Vinha o trem de longínqua estação:
"Olhe, olhe o trem/ vem surgindo de trás das montanhas
azuis./Olhe, olhe o trem/, já evem/ fumegando e apitando
e chamando os que sabem do trem./ Olhe, é o trem/não
precisa passagem nem mesmo bagagem no trem./ Quem vai chorar/quem
vai sorrir/ que vai ficar/quem vai partir." Vem de um
certo lugar do Estado de Mato Grosso. Corumbá, talvez.
De Santa Cruz de la Sierra, talvez. Viagem muito longa. Quem
ia do princípio ao destino viajava dias. Tanto que
muito acontecia. Por menos que se fizesse.
Assim quase, ou pouco menos se dava com a
maioria. O maior número de passageiros viajava quase
até o fim. Ou próximos. O fim era Bauru. Onde,
caso alguém ainda pretendesse prosseguir, havia baldeação.
Trem da Estrada de Ferro Noroeste. Uma espécie
de povoado móvel. O comboio indo e pausando. Pausas
breves. Pausas longas. Em certos ermos lugares o trem fazia
mesmo minutos de parada. Famílias inteiras tinham-no
como único meio de transporte. Para passeios. Para
as compras em povoados longes. Longes. Acesso quase impossível.
Nem em lombo de burro. Nem em carro de bois. Então
o trem servia àquela gente vivendo enrustida no meio
da mata. Era, o trem, a jardineira que ali não havia.
Havia uma gôndola (vagão, se dizia) para o transporte
de animais de pequeno porte. Com os quais e com os cereais
os dependentes usuários do trem negociavam. Tudo sob
a concessão austera e plácida do chefe de trem.
É certo que a ele (e auxiliares) sempre
separavam generosas quantias de bens. Bons nacos de leitoa.
Frescas dúzias de ovos (ovos caipira). Alguma caça
rara (paca, tatu galinha). Queijos. Requeijões.
E o trem era um universo vivo viajando. Nele
se faziam as refeições. As necessidades pessoais.
Nele havia cabines para as higienes pessoais. Nele havia os
aposentos em que se dormia. Havia o restaurante aos que podiam
desfrutá-lo. Havia o jornaleiro. Vendia jornais do
dia apanhados numa estação em que já
estavam disponíveis. Vendia as muitas variedades de
gibi.
O comboio era grande. Em certas curvas, as
classes sociais se miravam dá janela. Os assentos duros
de madeira se viam. As poltronas revestidas de tricoline branco
se viam. Alguns ousados dos vagões finais, vez em quando,
passeavam pelos vagões primeiros. Iam curiosos saber
de perto do conforto daqueles. Que mal se suportavam com aquela
intrusão. Não lhes inspiravam simpatia mínima.
Olhares oblíquos. Olhares alçados por cima dos
óculos. Por cima do jornal. Da revista. Entre repreensivos
e indagadores. Decerto também inquisitivos: ora, ora,
sim senhor, ponham-se nos seus lugares. Que, afinal, lá
não iam. Que aquilo não ia além do que
presumiam. Sujeira. Desorganização. Uma certa
atmosfera pestilenta. Descomposturas. Desleixo considerável.
Nada havia que ver. Evitá-los o possível. O
sossego (não tão confortável) de seu
habitat férreo lhes importava. Conquanto se contivessem
com certa irritação manifesta ao chefe com aquelas
intromissões.
E o "trem danou-se naquelas brenhas/soltando
brasa/comendo lenha, tanto queima como atrasa." E Seu
chefe sabia bem fazer com que aquele comboio vivo seguisse
sua sina. Árduo trabalho de diplomacia e determinada
administração. Mas sabia também dar a
si mesmo a sua própria compensação, no
quando de suas folgas.
Algo muito peculiar. Sua província
a princípio estranhou. Condenou. Depois passou a citá-la
como coisa que eles tinham para ostentar. Não se sabia
de nada semelhante. Aquilo acabou se tornando orgulho do povo
daquele lugar. O chefe de trem, emérito morador dali,
era um bebedor de cerveja imbatível. E cujo ritual
e cenário eram peças fundamentais na composição
daquele feito glorioso.
O ilustre morador daquele lugar, respeitável
chefe de trem da Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil,
nos seus dias de folga ia, já manhãzinha aberta,
à padaria- bar da sua cidadezinha iniciar a sua beberagem.
Postava-se confortavelmente na sua cadeira reservada e à
mesinha de bar apropriada. E as cervejas vinham. Antártica.
Casco verde. Cinta azul. Os cascos vazios iam preenchendo
a mesa. Tomando seu espaço. Numa outra mesa ao lado
os comestíveis. Porções de azeitona.
De salaminho. De queijo prato. Pães. Azeite. Repleta
de cascos de cerveja a primeira mesa, vinha a segunda. Preenchida
a segunda, vinha a terceira. Esta se completava por volta
de onze e meia, meia-noite. O chefe, durante esse tempo todo,
levantava seu corpanzão algumas vezes para o banheiro,
depois que a segunda mesa ia já a meio.
As pessoas ficavam por ali. A rua, a calçada
naquele dia todo ficavam muito movimentada. Conversavam descontraidamente.
Por vezes, um deles mesmo antecipava o dono do bar-padaria
e ia pegar a cerveja ao chefe. Ia pegar a porção
ao chefe. Era como se a rua e a calçada carregadas
de homens figurassem como pano de fundo daquela cena. Cujo
ator principal era o chefe de trem bebendo sua cerveja em
seu dia de folga.