Quando a bala perdida a encontrou, ela brincava
com sua boneca. As janelas respiravam o ar nada puro. Mas
único. Pequena. Infante estabelecendo o seu dia. Senhora
do seu espaço. Seu imaginário articulando a
vida.
A boneca. Personagem imprescindível.
Ora no colo. Ora no berço. Ora sentada no meio do cômodo.
Loquaz na sua mudez ressonante ao monólogo-diálogo
de sua senhora. Senhora mãe. Senhora vizinha. Senhora
visita. Senhora professora. Fulana, grande amiga.
Como todas as outras crianças ia à
escola. Exercício de sociabilidade. De desenvolvimento
da inteligência. Da criatividade. Lugar de aprendizagem.
Lugar de aquisição e exercício do conhecimento.
A escola de agora. Como a escola de outrora. Seus responsáveis
pronunciando-a desse modo. Necessária para a cidadania.
Ruim com ela. Pior sem ela, se diz.
Então a menina, filha de classe mínima,
mas não ínfima, à escola ia. Assídua.
Dócil. Já a vaidade feminina a dirigia. Bem
articulada. Operava com a desenvoltura padrão pra mais
avançada no seu universo mágico-infantil. Universo
este subsidiado pela realidade-mágica de sua sociedade
globalizada.
Decerto a família fazendo para si,
para a filha, conforme reza essa cartilha do bem-estar social.
As frustrações sendo previsíveis. Logo
toleráveis. Compõem o imaginário coletivo
de formação a que dedicação, dificuldade
e um certo sofrimento são o caminho do sucesso. Família
já de base de formação moderna. Genitores
trabalham profissionalmente. Ocasião em que o orçamento
familiar fica mais sustentável. Insere a família
no meio daqueles que desfrutam fatias do conforto justo aos
homens de bem. Quanto mais atividade remunerável, mas
se pode fazer frente às instâncias que o consumo
global encarece.
Os filhos ficam à mercê das babás
boas. E das más. A televisão faz a sua parte.
Revela a realidade fantástica global à menina.
A televisão é um ancilar instrumento das ações
formadoras/deformadoras. Dispositivo que, para isso, agregou-se
ao rádio. E que a ela agregou-se a Internet.
A menina, como os demais de sua geração,
tornou-se navegante virtual. As virtualidades múltiplas.
Nada semelhantes às tradicionais. O virtual de cunho
internauta contém vários reais. Nada a ver com
o que pode vir a ser.
Então o clichê mais ressonante:
uma sociedade em crise. Uma sociedade posta em questão.
Valores. Desvalores. Ético. Não-ético.
O instantâneo. A simultaneidade regendo também
nessa esfera. Nada praticamente incólume. Nada intocável.
A infância desarraigada. Com maior independência.
Formando-se senhora do seu nariz. Senhora, todavia, quase
sempre precoce. À frente, sua realidade mágica.
A desinfelicidade como uma sombra. O sentimento de fracasso
como fantasmas. A crônica solidão abrindo para
as sórdidas garras. Desfeitos afetos. Corrompido o
sentimento da condição humana. A insolidariedade.
Incontível intemperança. Sestros múltiplos.
Inexplicável necessidade crônica dos pais.
Mas esta evolução não
se deu com aquela menina. A realidade fantástica da
sociedade sua interveio. Essa sociedade evolutiva. Cibernética.
Muito cada vez mais civilizada. Em que seus humanos habitam
quase todos cidades. Essa sociedade preserva o dom dos facínoras
de sua antigüidade. Que tem nos filmes de caubói
a grande memória-reserva. Por um nada sacam da arma.
Atiram à revelia. Como os estereotipados pistoleiros.
Pós-modernos pistoleiros de toda ordem. De to tipo
e moda. Desde os marginalizados aos detentores de nobres cargos.
Conquanto ultracivilização, quase nada vale
o diálogo. O argumento. O tiro. A bala continua impondo
o desfecho. A barbárie detém o poder de fato.
E agora, nesta civilização de
altos conglomerados, bala que viaja a esmo sempre encontra
um corpo em que se alojar. Pois foi quando sobrara assim perdida.
Encontrou aquela menina brincando com sua boneca. Perdida
em sua fantasia de infância. Ficou súbito muda.
Estatelada. O sangue escorrendo para o lado da boneca. Senhora
de mais nenhuma fala. A boneca do lado continuava rindo. Achando,
decerto, que aquilo era outra peça que sua dona lhe
pregava.