Aguardava. Pacientemente. Enquanto, observava
o movimento do ambiente. As pernas cruzadas deixando as coxas
sem cor a meio expostas. Absorta, no acompanhamento da lida
escolar. A servente lavando um rol de entrada. O inspetor
de alunos convencendo alguns deles a tornarem mais rápidos
à sala de aula. O ir e vir de alunos para a água.
Para o sanitário. A primavera acontecia com alta temperatura.
Um calor de verão. A troca de aulas. O forte barulho
de adolescentes descontraídos. Desconcentrados. Nos
corredores conversando. Os professores chegando. Tangendo-os
sala adentro novamente. Eles se batem. Se empurram. A brutalidade
é uma das formas de se quererem dos adolescentes.
Ela olhando. De fato, a escola não
era feia. Tudo nela era de bom aspecto. Havia um jardim frontal
agradável. Árvores. Plantas ornamentais em vasos
em vários pontos. A atmosfera positiva transpirava.
Os funcionários nada irritados. Simpáticas fisionomias.
Gostara. A aparência geral confirmava as várias
indicações obtidas. A escolha seria mesmo acertada.
As amigas da filha estudavam ali e tinham razão. É
certo que a troca implicava perda. Retrocesso. Pois tornar
de escola particular e afamada para a escola do governo, subtraía.
Mas constatava que ali, sim, seria menor. Percebia um fator
organizativo implícito pelo movimento. O modo como
se conduziam os alunos no entra e sai das salas. O modo como
se conduzia o inspetor. O de outras pessoas alguma coisa da
escola. As quais também iam e vinham num ritmo freqüente.
Lá, colégio de padres. Disciplina.
O que todo o mundo quer da escola. Essa violência louca.
Sem fim. Os traficantes tomando conta do Brasil. Dando ordens.
Tirava o sono às vezes de ficar pensando. Punha seu
coração batendo forte. Medo. Mas ela também
tinha esperança. Então, não podia ter
medo. Aquela escola construía o caminho de ser feliz.
Escola do governo. Tinha organização. O povo
lidando duro e manso com os alunos. A escola do governo. Virou
outra coisa. Vive tendo ocorrência policial. Casos de
mortes. Ferimentos graves virou rotina em escola do Estado.
Brigas de alunos que acabam envolvendo os pais. Uma molecada
solta. Vadia. As famílias bagunçadas. Esses
meninos sem o que fazer. À toa pelas ruas. Não
têm tarefa. Não têm obrigações.
Não brincam. Vadiam. E gente vadiando é muito
perigosa. Cachorro, gato vadios querem comida. E sossego.
Gente não. Adolescente, jovem, não Essa história
de passar de ano sem saber nada. Menino (menina) sai da quarta
série não sabendo nada de leitura. Ler é
um vexame. E sai da oitava série do mesmo jeito.
Foi convidada a dirigir-se à sala de
direção. Chegara sua vez. Tinha esperado esticado
tempo. Conversas compridas daquela diretora com as pessoas.
E com ela não se deu de outro modo. Contou do pesar
com que procedia a mudança. Todavia, não podia
pagar escola. A filha sempre ótima aluna. Não
merecia aquela abrupta interrupção. A bolsa
deveria pelo menos ir até a oitava série. Os
professores gostavam muito dela. Não podiam, no entanto,
nada fazer. Então, pesquisou. Era aquela escola a melhorzinha.
A menos ruim. Não, a senhora queira desculpar-me. Não
disse corretamente. Era a escola melhor de ensino do Estado.
Por isso, pedia muito encarecidamente uma vaga para a filha
que infelizmente deveria deixar o colégio particular.
A diretora compreendia. Agradecia a avaliação
positiva de sua escola. Era a recompensa do dedicado trabalho
que a equipe escolar e o apoio razoável dos pais desenvolviam.
Quis saber da pretendente seu grau de escolaridade. Surpreendeu-se
manifestamente, quando soube ser uma goiana do interior cuja
escolaridade fora até a quarta série. A senhora
usa o português padrão oral com muito boa competência.
Para quem apenas foi até aí.
Bem, façamos um trato. A vaga será
concedida do modo como a senhora solicita. Desde que se comprometa
a tornar-se integrante da equipe escolar, entrando para a
Associação de Pais e Mestres. O acordo entre
as partes foi selado com mútua satisfação.