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Uma bala para uma menina
Data 22/ago/2002

Quando a bala perdida a encontrou, ela brincava com sua boneca. As janelas respiravam o ar nada puro. Mas único. Pequena. Infante estabelecendo o seu dia. Senhora do seu espaço. Seu imaginário articulando a vida.

A boneca. Personagem imprescindível. Ora no colo. Ora no berço. Ora sentada no meio do cômodo. Loquaz na sua mudez ressonante ao monólogo-diálogo de sua senhora. Senhora mãe. Senhora vizinha. Senhora visita. Senhora professora. Fulana, grande amiga.

Como todas as outras crianças ia à escola. Exercício de sociabilidade. De desenvolvimento da inteligência. Da criatividade. Lugar de aprendizagem. Lugar de aquisição e exercício do conhecimento. A escola de agora. Como a escola de outrora. Seus responsáveis pronunciando-a desse modo. Necessária para a cidadania. Ruim com ela. Pior sem ela, se diz.

Então a menina, filha de classe mínima, mas não ínfima, à escola ia. Assídua. Dócil. Já a vaidade feminina a dirigia. Bem articulada. Operava com a desenvoltura padrão pra mais avançada no seu universo mágico-infantil. Universo este subsidiado pela realidade-mágica de sua sociedade globalizada.

Decerto a família fazendo para si, para a filha, conforme reza essa cartilha do bem-estar social. As frustrações sendo previsíveis. Logo toleráveis. Compõem o imaginário coletivo de formação a que dedicação, dificuldade e um certo sofrimento são o caminho do sucesso. Família já de base de formação moderna. Genitores trabalham profissionalmente. Ocasião em que o orçamento familiar fica mais sustentável. Insere a família no meio daqueles que desfrutam fatias do conforto justo aos homens de bem. Quanto mais atividade remunerável, mas se pode fazer frente às instâncias que o consumo global encarece.

Os filhos ficam à mercê das babás boas. E das más. A televisão faz a sua parte. Revela a realidade fantástica global à menina. A televisão é um ancilar instrumento das ações formadoras/deformadoras. Dispositivo que, para isso, agregou-se ao rádio. E que a ela agregou-se a Internet.

A menina, como os demais de sua geração, tornou-se navegante virtual. As virtualidades múltiplas. Nada semelhantes às tradicionais. O virtual de cunho internauta contém vários reais. Nada a ver com o que pode vir a ser.

Então o clichê mais ressonante: uma sociedade em crise. Uma sociedade posta em questão. Valores. Desvalores. Ético. Não-ético. O instantâneo. A simultaneidade regendo também nessa esfera. Nada praticamente incólume. Nada intocável. A infância desarraigada. Com maior independência. Formando-se senhora do seu nariz. Senhora, todavia, quase sempre precoce. À frente, sua realidade mágica. A desinfelicidade como uma sombra. O sentimento de fracasso como fantasmas. A crônica solidão abrindo para as sórdidas garras. Desfeitos afetos. Corrompido o sentimento da condição humana. A insolidariedade. Incontível intemperança. Sestros múltiplos. Inexplicável necessidade crônica dos pais.

Mas esta evolução não se deu com aquela menina. A realidade fantástica da sociedade sua interveio. Essa sociedade evolutiva. Cibernética. Muito cada vez mais civilizada. Em que seus humanos habitam quase todos cidades. Essa sociedade preserva o dom dos facínoras de sua antigüidade. Que tem nos filmes de caubói a grande memória-reserva. Por um nada sacam da arma. Atiram à revelia. Como os estereotipados pistoleiros. Pós-modernos pistoleiros de toda ordem. De to tipo e moda. Desde os marginalizados aos detentores de nobres cargos. Conquanto ultracivilização, quase nada vale o diálogo. O argumento. O tiro. A bala continua impondo o desfecho. A barbárie detém o poder de fato.

E agora, nesta civilização de altos conglomerados, bala que viaja a esmo sempre encontra um corpo em que se alojar. Pois foi quando sobrara assim perdida. Encontrou aquela menina brincando com sua boneca. Perdida em sua fantasia de infância. Ficou súbito muda. Estatelada. O sangue escorrendo para o lado da boneca. Senhora de mais nenhuma fala. A boneca do lado continuava rindo. Achando, decerto, que aquilo era outra peça que sua dona lhe pregava.



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