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Insingularidade
Data 26/set/2002

Hábito de ir à estrada em suas caminhadas. O percurso pelo acostamento. Em sentido contrário ao dos veículos. A ilusão consciente de que assim pode assegurar-se. Capaz de livrar-se de algum distúrbio do que vem. Um pedrisco, certa feita, espirrado em seu braço avivou a ilusão. Os vôos de um pássaro, do leito carrossável, para livrar-se dos automóveis. Ele, que ia, tudo, num átimo de pensamento construtor, compusera. Apenas em suspense o desfecho que lhe escapava. Pois pertencia ao real acontecer. Queria-o em favor do pássaro: vistosa ave de rapina comendo um resto de animal no asfalto. Algo que lembrava a lebre. A cada automóvel que aproximava, o pássaro voava de lado. Os condutores em geral desviavam do mínimo cadáver. Todavia, aquele automóvel devia beirar duzentos por hora. A cadência de vôo-desvio do pássaro, que agora mais se entregara à carniça, lhe parecia insuficiente. A velocíssima vinda do carro. O pássaro ávido. Ele meio distante ainda do pássaro em vão enxotou-o. E o desfecho foi o pássaro ficar despedaçado quase no mesmo lugar da possível lebre, seu fatídico repasto. Ele agora ficaria carne nova no lugar da lebre a atrair outra vítima.

Coisas essa e outras que quem corre ou caminha pelas rodovias vê. Ciclistas muitos trafegando nos dois sentidos. Ciclismo utilitário. Ciclismo exercitador. Transeuntes utilitários. Imprevistos tratores sem opção de estrada. Ou por arriscada comodidade. Freqüentes carroças. Travessias impróprias de pista a pista. Cavaleiros; vez em quando. Vez há, adolescentes em montaria em pêlo. Um andarilho vez em quando. "Coisas que pra mode vê, um cristão tem que andar a pé".

Visões e cenas singulares se insurgem por vezes. Que a estrada como tudo da vida tem seu ritmo cotidiano. A do pássaro atropelado, conquanto singular aos olhos de quem a narrou, e similares têm uma certa rotatividade cotidiana também ali. Cachorros mais freqüentemente. Que dentre os peregrinos de beira de estrada a que se mencionou há pouco, os cães são constantes. Seja o cão companheiro de pedestres. Ou o cão companheiro de carroceiros. Contudo, cães andarilhos sempre há. Por que vagueiam estrada afora como que desnorteados, perdidos? Em busca de não se sabe o quê. Então são as vítimas mais constantes.

O singular e patético, uma certa feita. De uma certa distância: alguém meio entrado na pista acenando, que os veículos desviassem. No solo, um animal. Dali ainda imperceptível qual fosse. O volume levava a crer um cachorro. A proximidade, entanto, acusou o engano. Tratava-se de um animal selvagem. Atropelamento recente. O bicho ainda no estertor. O sangue vivo esparramando pelo asfalto. O homem em sua aflição por desviar os veículos. Também tentava tirar o animal da pista. Mas o fazia com hesitação. Pegava-o e logo o largava. Na agonia, o teiú (um teiú enorme; belo; espécime perfeito; uma tristeza) ameaçava atacar o homem que insistia em tirá-lo dali.

Chegando, pôs-se a auxiliar. Por fim, o teiú fora da pista. O teiú no gramado ao lado do acostamento. Entreolharam-se o dois homens. Ele disse ao salvador do teiú que tentaria uma carona. O teiú talvez pudesse ser salvo. O veterinário do zoológico! Era urgente! Não se podia perdê-lo.

Todavia, o homem fechou-se. E em tom de aberta hostilidade desautorizou-o. Não senhor. Faça o favor de seguir seu cúper, moço. Agradecido pela ajuda. O bicho já tá morre-não-morre. É bonito, mas teve azar. Agora vou esperar ele morrer. É uma carne muito boa. E eu, lá em casa, estou em situação que ela vai ser muito bem servida. Desculpe.



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