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Vida/cão
Data 03/out/2002

Os cães. Guardiões. Folgazões. Cinco machos. Idades várias. Procedências também. Mas todos já pra lá de adultos. A família, classe-média. Machos todos administrados, apascentados por uma fêmea. Mulher e mãe. Cães e homens com sobrevida muito à mercê dela.

Como as pessoas da casa, cada cão tem uma história. Origem. Chegada. E convivência. Ali vivendo sob o mesmo teto vão compondo sua história em convívio. Entre si. E a deles com os entes da casa. Na história de cães, que constroem, a relação de poder se faz pela força física. Lei da natureza animal. Ali em escala decimal, o mais fraco apenas obedece. Nada manda.

Todavia, não fica ele tão-somente no prejuízo. Sua fragilidade máxima lhe constituiu privilégios. Os quais lhe conferem status que concretamente o sobrepõe aos poderes caninos.

Talvez impulsionado pela fragilidade, o instinto o torna ágil, hábil, inteligente. Simpaticíssimo à afeição dos da família. Daí a proteção total. Cães demais da casa não se atrevam a molestá-lo. Lépido, corre em busca de socorro humano. E o perseguidor fica humilhado pela pessoa que o acode. Bronca pesada põe o valente de orelha abaixada e boca quieta. A forra fica à espera.

Mas todos têm dos donos todos afeto. Carinho. Atenção. Cada dono tem uma linguagem com cada cão. E eles as dominam. São cães poliglotas, enquanto receptores daquelas linguagens várias. E, decerto, para não confundir nenhum dos seus senhores, são todos monoglotas, enquanto emissores.

Cães de casa. Não freqüentam a rua. Nada daquela tal saidinha para passeio pela rua. Ou quarteirão. Ou disputar eventual cadela. São machos virgens. É lhes concedido um bom quintal. Onde fazem suas necessidades. Caminham. Correm às vezes. Até aos portões para espantar eventuais intrusos. Para deixar claro aos transeuntes a matilha guardiã daquela casa. Também correm atrás dos pássaros ousados. Aos quais até toleram que pousem no quintal. Na varanda. Só de vez em quando os espantam. Para mostrarem quem manda.

Todavia, não suportam o atrevimento de alguns pardais e bem-te-vis. Os quais vão ao comedouro deles catar ração. Os pardais vão em grupo. Já bem-te-vi vai sozinho. Menos impetuoso. Vai devagar. Estudando-os. Prefere a hora em que geralmente todos caem no sono. Hora da sesta canina. Os bem-te-vis sabem. São estrategistas. Entretanto, ainda assim, muita vez são pressentidos. E escorraçados. Logo tornam. O cão maior, mandão, fica enfurecido com tamanha petulância. Sua comida, sua ira.

Houve decisão, certa feita, drástica. Já andavam os cães intoleráveis entre si além dos limites. Resultado foi a castração geral. Agora, há controvérsia familiar, quanto a amassaram-se ou não. Efeito incontestável, pois que palpáveis: os cães engordam progressivamente. O maior vai pesadão. Com certa dificuldade de levantar-se.

E a família passou a discutir o corte alimentício deles. Havia que racionar a ração. Comiam em excesso. Não comiam. Era efeito da capação. Não era. Precisavam exercitar-se. Nem tanto. O veterinário seria a palavra de ordem.

Sim, que têm veterinários; tomam as vacinas necessárias etc. São cães com plumas. Sabem da "chuva azul, da fonte cor de rosa, da água do copo de água, da água de cântaro, dos peixes de água, da brisa na água." Dos quais não sabem milhões de homens. E mulheres. E crianças. Que comem muito mal. Quando comem. Que não sabem da vacina. Do afeto. Da carícia. Que a violência plena perfaz a sua rotina. E pouco sabem. Ou quase não sabem que, quando a vida é digna, a companhia de um cão. A cara de um cão. O olhar de um cão. A presença de um cão. Mais a dignificam.



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