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Desordens
Data 20/set/2002

Os homens espiam por cima o que não é homem. Mesmo o que é. E que, todavia, muita vez é tido como não. Pois que homens espiam homens não os considerando tais. Espiam-nos e os refutam. Os homens. Capazes de muito amor. E de muito ódio. De redenção, perdão. E assassínios de não se acreditar.

De cima espiam a inferioridade das coisas por ele consignadas. Nada que suas mãos não dominem. Nada que a ungida cabeça pensante não domine; não comande, não determine. A eles. Por eles. Para eles. Os seres outros. Que são aprisionados. Que são cevados. Que são caçados. Que são imolados. Que são sacrificados. E que são escorraçados.

Os homens sabem. Os outros, subservientes. Que assim foi. Que assim é. Que Deus quis e quer. E eles mudam. Transformam. Tudo. À larga. A natureza, que os contém e aos outros, sangra. E aparentemente se cala. Verdade que, mãe dadivosa espoliada, emite sinais de seu limite. Acena aos filhos perdulários, abastardantes, suas delimitações. Que ávidos, se supõem não só capazes de subvertê-la, mas de substituí-la. Capazes de sintetizar uma outra natureza. E com sofisticação de causar inveja a Deus. Que este fez Adão de uma costela. Eles fizeram uma ovelha e outros tais de uma simples célula.

E os rios ossificam-se. O que era água vai se tornando areia. A desertificação se alarga. Muitos deles, grandes, generosos, já mal respiram. Seus pulmões enfizemam-se irreversivelmente. Irrecuperavelmente. O mais pungente agonizante vivo ainda é o velho Chico. Esse rio brasileiro mítico. Místico. Quantos milagres operou e tem operado. Quantas façanhas beneméritas contadas em muitas histórias. Histórias vivas e que continuam sustentando a vida dos homens que dele necessitam. Que dele precisam para sobreviver. Pois, um homem, se morre, vai sozinho. Leva consigo a si mesmo. Todavia, um rio, um São Francisco, se morre, com ele morrem muitos outros pequenos rios. Com ele morrem, abalam-se muitos e muitos outros seres de seu convívio. Sem ele, muitos e muitos homens se vêem em grande e penosa dificuldade de sobrevivência.

Não obstante, os venenos todos e muitos, efeitos da grandeza humana, vão inoculando acintosa e estupidamente as veias deles. Numa rede de contaminação incalculável. Porque um rio é outro rio, que é outro rio, que é outro rio...

E sabem os homens, o que é pior, que esse feitiço torna a si mesmo. Pois que tudo é terra. E que o círculo reversível é irreversível Então, essa terra feita carne, feita sangue, feita ossos vai envenenando-se a si mesma. Os homens, esses meio macroorganismos, tão sábios e imprudentes vão solapando seu ecossistema. Decerto crentes em sua imprevisível capacidade de extrair do quase nada grandezas.

Que Deus não os inveje!



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