Contentou-se com sua própria recusa.
Dissera palavra empenhada. Não queria, todavia, nunca
vê-la exigida. Ansiava por ainda mais espaços.
Conquista paulatina. Dorida. De ferir fundo. A cada avanço,
uma alegria esfuziante. Porque ingratuitas eram suas comendas.
E a cada uma dependurava no mais esconso de seu embutido desterro.
Dádivas a uma alma penada. Dádivas obtidas do
amargor de seus combates. Combates esteados pela decisiva
indesistência.
Não há caminho que obste um
coração votado a uma causa. Quaisquer causas.
Quanto mais ainda quando a causa valha a vida que se respira.
A vida que se transpira. Muito, querer é debruar-se
perante os empecilhos. Fazer deles, enquanto recrudescem,
o próprio objeto em foco. E, com os saberes havidos,
ir pondo em aberto o fechado. Desbloqueio são ganhos
convertidos em conquistas. As quais, não-peças
de coleção. Não havê-las para arquivo.
Relicário armazenado para eflúvios de ego. Não.
Conquistas daquelas continham sabores. Néctares inefáveis.
Talvez fossem mesmo semelhantes aos dos deuses. Sabor de conchego
insubstituível de amplexo de mãe. Sabor de conchego
insubstituível de mulher amada. Sabor indescritível
do longo olhar silencioso de criança. Do de um filho.
Conquistas daquelas continham aprendizagens.
Rever os caminhos. Os descaminhos. Os tropeços. Os
equívocos maiores e sutis. Avaliar as estratégias.
E reorganizar-se simultaneamente ao prosseguir da surda e
incessante luta. Que a vida não apresenta outra saída.
Aos homens coube-lhes esta tão-somente.
Defender-se a cada dia. E defender-se é
esse fazer e refazer-se. Pois, é sabido que toda conclusão
é um início. E nenhum percurso é sempre
o mesmo. Que o cotidiano e a mesmice não são
os mesmos. Pois que toda previsão não pode deixar
de prever os imprevistos. Acasos acontecem por mais desconsiderados
que sejam. Sobretudo, porque o homem é um todo permanentemente
inacabado. Inabsoluto.
Então, "Lutar com palavras é
a luta mais vã, entanto lutamos mal rompe a manhã".
Já os afagos afáveis mobilizam vontades, desejos
e entusiasmos infindos. Imensuráveis. E põem
quem os tem em estado de graça aberto. Capaz de construções
múltiplas e muito benfazejas. Táteis passeios
por sítios cavos. Tépidos. Desadormecendo certos
travos. Inaugurando clareiras então inatingíveis.
Inalcançáveis. Conduzindo a inebriantes esconsos.
Todavia, alma em êxtase tem necessidade
do ajuste contraste. Que cabe à matéria em fibra,
osso, carne, pele. O pão que a sustenta, corpo, que
se come, se digere. O corpo tépido. Morno. Transpirando
o árduo trabalho. Trabalhos vários. Que a dúvida
põe em movimento. Que a angústia põe
em ebulição. Que a emoção transmuta
em sonhos; em realidade outra. Que a razão burila,
apascenta, pondera. Mais não fora a vida, senão
esse perigo inevitável. Esse previsto muito incerto.
Essas verdades relativas; mutáveis. Esses pecados inconcebíveis.
Essas concepções de pecado pecaminosas.
Não. Incansavelmente, driblar, à
exaustão, os esmorecimentos. Refazer-se a cada bago
de uva atingido. Tomar de sua seiva reconstituinte. Retemperar
o corpo amante e casto. Fogoso e dócil. Vibrante executor.
Ferro. Frágil. E, de conquista em conquista, ir para
o absoluto. Conquanto seu máximo se teça de
árduos, doridos, mas inebriantes e balsâmicos
pedaços.