quiçaça dado. Onde queimavam lixo. Onde atiravam o indesejável. Onde acumulavam-se entulhos. Com pouco, o espaço às traças ganhava feição atrativa. Fazia a limpa. Punha as relvas. As gramíneas reverdecendo. Os pés de flores colorindo o espaço. Atraindo os pássaros. As borboletas. As abelhas. O lugar infecto e morto, se torna vivo. Resplendente. Lugar que, abruptamente, fica alegre. Belo. O que era feio.

Assim, sua dedicação à vida. Que a natureza plena é a vida plena. Que a morte natural se fundamenta na plena vida que a natureza inscreve. Então, esta latência de preservação da vida pulsando em si é que o movia assim. Reciclar o lixo. Semear árvores. Espalhar flores. Atrair pássaros. Abelhas. Borboletas. Para que os ratos não evadam de seu habitat. Para que os répteis não evadam de seu habitat. Para que os abutres mantenham-se em seu território. Ele plantava. Semeava. Gota d`água. Com sua quase ínfima humildência cônscia e pertinaz. Em vão não seria.

E num átimo se dissera isso novamente ante o milagre que lhe ofertara o duvidoso jacarandá. Plantara-o tenra muda naquele lugar. Como também plantara o ipê. A cássia. Cultivados, cresceram. A cássia e o ipê não se demoraram a mostra sua cara. Menos o jacarandá. Que seria roxo. Todavia, os que partilhavam do bem-estar de vê-los e tê-los passaram a apontar o que jacarandá chegara como a farinha-seca que se fizera.

A crer nos falares, introjetara decepção. Porque queria sombra. Entretanto esperaria mais. Adquirira-o como jacarandá-roxo. Seu rápido crescimento retilíneo dava a semelhança com farinha-seca. Que, afinal, era árvore, enfim. Sem sombra, é certo. Plantava. Cortar afligia-o.

Mas, certa manhã de primavera. Estiagem de prolongada chuva. Viu: num pendão do alto do jacarandá suas flores roxo-azuis lhe dizendo: se aquiete, porque de fato somos.



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