Os homens espiam por cima o que não
é homem. Mesmo o que é. E que, todavia, muita
vez é tido como não. Pois que homens espiam
homens não os considerando tais. Espiam-nos e os refutam.
Os homens. Capazes de muito amor. E de muito ódio.
De redenção, perdão. E assassínios
de não se acreditar.
De cima espiam a inferioridade das coisas
por ele consignadas. Nada que suas mãos não
dominem. Nada que a ungida cabeça pensante não
domine; não comande, não determine. A eles.
Por eles. Para eles. Os seres outros. Que são aprisionados.
Que são cevados. Que são caçados. Que
são imolados. Que são sacrificados. E que são
escorraçados.
Os homens sabem. Os outros, subservientes.
Que assim foi. Que assim é. Que Deus quis e quer. E
eles mudam. Transformam. Tudo. À larga. A natureza,
que os contém e aos outros, sangra. E aparentemente
se cala. Verdade que, mãe dadivosa espoliada, emite
sinais de seu limite. Acena aos filhos perdulários,
abastardantes, suas delimitações. Que ávidos,
se supõem não só capazes de subvertê-la,
mas de substituí-la. Capazes de sintetizar uma outra
natureza. E com sofisticação de causar inveja
a Deus. Que este fez Adão de uma costela. Eles fizeram
uma ovelha e outros tais de uma simples célula.
E os rios ossificam-se. O que era água
vai se tornando areia. A desertificação se alarga.
Muitos deles, grandes, generosos, já mal respiram.
Seus pulmões enfizemam-se irreversivelmente. Irrecuperavelmente.
O mais pungente agonizante vivo ainda é o velho Chico.
Esse rio brasileiro mítico. Místico. Quantos
milagres operou e tem operado. Quantas façanhas beneméritas
contadas em muitas histórias. Histórias vivas
e que continuam sustentando a vida dos homens que dele necessitam.
Que dele precisam para sobreviver. Pois, um homem, se morre,
vai sozinho. Leva consigo a si mesmo. Todavia, um rio, um
São Francisco, se morre, com ele morrem muitos outros
pequenos rios. Com ele morrem, abalam-se muitos e muitos outros
seres de seu convívio. Sem ele, muitos e muitos homens
se vêem em grande e penosa dificuldade de sobrevivência.
Não obstante, os venenos todos e muitos,
efeitos da grandeza humana, vão inoculando acintosa
e estupidamente as veias deles. Numa rede de contaminação
incalculável. Porque um rio é outro rio, que
é outro rio, que é outro rio...
E sabem os homens, o que é pior, que
esse feitiço torna a si mesmo. Pois que tudo é
terra. E que o círculo reversível é irreversível
Então, essa terra feita carne, feita sangue, feita
ossos vai envenenando-se a si mesma. Os homens, esses meio
macroorganismos, tão sábios e imprudentes vão
solapando seu ecossistema. Decerto crentes em sua imprevisível
capacidade de extrair do quase nada grandezas.