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Para você não se acomodar
Data 24/out/2002

A gravidez acentuada. Ia com suas preocupações à tona. Não eram poucas. O desemprego crônico do marido. Não haveria solução nunca, meu Deus! Afligia-a o sinais de comodismo dele. O hábito do que sem fazer. O hábito da escassez. À toa pela casa. Pouco afeito aos afazeres domésticos. Aliviavam-na, quando os praticava. Constrangera-o muito no começo. O bendito culto ao machismo. Também o constrangimento de o escasso salário dela suportar completamente a vida familiar. Inclusos os vícios dele. Cigarro. Cachaça. Cerveja às vezes. Não fitava a mulher ao recolher a mesada ao consumo deles. Mesada a que a mulher agregava a recomendação de não exceder. Que mais, impossível.

Todavia, o tempo do hábito arrefeceu o machismo. Inibiu os constrangimentos. A fase presente trazia-o já quase um chantagista. Consciente ou não. Tal a perversidade que o automatismo do acomodar-se estabelece à vida. Impacientava-se com a falta de dinheiro para o cigarro. Rebelava-se com os muitos afazeres domésticos. Só os quatro filhos o tiranizavam com seus requisitos. Banhá-los. Vigiá-los. Conduzir os dois primeiros à escola. Não fazia mais! Ela não percebia (ou fazia de propósito?) o nível de humilhação a que vinha expondo-o? Tudo porque um desempregado sem culpa disso?

Trabalhar. De manhã à noitinha. Os rompantes e brutalismos do patrão na empresa. Seus constantes maus-humores. Em casa. As evidentes manhas dos filhos acusando a sua ausência. Revelando os maus-humores e impaciências do pai. Incrível! Azar puxa azar. Essa gravidez nessa hora! Que Deus me perdoe! Mas não podia. Como fora errar a regra! Outro filho (Não! Perdão, meu Deus!) Mas era a hora mais imprópria. Marido desempregado. O psicológico estropiado. Querendo desprender suas tensões. Dizer-lhe da excecividade poderia tornar tudo ainda mais difícil. Certamente isso tudo atrapalhou-a Perdeu-se. Veio a gravidez. Não foram em situações semelhantes as gravidezes anteriores. Foram descuidos mesmo. Falta de juízo (O que o pai não cansava de lhe dizer). Exceto o primeiro. Que aquele, todos pretendiam. E aspiravam a homem. Os familiares em uníssono. Seria um filho homem. Um neto. Os demais, frutos do tesão incontrolável. O tesão jovem enfurecido e entorpecedor. Este não veio daí. Veio da ansiedade incontrolável. Insuflante. Perturbadora. Ouvira e ouve, vez em quando, admirações da idade precoce para tamanha prole. Numa época dessas!

Aquele meio de dia lhe fora concedido pelo irritadiço patrão para receber o pagamento. Pagar as várias contas atrasadas. Foi ao banco. Curto salário. Retirara dinheiro. Mais de três quartos do salário. Dali mesmo começara a operação paga-contas. Uma loja de calçados. Uma de eletrodomésticos. Uma de tecidos. A relojoaria do relógio que ganhara em seu aniversário do marido. A bicicleta para o marido desempregado ir ao trabalho.

Depois foi esperar o coletivo no ponto da sorveteria. Descansou esperando o ônibus, tomando sorvete e bebericando coca-cola. Desceu à casa da costureira para lhe deixar um dinheirinho. Dali mesmo seguiu a pé pra casa.

Fazia muito calor. Todavia, a distância não era tanta. Dispunha de tempo. Hora certa, agora, somente na manhãzinha seguinte. Caminhava olhando as coisas. Surpreendeu-se do tempo que já não fazia mais isso. O marido. Os filhos. O duro e longo pedaço difícil de vida demorando-se a passar.

E o supetão fê-la acordar. Demorou um pouco para perceber que haviam roubado sua bolsa. Em si, caiu em frenético pranto. Moradores foram acercando-se. Ela falava gritando suas dores. Suas penúrias. Sua desgraça. Convulsivamente. Inconsoladamente.

Na bolsa, ia o dinheiro do aluguel e o da dívida com a mercearia. Caiu sentada . E espesso sangue começou a escorrer de entre suas pernas pela calçada.



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