Porque não devia ser se diz: dinheiro
não traz felicidade. Todavia, se sabe que compra. Compra
a comida mínima à fome muita. Compra a comida
excessiva à fome farta. Compra a roupa mínima
e única e repetitiva de que se necessita. E a roupa
muita de que se descarta a cada moda.
O dinheiro compra a casa mínima feita
de fornada. E compra a casa dos sonhos. Bem traçada.
Bem caiada. Casas espaçadas. Que mais se mostram, que
são usadas. O dinheiro compra a bicicleta. O automóvel.
O supersônico. O dinheiro compra a previdência
insabida do futuro. Compra a assistência, o socorro
de toda espécie. A assistência médica
se mede pelo dinheiro. A formação escolar se
constrói com dinheiro. O poder. O sedutor poder tem
seu alto preço em dinheiro. Que confere ao poderoso
o poder de comprar. Comprar a subserviência. Comprar
o silêncio. Comprar a condição de instalar,
de estabelecer a dor. O sofrimento. A condição
de ser senhor. Porque sua é a propriedade do dinheiro.
Propriedade que lhe confere o poder de propriedades outras
quaisquer.
O dinheiro compra a força. A força
de arrasadoras armas. A força da preguiça. A
força da covardia. A força do medo. A força
da inércia. O dinheiro compra casamentos. Sacramentos.
Indulgências. Compra posições. Compra
privilégios. O dinheiro compra liberdades. Compra amores
vários. Múltiplos. O dinheiro compra sacrilégios.
Compra a cumplicidade. A privacidade. Compra os judas iscariotes.
Compra os joaquins silvérios. Compra o melhor terno.
O melhor féretro. O melhor túmulo. A melhor
missa. O melhor séqüito.
O dinheiro compra o talento. Compra a tecnologia.
Compra o emprego e o uso deles. Compra o direito sobre eles.
O dinheiro sustenta, propaga o tráfico. O contrabando.
O dinheiro sempre desencadeia desejos. Desde os vitais aos
mais espúrios. O dinheiro inspira tentações.
Todavia, dinheiro nenhum compra a gratuidade
daquele bem-te-vi espojado no galho da goiabeira. Que produz
sua especial linguagem. Estridente. Envolvente. O dinheiro
não compra a gratuidade daquele beija-flor volocíssimo.
E menos selvagem. Que depois de seus circunvolteios a conferir
este quintal sua seva, assenta. Indescritível colibri
pousado em galho a se bicocorar. Abrindo alternadamente seus
leques-asa. Seu leque-cauda. Há dinheiro algum que
pague.
Dinheiro nenhum compra o extremado olhar de
amor de mãe derramado. O olhar sorriso despreendido
do filho à devotada mãe. Há dinheiro
nenhum que compre a fé mesma, inadjetiva de quaisquer.
A fé principalmente ungida do homem do povo. Não
há dinheiro que compre a consciência convicta.
Consciência formada na liberdade de pensar. De falar.
De opinar. De errar.Dinheiro nenhum é capaz de comprar
a gratuidade esplendorosa das flores do campo. No cacto. Na
frincha do muro enegrecido de abandono. Não é
capaz o dinheiro de comprar o esplendor da estrela da manhã.
Tampouco o brilho singular e inigualável da Aldebarã
Do inebriante ciclo do luar. Que pouco se dá, como
pouco se dão todos os outros a essa moeda mal sã.
Engrandecidos, querem sempre o impagável merecimento
de seus fãs. Não há dinheiro que compre
o inefável amor. A racional paixão. Nem mesmo
de uma cortesã.
O dinheiro é capaz de fazer o bem aos
homens de bem. Os bem-aventurados. Que o tem como tem uma
camisa. Um sapato. Vão- se com o gasto.
A grande felicidade do homem está em
fazer de seu dinheiro um dos seus tesouros. Em fazer de seu
dinheiro também um certo dinheiro a outros.