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Os aedos daquele lugar
Data 05/set/2002

A imperiosidade dos dois rios era absoluta ali. Duas caudalosas massas d`água circundando o lugar. Dois gigantes cuja relação com o povo era maior do que se podia perceber. Um mais gigante que o outro. Bem mais gigante. Por isso àquele engolia no cotovelo fronteiriço do lugar. Dava pororoca vistosa. Ponto turístico a vir a ser. Ainda restrito. Mínimo o seu acesso. Tudo pairava in natura. Os ribeirinhos dali conviviam com aquilo. Contavam algumas histórias. Histórias de pescaria. Histórias de fancaria. Histórias de aparecimentos.

Dependia de quem as contasse. Os moradores de roça (mais moderno e rigoroso é denominá-los moradores de zona rural). Se são de roça e de beira de rio, mais contadores de causo ainda. Alguns conhecidos e conhecidas de idade eram peritos nisso. Onde fossem, seus causos acabavam sendo contados. Solicitados mesmo. Toda boa festa tinha os seus bons momentos de causos contados por um dos bambas dali. Conversas de serão,houvesse um deles, não se podia terminar a noite sem uns causos. E no instante que dona Gracinha, por exemplo, a mais apreciada, de repente dissesse o seu bordão: "diz que uma vez", a conversa se interrompia e todos se voltavam a ela. Então as suas histórias tomavam conta da roda.

Os rios sempre compondo o centro. Quando não personagem, cenário maior. Entidade viva e superior. Neles habitavam a mãe d`água, a Uiara. Habitavam duendes vários. Dona Gracinha manejava tudo em suas histórias com a habilidade semelhante à que dispensava ao cultivo de sua horta. Perfeita. Verduras e legumes sem iguais. Impossível não adquiri-los.

Outras histórias eram as que diziam de gente desaparecida nos rios. Desde desaparecimentos inexplicáveis a afogamentos resgatados e não-resgatados. Logo, o repertório de dona Gracinha e dos demais contadores de causo expandia.

O rio maior. Muito maior concedia ilhas não muito menos gigantescas. Quilométricas. Nelas um outro mundo. Não completamente. Mas diverso singularmente. Os ilhéus. Quase autônomos. A agricultura de subsistência. As cevas para a capturação de capivaras. Algum pássaro. Mercanciavam com os ribeirinhos. Com o pequeno comércio da cidadezinha. Coisas para o gasto básico. A roupa pouca. O calçado escasso. Alguma comida industrializada atrativa. Enlatados. As mercadorias para os vícios. O cigarro. Principalmente o fumo de corda. A cachaça indispensável. A convivência vizinha, ilhéus e ribeirinhos, fazia-se conforme a salutar solidariedade entre periféricos da periferia. Que o lugar era o fim do Estado. Havia entre eles a troca. As atrações. As desavenças. E até acentuados preconceitos. Ribeirinhos se consideram citadinos. Aos ilhéus, capiaus. Armavam as disputas. Batiam-se nos campeonatos de baralho. Nos campeonatos de futebol. Nos campeonatos de regata lá deles. Nos campeonatos de pesca. Tudo acabava em festa. Danças. Cantorias. Namoros. Noivados. Bebedeiras. E brigas. O dia seguinte iniciava a recomposição. Das coisas. Dos juízos. E os subseqüentes restabeleciam o cotidiano.

As noites comuns eram puro pretume e estrelas. A soberania lunar pairava. Escassos, vagos pontos de luz subartificial por vezes perceptíveis. Lume de lamparinas a querosene adquirida nas vendas da cidadezinha. Única luminária das duas moradas.

A noite e seus sortilégios. O rio refrescando. O rio fazendo frio. O homem, se não dorme, logo põe-se a cismar. Também o rádio de pilha comprado na loja da cidadezinha campeava com suas rádios difundindo a eles as modas de viola.

Decerto essas noites negras vestidas de estrelas e de seu diadema-lunar punham imagionosa dona Gracinha e demais contadores de causo. E suas histórias compunham o universo sociocultural do lugar. Era costume ouvi-los. Querer ouvi-los. E mesmo eram reverencidos. As escolas programavam encontros. Eles iam. Contavam causos de gente afogada que a meias-noites determinadas apareciam no rio. Remando seus barcos. Inteiramente brancos. Resplandecentes. Causos como o do boiadeiro que caiu no rio maior com seu cavalo garboso. Baio lindo. Todo equipado. E nunca mais foram encontrados. Por mais que mergulhassem. Depois, incertas sextas-feiras treze, eles apareciam. O cavalo baio fulgurante com sua marcha eclética sobre as águas. O seu cavaleiro empertigado. Boiadeiro impecavelmente vestido. Tocando um berrante inaudível aos que o vissem.

Dona Gracinha, a mais agraciada, e os outros contadores de causos. Os notórios aedos do lugar.



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