Hábito de ir à estrada em suas
caminhadas. O percurso pelo acostamento. Em sentido contrário
ao dos veículos. A ilusão consciente de que
assim pode assegurar-se. Capaz de livrar-se de algum distúrbio
do que vem. Um pedrisco, certa feita, espirrado em seu braço
avivou a ilusão. Os vôos de um pássaro,
do leito carrossável, para livrar-se dos automóveis.
Ele, que ia, tudo, num átimo de pensamento construtor,
compusera. Apenas em suspense o desfecho que lhe escapava.
Pois pertencia ao real acontecer. Queria-o em favor do pássaro:
vistosa ave de rapina comendo um resto de animal no asfalto.
Algo que lembrava a lebre. A cada automóvel que aproximava,
o pássaro voava de lado. Os condutores em geral desviavam
do mínimo cadáver. Todavia, aquele automóvel
devia beirar duzentos por hora. A cadência de vôo-desvio
do pássaro, que agora mais se entregara à carniça,
lhe parecia insuficiente. A velocíssima vinda do carro.
O pássaro ávido. Ele meio distante ainda do
pássaro em vão enxotou-o. E o desfecho foi o
pássaro ficar despedaçado quase no mesmo lugar
da possível lebre, seu fatídico repasto. Ele
agora ficaria carne nova no lugar da lebre a atrair outra
vítima.
Coisas essa e outras que quem corre ou caminha
pelas rodovias vê. Ciclistas muitos trafegando nos dois
sentidos. Ciclismo utilitário. Ciclismo exercitador.
Transeuntes utilitários. Imprevistos tratores sem opção
de estrada. Ou por arriscada comodidade. Freqüentes carroças.
Travessias impróprias de pista a pista. Cavaleiros;
vez em quando. Vez há, adolescentes em montaria em
pêlo. Um andarilho vez em quando. "Coisas que pra
mode vê, um cristão tem que andar a pé".
Visões e cenas singulares se insurgem
por vezes. Que a estrada como tudo da vida tem seu ritmo cotidiano.
A do pássaro atropelado, conquanto singular aos olhos
de quem a narrou, e similares têm uma certa rotatividade
cotidiana também ali. Cachorros mais freqüentemente.
Que dentre os peregrinos de beira de estrada a que se mencionou
há pouco, os cães são constantes. Seja
o cão companheiro de pedestres. Ou o cão companheiro
de carroceiros. Contudo, cães andarilhos sempre há.
Por que vagueiam estrada afora como que desnorteados, perdidos?
Em busca de não se sabe o quê. Então são
as vítimas mais constantes.
O singular e patético, uma certa feita.
De uma certa distância: alguém meio entrado na
pista acenando, que os veículos desviassem. No solo,
um animal. Dali ainda imperceptível qual fosse. O volume
levava a crer um cachorro. A proximidade, entanto, acusou
o engano. Tratava-se de um animal selvagem. Atropelamento
recente. O bicho ainda no estertor. O sangue vivo esparramando
pelo asfalto. O homem em sua aflição por desviar
os veículos. Também tentava tirar o animal da
pista. Mas o fazia com hesitação. Pegava-o e
logo o largava. Na agonia, o teiú (um teiú enorme;
belo; espécime perfeito; uma tristeza) ameaçava
atacar o homem que insistia em tirá-lo dali.
Chegando, pôs-se a auxiliar. Por fim,
o teiú fora da pista. O teiú no gramado ao lado
do acostamento. Entreolharam-se o dois homens. Ele disse ao
salvador do teiú que tentaria uma carona. O teiú
talvez pudesse ser salvo. O veterinário do zoológico!
Era urgente! Não se podia perdê-lo.
Todavia, o homem fechou-se. E em tom de aberta
hostilidade desautorizou-o. Não senhor. Faça
o favor de seguir seu cúper, moço. Agradecido
pela ajuda. O bicho já tá morre-não-morre.
É bonito, mas teve azar. Agora vou esperar ele morrer.
É uma carne muito boa. E eu, lá em casa, estou
em situação que ela vai ser muito bem servida.
Desculpe.