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O trem da Noroeste com aquele chefe
Data 12/set/2002

Vinha o trem de longínqua estação: "Olhe, olhe o trem/ vem surgindo de trás das montanhas azuis./Olhe, olhe o trem/, já evem/ fumegando e apitando e chamando os que sabem do trem./ Olhe, é o trem/não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem./ Quem vai chorar/quem vai sorrir/ que vai ficar/quem vai partir." Vem de um certo lugar do Estado de Mato Grosso. Corumbá, talvez. De Santa Cruz de la Sierra, talvez. Viagem muito longa. Quem ia do princípio ao destino viajava dias. Tanto que muito acontecia. Por menos que se fizesse.

Assim quase, ou pouco menos se dava com a maioria. O maior número de passageiros viajava quase até o fim. Ou próximos. O fim era Bauru. Onde, caso alguém ainda pretendesse prosseguir, havia baldeação.

Trem da Estrada de Ferro Noroeste. Uma espécie de povoado móvel. O comboio indo e pausando. Pausas breves. Pausas longas. Em certos ermos lugares o trem fazia mesmo minutos de parada. Famílias inteiras tinham-no como único meio de transporte. Para passeios. Para as compras em povoados longes. Longes. Acesso quase impossível. Nem em lombo de burro. Nem em carro de bois. Então o trem servia àquela gente vivendo enrustida no meio da mata. Era, o trem, a jardineira que ali não havia. Havia uma gôndola (vagão, se dizia) para o transporte de animais de pequeno porte. Com os quais e com os cereais os dependentes usuários do trem negociavam. Tudo sob a concessão austera e plácida do chefe de trem.

É certo que a ele (e auxiliares) sempre separavam generosas quantias de bens. Bons nacos de leitoa. Frescas dúzias de ovos (ovos caipira). Alguma caça rara (paca, tatu galinha). Queijos. Requeijões.

E o trem era um universo vivo viajando. Nele se faziam as refeições. As necessidades pessoais. Nele havia cabines para as higienes pessoais. Nele havia os aposentos em que se dormia. Havia o restaurante aos que podiam desfrutá-lo. Havia o jornaleiro. Vendia jornais do dia apanhados numa estação em que já estavam disponíveis. Vendia as muitas variedades de gibi.

O comboio era grande. Em certas curvas, as classes sociais se miravam dá janela. Os assentos duros de madeira se viam. As poltronas revestidas de tricoline branco se viam. Alguns ousados dos vagões finais, vez em quando, passeavam pelos vagões primeiros. Iam curiosos saber de perto do conforto daqueles. Que mal se suportavam com aquela intrusão. Não lhes inspiravam simpatia mínima. Olhares oblíquos. Olhares alçados por cima dos óculos. Por cima do jornal. Da revista. Entre repreensivos e indagadores. Decerto também inquisitivos: ora, ora, sim senhor, ponham-se nos seus lugares. Que, afinal, lá não iam. Que aquilo não ia além do que presumiam. Sujeira. Desorganização. Uma certa atmosfera pestilenta. Descomposturas. Desleixo considerável. Nada havia que ver. Evitá-los o possível. O sossego (não tão confortável) de seu habitat férreo lhes importava. Conquanto se contivessem com certa irritação manifesta ao chefe com aquelas intromissões.

E o "trem danou-se naquelas brenhas/soltando brasa/comendo lenha, tanto queima como atrasa." E Seu chefe sabia bem fazer com que aquele comboio vivo seguisse sua sina. Árduo trabalho de diplomacia e determinada administração. Mas sabia também dar a si mesmo a sua própria compensação, no quando de suas folgas.

Algo muito peculiar. Sua província a princípio estranhou. Condenou. Depois passou a citá-la como coisa que eles tinham para ostentar. Não se sabia de nada semelhante. Aquilo acabou se tornando orgulho do povo daquele lugar. O chefe de trem, emérito morador dali, era um bebedor de cerveja imbatível. E cujo ritual e cenário eram peças fundamentais na composição daquele feito glorioso.

O ilustre morador daquele lugar, respeitável chefe de trem da Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, nos seus dias de folga ia, já manhãzinha aberta, à padaria- bar da sua cidadezinha iniciar a sua beberagem. Postava-se confortavelmente na sua cadeira reservada e à mesinha de bar apropriada. E as cervejas vinham. Antártica. Casco verde. Cinta azul. Os cascos vazios iam preenchendo a mesa. Tomando seu espaço. Numa outra mesa ao lado os comestíveis. Porções de azeitona. De salaminho. De queijo prato. Pães. Azeite. Repleta de cascos de cerveja a primeira mesa, vinha a segunda. Preenchida a segunda, vinha a terceira. Esta se completava por volta de onze e meia, meia-noite. O chefe, durante esse tempo todo, levantava seu corpanzão algumas vezes para o banheiro, depois que a segunda mesa ia já a meio.

As pessoas ficavam por ali. A rua, a calçada naquele dia todo ficavam muito movimentada. Conversavam descontraidamente. Por vezes, um deles mesmo antecipava o dono do bar-padaria e ia pegar a cerveja ao chefe. Ia pegar a porção ao chefe. Era como se a rua e a calçada carregadas de homens figurassem como pano de fundo daquela cena. Cujo ator principal era o chefe de trem bebendo sua cerveja em seu dia de folga.



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