Os cães. Guardiões. Folgazões.
Cinco machos. Idades várias. Procedências também.
Mas todos já pra lá de adultos. A família,
classe-média. Machos todos administrados, apascentados
por uma fêmea. Mulher e mãe. Cães e homens
com sobrevida muito à mercê dela.
Como as pessoas da casa, cada cão tem
uma história. Origem. Chegada. E convivência.
Ali vivendo sob o mesmo teto vão compondo sua história
em convívio. Entre si. E a deles com os entes da casa.
Na história de cães, que constroem, a relação
de poder se faz pela força física. Lei da natureza
animal. Ali em escala decimal, o mais fraco apenas obedece.
Nada manda.
Todavia, não fica ele tão-somente
no prejuízo. Sua fragilidade máxima lhe constituiu
privilégios. Os quais lhe conferem status que concretamente
o sobrepõe aos poderes caninos.
Talvez impulsionado pela fragilidade, o instinto
o torna ágil, hábil, inteligente. Simpaticíssimo
à afeição dos da família. Daí
a proteção total. Cães demais da casa
não se atrevam a molestá-lo. Lépido,
corre em busca de socorro humano. E o perseguidor fica humilhado
pela pessoa que o acode. Bronca pesada põe o valente
de orelha abaixada e boca quieta. A forra fica à espera.
Mas todos têm dos donos todos afeto.
Carinho. Atenção. Cada dono tem uma linguagem
com cada cão. E eles as dominam. São cães
poliglotas, enquanto receptores daquelas linguagens várias.
E, decerto, para não confundir nenhum dos seus senhores,
são todos monoglotas, enquanto emissores.
Cães de casa. Não freqüentam
a rua. Nada daquela tal saidinha para passeio pela rua. Ou
quarteirão. Ou disputar eventual cadela. São
machos virgens. É lhes concedido um bom quintal. Onde
fazem suas necessidades. Caminham. Correm às vezes.
Até aos portões para espantar eventuais intrusos.
Para deixar claro aos transeuntes a matilha guardiã
daquela casa. Também correm atrás dos pássaros
ousados. Aos quais até toleram que pousem no quintal.
Na varanda. Só de vez em quando os espantam. Para mostrarem
quem manda.
Todavia, não suportam o atrevimento
de alguns pardais e bem-te-vis. Os quais vão ao comedouro
deles catar ração. Os pardais vão em
grupo. Já bem-te-vi vai sozinho. Menos impetuoso. Vai
devagar. Estudando-os. Prefere a hora em que geralmente todos
caem no sono. Hora da sesta canina. Os bem-te-vis sabem. São
estrategistas. Entretanto, ainda assim, muita vez são
pressentidos. E escorraçados. Logo tornam. O cão
maior, mandão, fica enfurecido com tamanha petulância.
Sua comida, sua ira.
Houve decisão, certa feita, drástica.
Já andavam os cães intoleráveis entre
si além dos limites. Resultado foi a castração
geral. Agora, há controvérsia familiar, quanto
a amassaram-se ou não. Efeito incontestável,
pois que palpáveis: os cães engordam progressivamente.
O maior vai pesadão. Com certa dificuldade de levantar-se.
E a família passou a discutir o corte
alimentício deles. Havia que racionar a ração.
Comiam em excesso. Não comiam. Era efeito da capação.
Não era. Precisavam exercitar-se. Nem tanto. O veterinário
seria a palavra de ordem.
Sim, que têm veterinários; tomam
as vacinas necessárias etc. São cães
com plumas. Sabem da "chuva azul, da fonte cor de rosa,
da água do copo de água, da água de cântaro,
dos peixes de água, da brisa na água."
Dos quais não sabem milhões de homens. E mulheres.
E crianças. Que comem muito mal. Quando comem. Que
não sabem da vacina. Do afeto. Da carícia. Que
a violência plena perfaz a sua rotina. E pouco sabem.
Ou quase não sabem que, quando a vida é digna,
a companhia de um cão. A cara de um cão. O olhar
de um cão. A presença de um cão. Mais
a dignificam.