A gravidez acentuada. Ia com suas preocupações
à tona. Não eram poucas. O desemprego crônico
do marido. Não haveria solução nunca,
meu Deus! Afligia-a o sinais de comodismo dele. O hábito
do que sem fazer. O hábito da escassez. À toa
pela casa. Pouco afeito aos afazeres domésticos. Aliviavam-na,
quando os praticava. Constrangera-o muito no começo.
O bendito culto ao machismo. Também o constrangimento
de o escasso salário dela suportar completamente a
vida familiar. Inclusos os vícios dele. Cigarro. Cachaça.
Cerveja às vezes. Não fitava a mulher ao recolher
a mesada ao consumo deles. Mesada a que a mulher agregava
a recomendação de não exceder. Que mais,
impossível.
Todavia, o tempo do hábito arrefeceu
o machismo. Inibiu os constrangimentos. A fase presente trazia-o
já quase um chantagista. Consciente ou não.
Tal a perversidade que o automatismo do acomodar-se estabelece
à vida. Impacientava-se com a falta de dinheiro para
o cigarro. Rebelava-se com os muitos afazeres domésticos.
Só os quatro filhos o tiranizavam com seus requisitos.
Banhá-los. Vigiá-los. Conduzir os dois primeiros
à escola. Não fazia mais! Ela não percebia
(ou fazia de propósito?) o nível de humilhação
a que vinha expondo-o? Tudo porque um desempregado sem culpa
disso?
Trabalhar. De manhã à noitinha.
Os rompantes e brutalismos do patrão na empresa. Seus
constantes maus-humores. Em casa. As evidentes manhas dos
filhos acusando a sua ausência. Revelando os maus-humores
e impaciências do pai. Incrível! Azar puxa azar.
Essa gravidez nessa hora! Que Deus me perdoe! Mas não
podia. Como fora errar a regra! Outro filho (Não! Perdão,
meu Deus!) Mas era a hora mais imprópria. Marido desempregado.
O psicológico estropiado. Querendo desprender suas
tensões. Dizer-lhe da excecividade poderia tornar tudo
ainda mais difícil. Certamente isso tudo atrapalhou-a
Perdeu-se. Veio a gravidez. Não foram em situações
semelhantes as gravidezes anteriores. Foram descuidos mesmo.
Falta de juízo (O que o pai não cansava de lhe
dizer). Exceto o primeiro. Que aquele, todos pretendiam. E
aspiravam a homem. Os familiares em uníssono. Seria
um filho homem. Um neto. Os demais, frutos do tesão
incontrolável. O tesão jovem enfurecido e entorpecedor.
Este não veio daí. Veio da ansiedade incontrolável.
Insuflante. Perturbadora. Ouvira e ouve, vez em quando, admirações
da idade precoce para tamanha prole. Numa época dessas!
Aquele meio de dia lhe fora concedido pelo
irritadiço patrão para receber o pagamento.
Pagar as várias contas atrasadas. Foi ao banco. Curto
salário. Retirara dinheiro. Mais de três quartos
do salário. Dali mesmo começara a operação
paga-contas. Uma loja de calçados. Uma de eletrodomésticos.
Uma de tecidos. A relojoaria do relógio que ganhara
em seu aniversário do marido. A bicicleta para o marido
desempregado ir ao trabalho.
Depois foi esperar o coletivo no ponto da
sorveteria. Descansou esperando o ônibus, tomando sorvete
e bebericando coca-cola. Desceu à casa da costureira
para lhe deixar um dinheirinho. Dali mesmo seguiu a pé
pra casa.
Fazia muito calor. Todavia, a distância
não era tanta. Dispunha de tempo. Hora certa, agora,
somente na manhãzinha seguinte. Caminhava olhando as
coisas. Surpreendeu-se do tempo que já não fazia
mais isso. O marido. Os filhos. O duro e longo pedaço
difícil de vida demorando-se a passar.
E o supetão fê-la acordar. Demorou
um pouco para perceber que haviam roubado sua bolsa. Em si,
caiu em frenético pranto. Moradores foram acercando-se.
Ela falava gritando suas dores. Suas penúrias. Sua
desgraça. Convulsivamente. Inconsoladamente.
Na bolsa, ia o dinheiro do aluguel e o da
dívida com a mercearia. Caiu sentada . E espesso sangue
começou a escorrer de entre suas pernas pela calçada.