A imperiosidade dos dois rios era absoluta
ali. Duas caudalosas massas d`água circundando o lugar.
Dois gigantes cuja relação com o povo era maior
do que se podia perceber. Um mais gigante que o outro. Bem
mais gigante. Por isso àquele engolia no cotovelo fronteiriço
do lugar. Dava pororoca vistosa. Ponto turístico a
vir a ser. Ainda restrito. Mínimo o seu acesso. Tudo
pairava in natura. Os ribeirinhos dali conviviam com aquilo.
Contavam algumas histórias. Histórias de pescaria.
Histórias de fancaria. Histórias de aparecimentos.
Dependia de quem as contasse. Os moradores
de roça (mais moderno e rigoroso é denominá-los
moradores de zona rural). Se são de roça e de
beira de rio, mais contadores de causo ainda. Alguns conhecidos
e conhecidas de idade eram peritos nisso. Onde fossem, seus
causos acabavam sendo contados. Solicitados mesmo. Toda boa
festa tinha os seus bons momentos de causos contados por um
dos bambas dali. Conversas de serão,houvesse um deles,
não se podia terminar a noite sem uns causos. E no
instante que dona Gracinha, por exemplo, a mais apreciada,
de repente dissesse o seu bordão: "diz que uma
vez", a conversa se interrompia e todos se voltavam a
ela. Então as suas histórias tomavam conta da
roda.
Os rios sempre compondo o centro. Quando não
personagem, cenário maior. Entidade viva e superior.
Neles habitavam a mãe d`água, a Uiara. Habitavam
duendes vários. Dona Gracinha manejava tudo em suas
histórias com a habilidade semelhante à que
dispensava ao cultivo de sua horta. Perfeita. Verduras e legumes
sem iguais. Impossível não adquiri-los.
Outras histórias eram as que diziam
de gente desaparecida nos rios. Desde desaparecimentos inexplicáveis
a afogamentos resgatados e não-resgatados. Logo, o
repertório de dona Gracinha e dos demais contadores
de causo expandia.
O rio maior. Muito maior concedia ilhas não
muito menos gigantescas. Quilométricas. Nelas um outro
mundo. Não completamente. Mas diverso singularmente.
Os ilhéus. Quase autônomos. A agricultura de
subsistência. As cevas para a capturação
de capivaras. Algum pássaro. Mercanciavam com os ribeirinhos.
Com o pequeno comércio da cidadezinha. Coisas para
o gasto básico. A roupa pouca. O calçado escasso.
Alguma comida industrializada atrativa. Enlatados. As mercadorias
para os vícios. O cigarro. Principalmente o fumo de
corda. A cachaça indispensável. A convivência
vizinha, ilhéus e ribeirinhos, fazia-se conforme a
salutar solidariedade entre periféricos da periferia.
Que o lugar era o fim do Estado. Havia entre eles a troca.
As atrações. As desavenças. E até
acentuados preconceitos. Ribeirinhos se consideram citadinos.
Aos ilhéus, capiaus. Armavam as disputas. Batiam-se
nos campeonatos de baralho. Nos campeonatos de futebol. Nos
campeonatos de regata lá deles. Nos campeonatos de
pesca. Tudo acabava em festa. Danças. Cantorias. Namoros.
Noivados. Bebedeiras. E brigas. O dia seguinte iniciava a
recomposição. Das coisas. Dos juízos.
E os subseqüentes restabeleciam o cotidiano.
As noites comuns eram puro pretume e estrelas.
A soberania lunar pairava. Escassos, vagos pontos de luz subartificial
por vezes perceptíveis. Lume de lamparinas a querosene
adquirida nas vendas da cidadezinha. Única luminária
das duas moradas.
A noite e seus sortilégios. O rio refrescando.
O rio fazendo frio. O homem, se não dorme, logo põe-se
a cismar. Também o rádio de pilha comprado na
loja da cidadezinha campeava com suas rádios difundindo
a eles as modas de viola.
Decerto essas noites negras vestidas de estrelas
e de seu diadema-lunar punham imagionosa dona Gracinha e demais
contadores de causo. E suas histórias compunham o universo
sociocultural do lugar. Era costume ouvi-los. Querer ouvi-los.
E mesmo eram reverencidos. As escolas programavam encontros.
Eles iam. Contavam causos de gente afogada que a meias-noites
determinadas apareciam no rio. Remando seus barcos. Inteiramente
brancos. Resplandecentes. Causos como o do boiadeiro que caiu
no rio maior com seu cavalo garboso. Baio lindo. Todo equipado.
E nunca mais foram encontrados. Por mais que mergulhassem.
Depois, incertas sextas-feiras treze, eles apareciam. O cavalo
baio fulgurante com sua marcha eclética sobre as águas.
O seu cavaleiro empertigado. Boiadeiro impecavelmente vestido.
Tocando um berrante inaudível aos que o vissem.
Dona Gracinha, a mais agraciada, e os outros
contadores de causos. Os notórios aedos do lugar.