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Contrato
Data 31/out/2002

Aguardava. Pacientemente. Enquanto, observava o movimento do ambiente. As pernas cruzadas deixando as coxas sem cor a meio expostas. Absorta, no acompanhamento da lida escolar. A servente lavando um rol de entrada. O inspetor de alunos convencendo alguns deles a tornarem mais rápidos à sala de aula. O ir e vir de alunos para a água. Para o sanitário. A primavera acontecia com alta temperatura. Um calor de verão. A troca de aulas. O forte barulho de adolescentes descontraídos. Desconcentrados. Nos corredores conversando. Os professores chegando. Tangendo-os sala adentro novamente. Eles se batem. Se empurram. A brutalidade é uma das formas de se quererem dos adolescentes.

Ela olhando. De fato, a escola não era feia. Tudo nela era de bom aspecto. Havia um jardim frontal agradável. Árvores. Plantas ornamentais em vasos em vários pontos. A atmosfera positiva transpirava. Os funcionários nada irritados. Simpáticas fisionomias. Gostara. A aparência geral confirmava as várias indicações obtidas. A escolha seria mesmo acertada. As amigas da filha estudavam ali e tinham razão. É certo que a troca implicava perda. Retrocesso. Pois tornar de escola particular e afamada para a escola do governo, subtraía. Mas constatava que ali, sim, seria menor. Percebia um fator organizativo implícito pelo movimento. O modo como se conduziam os alunos no entra e sai das salas. O modo como se conduzia o inspetor. O de outras pessoas alguma coisa da escola. As quais também iam e vinham num ritmo freqüente.

Lá, colégio de padres. Disciplina. O que todo o mundo quer da escola. Essa violência louca. Sem fim. Os traficantes tomando conta do Brasil. Dando ordens. Tirava o sono às vezes de ficar pensando. Punha seu coração batendo forte. Medo. Mas ela também tinha esperança. Então, não podia ter medo. Aquela escola construía o caminho de ser feliz. Escola do governo. Tinha organização. O povo lidando duro e manso com os alunos. A escola do governo. Virou outra coisa. Vive tendo ocorrência policial. Casos de mortes. Ferimentos graves virou rotina em escola do Estado. Brigas de alunos que acabam envolvendo os pais. Uma molecada solta. Vadia. As famílias bagunçadas. Esses meninos sem o que fazer. À toa pelas ruas. Não têm tarefa. Não têm obrigações. Não brincam. Vadiam. E gente vadiando é muito perigosa. Cachorro, gato vadios querem comida. E sossego. Gente não. Adolescente, jovem, não Essa história de passar de ano sem saber nada. Menino (menina) sai da quarta série não sabendo nada de leitura. Ler é um vexame. E sai da oitava série do mesmo jeito.

Foi convidada a dirigir-se à sala de direção. Chegara sua vez. Tinha esperado esticado tempo. Conversas compridas daquela diretora com as pessoas. E com ela não se deu de outro modo. Contou do pesar com que procedia a mudança. Todavia, não podia pagar escola. A filha sempre ótima aluna. Não merecia aquela abrupta interrupção. A bolsa deveria pelo menos ir até a oitava série. Os professores gostavam muito dela. Não podiam, no entanto, nada fazer. Então, pesquisou. Era aquela escola a melhorzinha. A menos ruim. Não, a senhora queira desculpar-me. Não disse corretamente. Era a escola melhor de ensino do Estado. Por isso, pedia muito encarecidamente uma vaga para a filha que infelizmente deveria deixar o colégio particular.

A diretora compreendia. Agradecia a avaliação positiva de sua escola. Era a recompensa do dedicado trabalho que a equipe escolar e o apoio razoável dos pais desenvolviam. Quis saber da pretendente seu grau de escolaridade. Surpreendeu-se manifestamente, quando soube ser uma goiana do interior cuja escolaridade fora até a quarta série. A senhora usa o português padrão oral com muito boa competência. Para quem apenas foi até aí.

Bem, façamos um trato. A vaga será concedida do modo como a senhora solicita. Desde que se comprometa a tornar-se integrante da equipe escolar, entrando para a Associação de Pais e Mestres. O acordo entre as partes foi selado com mútua satisfação.



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