Morcego é bicho estranho. Vôo
destroçado. Como quem desesperado obsessivamente procura
. Ávido, em seu vôo, não se descobre.
Como ser que se busca. Abomina o anonimato. Atira-se ao espaço
no encalço de seus traços. De sua identidade.
De seu nome. E tudo num curto lusco-fusco. Pouco mais, se
tanto. Depois, o cansaço o desvanece. Dependura-se.
Feito fruta madura. E adormece. Ou hiberna-se em sua quietude
inquieta de quem se sente frustrado e impotente. Vez que seu
vôo tem sido em vão. Ameniza-o que nele captura
algum alimento. A tardezinha põe nos insetos minúsculos
vontade irrefreável de tomar ao o princípio
da fresca. Ignorantes de que assim se expõem presas
a morcegos embriagados de fome e inquietação.
E eles vêm. Dia expirando, os notívagos
pássaros não-pássaros tornam-se senhores
do espaço. Espaço que à luz do dia cortam
e recortam os pássaros pássaros. Milhares de
espécies passeriformes se recolhem. E centenas de ratos
não-ratos cegos vêm cumprir sua sina.
E o transeunte; ou passante; ou morador os
vêem em seus vôos quebrados. Ritmo único,
cuja altura e duração múltiplas se fazem
com rigor. Uma desconexa performance. Intensa e breve. Dura
decerto enquanto a réstia de luz perdure com seus insetos
em oferta. A fome que os move, a brevidade que lhes sobra
impedem repasto refestelado. Comem sem pausa. Como se ao alimento
aspirassem. Nevrose inata intempestiva feito tempestade brava.
Medonho que felizmente logo passa. Causa receio. Vôos
desconcertantes. Que em seus rasantes parecem investidas aos
que vão. Ou aos que estão. Todavia, se sabe
que esses salamaleques são seus dribles aos obstáculos.
Se safam do de encontro. Vão ao encontro. E depressa.
Muito depressa. Que o tempo irreversível já
completa a instalação da noite. E a caça
que parece escassa é peripécia.
Depois, quando a noite toda é reino,
o sossego desassossego. Põe-se dependurado de cabeça
para baixo. Mesmo os frutíferos. Que também
ao comer são sôfregos. Mesmo que o repasto não
seja escasso. Não seja presa móvel. Não
seja presa breve. O balanço apresenta sempre estrago
considerável. Fazem grande espalhafato. Tome-se como
resultado mais evidente os restos das nozes de chapéu-de-sol
manhã seguinte. Espalhadas. Semi-roídas. Certo
é que talvez seja assim mesmo. Lei da natureza. Contudo,
a impressão do leigo é a de devassa.
A ficção concebeu-lhe algumas
metáforas. Batman e Drácula, as duas mais universalizadas.
O enigma. O esconso. O soturno. O repentino. O medo.
Batman fez-se morcego ilustre. Herói.
Não-feio. Defensor dos fracos e injustiçados.
Sua toca, uma caverna indevassável. O homem morcego
dos quadrinhos. Do cinema. O morcego bom. Desejável.
Que não come insetos. Ao contrário, combate
os insetos. Se sangue suga, não o faz por compulsão
hematófila.
Drácula é mais morcego. Causa
medo. Apavora com sua fisionomia demoníaca. Talvez
por isso, todavia, tem forte poder sedutor. Anda por aí
a sugar as meninas. (E os meninos.) Com suas acre-doces mordidas.
Um senhor conde que saltou de seu castelo assombrado. E morcego,
tornou-se peregrino. Ávido de sangue bom para sua sede
maligna. Bandido mocinho. Que talvez seja mais espetáculo
que Batman mocinho.
O mais é esse morcego que, se o matamos,
"tem outro dentro dele; procurando com jeito ainda encontramos
dentro um outro". Esse morcego "envolta do candeeiro".
Que "por mais que a gente faça, à noite
ele entra imperceptivelmente em nosso quarto!" Esse morcego
que nossa alma incessantemente entorna. Que indomitamente
esvoaça dentro de nosso peito.