Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Tortura (nunca mais?)
Data 30/ago/2002

Um traço pontiagudo golpeou seu peito sem dó. Rilhou os dentes de dor. Não ousava uma palavra. Suportar a laceração até o fim. Recorria a imagens de sofrimentos. Os negros escravos. Os açoites nos troncos. A pele negra retalhada a faca. O sangue vermelho opacidado na negra pele. Os dentes de jasmim contrastando na dor.

A história da tortura na história dos homens. Assim vem sendo. Desde os primórdios. A tortura da espécie a si mesma. A tortura da espécie às outras espécies. A tortura e suas múltiplas formas. Das mais violentas às mais requintadas. Das mais bárbaras às mais sádicas.

Não sabia que houvesse. Mas uma pesquisa sobre tortura daria vários trabalhos. Capaz mesmo de esmerado tratado. Um tratado sobre tortura. Não parece haver povos dela isentos. Em homens havendo, a tortura se faz. Mais. Ou menos. Sutil ou explícita. Física ou psicológica. Física e psicológica.

Suas reflexões, desvairadas que fossem, assim pululando. Uma forma de se fortalecer. Admitia ele mesmo que esquisita. Mas incutia força. E, cristão, ia a Cristo. Aí tomava ainda e muito mais seus anestésicos. Eis um torturado modelar. A história do homem é ainda ínfima. Categoricamente, apartado o dogmatismo, difícil sustentar algo sem igual. Todavia, sem dúvida, exemplar. Pois, se considerado o dogma, tanto mais imenso. E completo. Sabia Cristo todo o padecimento seu. Tortura psicológica dolorosa. A ponto de, se sabendo de Deus, sentir grande medo. E pedir clemência: Pai, afasta de mim esse cálice. E a tortura da solidão. Do abandono. Depois, a tortura física atroz. Cujo auge é a crucificação.

"Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste, se sabia que eu não era Deus." Ousar contra as ordens: sujeito à vontade torturadora. Instância máxima de terror. Não se situava nos morros. Nas favelas. Não se admitia - o que considerava crime a refinada tortura --, sequer por hipótese, a idéia da denominação de terroristas. A eles, terroristas eram os comunistas! Mesmo (embora quase importunos) os nazistas. Os fascistas. A tortura em nome da ordem. Em nome do bem-estar social ("Brasil, ame-o, ou deixe-o!")

No instante em que o estalido agudo do tiro de mentira se deu em seu ouvido, cochilava. Apavorado, acordou. Eles riam gostosamente de seu susto. Por segundos, custou a entender. O sono lhe havia trazido bons momentos. Visto o relógio da parede (até ele aparentava ser em favor da tortura), foram apenas minutos de sono. Sentado em um banco duro de madeira. Havia semelhantes na escola. Lá fazia parte dos prazeres dos alunos. Depois, aproximaram-se. Se sua filha se chamava Fulana; se os cabelos louros encaracolados iam até os ombros; se os olhos eram azuis; se era magra e gostosa; se ele já a havia visto nua; se ele queria assistir às sessões em que ela seria comida pelos figurões responsáveis pela primeira estuprada (ela era virgem? se fosse, seria mais espicaçante , a libido punha-os no auge da ansiedade, ficavam fogosos, impacientes); se queria assistir ao pós-estupro: a vez dos não-figurões. Os a que destinavam a sobra. São também impetuosos.

Depois, a denominada solitária. Cubículo estreitíssimo. Completamente escuro. Sufocante. Ventilação quase nenhuma. Apenas podia deitar-se ou sentar-se. As necessidades fisiológicas putrefazendo o ar já mínimo. Alimentação nenhuma. Um liquido entre repugnante e salgado. Os muitos exercícios mentais para não se enlouquecer. Saía-se um esqueleto. A claridade acutelando os olhos durante dias.

Era bom saber depois: não haviam estuprado a filha. Não haviam estuprado a mulher. Mas a dor e o ódio permaneciam em saber que a outras filhas e mulheres estupravam. E estuprariam.

Não morrer. Não enlouquecer. Com que se estaria vencendo-os de algum modo. O ódio deles maior advinha dessa superação do torturado. Certamente sentiam-se fracassados. Vencidos. Maus torturadores. Torturar levando à morte, evitavam. Acarretava-lhes problemas.

A vingança maior do torturado. Escapar-se da morte. Do enlouquecimento. Contundente tortura a esses eternos dignitários torturadores de homens, animais e vegetais.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético