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Dinheiro
Data 09/ago/2002

Porque não devia ser se diz: dinheiro não traz felicidade. Todavia, se sabe que compra. Compra a comida mínima à fome muita. Compra a comida excessiva à fome farta. Compra a roupa mínima e única e repetitiva de que se necessita. E a roupa muita de que se descarta a cada moda.

O dinheiro compra a casa mínima feita de fornada. E compra a casa dos sonhos. Bem traçada. Bem caiada. Casas espaçadas. Que mais se mostram, que são usadas. O dinheiro compra a bicicleta. O automóvel. O supersônico. O dinheiro compra a previdência insabida do futuro. Compra a assistência, o socorro de toda espécie. A assistência médica se mede pelo dinheiro. A formação escolar se constrói com dinheiro. O poder. O sedutor poder tem seu alto preço em dinheiro. Que confere ao poderoso o poder de comprar. Comprar a subserviência. Comprar o silêncio. Comprar a condição de instalar, de estabelecer a dor. O sofrimento. A condição de ser senhor. Porque sua é a propriedade do dinheiro. Propriedade que lhe confere o poder de propriedades outras quaisquer.

O dinheiro compra a força. A força de arrasadoras armas. A força da preguiça. A força da covardia. A força do medo. A força da inércia. O dinheiro compra casamentos. Sacramentos. Indulgências. Compra posições. Compra privilégios. O dinheiro compra liberdades. Compra amores vários. Múltiplos. O dinheiro compra sacrilégios. Compra a cumplicidade. A privacidade. Compra os judas iscariotes. Compra os joaquins silvérios. Compra o melhor terno. O melhor féretro. O melhor túmulo. A melhor missa. O melhor séqüito.

O dinheiro compra o talento. Compra a tecnologia. Compra o emprego e o uso deles. Compra o direito sobre eles. O dinheiro sustenta, propaga o tráfico. O contrabando. O dinheiro sempre desencadeia desejos. Desde os vitais aos mais espúrios. O dinheiro inspira tentações.

Todavia, dinheiro nenhum compra a gratuidade daquele bem-te-vi espojado no galho da goiabeira. Que produz sua especial linguagem. Estridente. Envolvente. O dinheiro não compra a gratuidade daquele beija-flor volocíssimo. E menos selvagem. Que depois de seus circunvolteios a conferir este quintal sua seva, assenta. Indescritível colibri pousado em galho a se bicocorar. Abrindo alternadamente seus leques-asa. Seu leque-cauda. Há dinheiro algum que pague.

Dinheiro nenhum compra o extremado olhar de amor de mãe derramado. O olhar sorriso despreendido do filho à devotada mãe. Há dinheiro nenhum que compre a fé mesma, inadjetiva de quaisquer. A fé principalmente ungida do homem do povo. Não há dinheiro que compre a consciência convicta. Consciência formada na liberdade de pensar. De falar. De opinar. De errar.Dinheiro nenhum é capaz de comprar a gratuidade esplendorosa das flores do campo. No cacto. Na frincha do muro enegrecido de abandono. Não é capaz o dinheiro de comprar o esplendor da estrela da manhã. Tampouco o brilho singular e inigualável da Aldebarã Do inebriante ciclo do luar. Que pouco se dá, como pouco se dão todos os outros a essa moeda mal sã. Engrandecidos, querem sempre o impagável merecimento de seus fãs. Não há dinheiro que compre o inefável amor. A racional paixão. Nem mesmo de uma cortesã.

O dinheiro é capaz de fazer o bem aos homens de bem. Os bem-aventurados. Que o tem como tem uma camisa. Um sapato. Vão- se com o gasto.

A grande felicidade do homem está em fazer de seu dinheiro um dos seus tesouros. Em fazer de seu dinheiro também um certo dinheiro a outros.



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