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Morcego
Data 01/ago/2002

Morcego é bicho estranho. Vôo destroçado. Como quem desesperado obsessivamente procura . Ávido, em seu vôo, não se descobre. Como ser que se busca. Abomina o anonimato. Atira-se ao espaço no encalço de seus traços. De sua identidade. De seu nome. E tudo num curto lusco-fusco. Pouco mais, se tanto. Depois, o cansaço o desvanece. Dependura-se. Feito fruta madura. E adormece. Ou hiberna-se em sua quietude inquieta de quem se sente frustrado e impotente. Vez que seu vôo tem sido em vão. Ameniza-o que nele captura algum alimento. A tardezinha põe nos insetos minúsculos vontade irrefreável de tomar ao o princípio da fresca. Ignorantes de que assim se expõem presas a morcegos embriagados de fome e inquietação.

E eles vêm. Dia expirando, os notívagos pássaros não-pássaros tornam-se senhores do espaço. Espaço que à luz do dia cortam e recortam os pássaros pássaros. Milhares de espécies passeriformes se recolhem. E centenas de ratos não-ratos cegos vêm cumprir sua sina.

E o transeunte; ou passante; ou morador os vêem em seus vôos quebrados. Ritmo único, cuja altura e duração múltiplas se fazem com rigor. Uma desconexa performance. Intensa e breve. Dura decerto enquanto a réstia de luz perdure com seus insetos em oferta. A fome que os move, a brevidade que lhes sobra impedem repasto refestelado. Comem sem pausa. Como se ao alimento aspirassem. Nevrose inata intempestiva feito tempestade brava. Medonho que felizmente logo passa. Causa receio. Vôos desconcertantes. Que em seus rasantes parecem investidas aos que vão. Ou aos que estão. Todavia, se sabe que esses salamaleques são seus dribles aos obstáculos. Se safam do de encontro. Vão ao encontro. E depressa. Muito depressa. Que o tempo irreversível já completa a instalação da noite. E a caça que parece escassa é peripécia.

Depois, quando a noite toda é reino, o sossego desassossego. Põe-se dependurado de cabeça para baixo. Mesmo os frutíferos. Que também ao comer são sôfregos. Mesmo que o repasto não seja escasso. Não seja presa móvel. Não seja presa breve. O balanço apresenta sempre estrago considerável. Fazem grande espalhafato. Tome-se como resultado mais evidente os restos das nozes de chapéu-de-sol manhã seguinte. Espalhadas. Semi-roídas. Certo é que talvez seja assim mesmo. Lei da natureza. Contudo, a impressão do leigo é a de devassa.

A ficção concebeu-lhe algumas metáforas. Batman e Drácula, as duas mais universalizadas. O enigma. O esconso. O soturno. O repentino. O medo.

Batman fez-se morcego ilustre. Herói. Não-feio. Defensor dos fracos e injustiçados. Sua toca, uma caverna indevassável. O homem morcego dos quadrinhos. Do cinema. O morcego bom. Desejável. Que não come insetos. Ao contrário, combate os insetos. Se sangue suga, não o faz por compulsão hematófila.

Drácula é mais morcego. Causa medo. Apavora com sua fisionomia demoníaca. Talvez por isso, todavia, tem forte poder sedutor. Anda por aí a sugar as meninas. (E os meninos.) Com suas acre-doces mordidas. Um senhor conde que saltou de seu castelo assombrado. E morcego, tornou-se peregrino. Ávido de sangue bom para sua sede maligna. Bandido mocinho. Que talvez seja mais espetáculo que Batman mocinho.

O mais é esse morcego que, se o matamos, "tem outro dentro dele; procurando com jeito ainda encontramos dentro um outro". Esse morcego "envolta do candeeiro". Que "por mais que a gente faça, à noite ele entra imperceptivelmente em nosso quarto!" Esse morcego que nossa alma incessantemente entorna. Que indomitamente esvoaça dentro de nosso peito.



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