Um traço pontiagudo golpeou seu peito
sem dó. Rilhou os dentes de dor. Não ousava
uma palavra. Suportar a laceração até
o fim. Recorria a imagens de sofrimentos. Os negros escravos.
Os açoites nos troncos. A pele negra retalhada a faca.
O sangue vermelho opacidado na negra pele. Os dentes de jasmim
contrastando na dor.
A história da tortura na história
dos homens. Assim vem sendo. Desde os primórdios. A
tortura da espécie a si mesma. A tortura da espécie
às outras espécies. A tortura e suas múltiplas
formas. Das mais violentas às mais requintadas. Das
mais bárbaras às mais sádicas.
Não sabia que houvesse. Mas uma pesquisa
sobre tortura daria vários trabalhos. Capaz mesmo de
esmerado tratado. Um tratado sobre tortura. Não parece
haver povos dela isentos. Em homens havendo, a tortura se
faz. Mais. Ou menos. Sutil ou explícita. Física
ou psicológica. Física e psicológica.
Suas reflexões, desvairadas que fossem,
assim pululando. Uma forma de se fortalecer. Admitia ele mesmo
que esquisita. Mas incutia força. E, cristão,
ia a Cristo. Aí tomava ainda e muito mais seus anestésicos.
Eis um torturado modelar. A história do homem é
ainda ínfima. Categoricamente, apartado o dogmatismo,
difícil sustentar algo sem igual. Todavia, sem dúvida,
exemplar. Pois, se considerado o dogma, tanto mais imenso.
E completo. Sabia Cristo todo o padecimento seu. Tortura psicológica
dolorosa. A ponto de, se sabendo de Deus, sentir grande medo.
E pedir clemência: Pai, afasta de mim esse cálice.
E a tortura da solidão. Do abandono. Depois, a tortura
física atroz. Cujo auge é a crucificação.
"Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste,
se sabia que eu não era Deus." Ousar contra as
ordens: sujeito à vontade torturadora. Instância
máxima de terror. Não se situava nos morros.
Nas favelas. Não se admitia - o que considerava crime
a refinada tortura --, sequer por hipótese, a idéia
da denominação de terroristas. A eles, terroristas
eram os comunistas! Mesmo (embora quase importunos) os nazistas.
Os fascistas. A tortura em nome da ordem. Em nome do bem-estar
social ("Brasil, ame-o, ou deixe-o!")
No instante em que o estalido agudo do tiro
de mentira se deu em seu ouvido, cochilava. Apavorado, acordou.
Eles riam gostosamente de seu susto. Por segundos, custou
a entender. O sono lhe havia trazido bons momentos. Visto
o relógio da parede (até ele aparentava ser
em favor da tortura), foram apenas minutos de sono. Sentado
em um banco duro de madeira. Havia semelhantes na escola.
Lá fazia parte dos prazeres dos alunos. Depois, aproximaram-se.
Se sua filha se chamava Fulana; se os cabelos louros encaracolados
iam até os ombros; se os olhos eram azuis; se era magra
e gostosa; se ele já a havia visto nua; se ele queria
assistir às sessões em que ela seria comida
pelos figurões responsáveis pela primeira estuprada
(ela era virgem? se fosse, seria mais espicaçante ,
a libido punha-os no auge da ansiedade, ficavam fogosos, impacientes);
se queria assistir ao pós-estupro: a vez dos não-figurões.
Os a que destinavam a sobra. São também impetuosos.
Depois, a denominada solitária. Cubículo
estreitíssimo. Completamente escuro. Sufocante. Ventilação
quase nenhuma. Apenas podia deitar-se ou sentar-se. As necessidades
fisiológicas putrefazendo o ar já mínimo.
Alimentação nenhuma. Um liquido entre repugnante
e salgado. Os muitos exercícios mentais para não
se enlouquecer. Saía-se um esqueleto. A claridade acutelando
os olhos durante dias.
Era bom saber depois: não haviam estuprado
a filha. Não haviam estuprado a mulher. Mas a dor e
o ódio permaneciam em saber que a outras filhas e mulheres
estupravam. E estuprariam.
Não morrer. Não enlouquecer.
Com que se estaria vencendo-os de algum modo. O ódio
deles maior advinha dessa superação do torturado.
Certamente sentiam-se fracassados. Vencidos. Maus torturadores.
Torturar levando à morte, evitavam. Acarretava-lhes
problemas.
A vingança maior do torturado. Escapar-se
da morte. Do enlouquecimento. Contundente tortura a esses
eternos dignitários torturadores de homens, animais
e vegetais.