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Desventura
Data 25/jul/2002

Quando viu o vulto... estrambótico surdir. E mal surdira, fora se desfazendo, enviesando para um lado. Fisionomia máscula cavalgando um tordilho fogoso. Vasto bigode grisalho. Duro olhar. Entre inquisitivo e admoestador. As crinas ruivas do animal ao vento embaralhando-se na figura.

Surpreso, estacara-se recuando um pouco. Não sabia por quê. Havia de evitar aquela criatura. Que parecia com muita pressa. Que parecia contrariada com sua presença. Que súbito pareceu investir contra ele. Como que a querer pisoteá-lo com aquele possesso cavalo.

Irritou-se por sua vez. O pó produzido pelo tropel impregnava-se em sua roupa. Partículas de poeira recobrindo todo o ambiente. Mas poeira estranha. Muito estranha. Úmida! Como se neve. Ou névoa. Ou orvalho. Mas que ao desfazer-se, manchava. Como saibro. E se desfazia em escoriações. Sentia já os cabelos molhados. Escorrendo. O rosto molhado escorrendo. Como se após sua ablução matinal o tivesse deixado sem enxugar. Assim procedera às vezes, era verdade. Dia de muito calor. Verão intenso. Ao levantar-se, deixava o rosto ainda impregnado de água. Ia à mesa do desjejum assim. A mãe que nada perdia admoestava. Que distração era aquela! Tornasse ao banheiro enxugar o rosto. Alegava calor. Com pouco estaria seco. Mas ela mandava ali. Ia. Tornava a lavar-se como se o rosto não se desfizesse nunca de uma sujeira invisível. Como acontecia agora. Seu lenço empapava-se. Torcia-o. Tornava a empapá-lo enxugando os cabelos. O rosto.

E quando o acometia já o desespero, veio vindo uma brisa leve. Mansa. Inebriante. Uma brisbrisa. E o que era úmido, foi-se tornando bom. Tudo num átimo voltara ao normal. Todavia sua roupa mantivera-se manchada. Seu terno azul-celeste, bem cortado. Caro. Que ainda estava por pagar. Que fora especialmente feito para aquele evento. Tomara a cor daquele cavalo. Entordilhara-se. Como era possível? E a primeira tentativa de desvencilhá-lo daquilo mostrara-se desastrosa. Limpar-se, era mais ainda entordilhar o terno.

De novo começava a ver-se em desespero. Tornar a casa. Trocar de roupa. Mas nada havia em seu guarda-roupa capaz de vesti-lo para aquela ocasião. Daí o terno que seria ajustado com o recebimento pelo trabalho que ali executaria. Orgulhava-se de ter sido contratado para fazê-lo. A preferência por ele evidenciava o seu valor. O seu prestígio. Tinha, pois, que estar à altura do que esperavam dele. A altura do que ele próprio espera de si mesmo. E o apresentar-se bem vestido fazia parte. Elegância discreta. Imprescindível para a natureza de seu trabalho.

E percebeu que essa conturbação de espírito dava-se com ele a caminhar. Decerto caminhava para o evento. E, depois de tudo, atrasara-se muito. Contudo, era inadmissível apresentar-se naquele estado. Precisava recompor-se. Mas, --por quê? -- ia em frente. Sua missão o atraía por certo.

De repente, acometeu-o: para onde se dirigia? O local onde se desempenharia, não atinava onde. Perdera a noção. Efeito decerto da turbulência de que fora de súbito acometido. Então, para onde se dirigir?

Nisso cavaleiros como aquele começaram a surdir pelo caminho. Intermitentemente, passavam. Cada um parecia mais pomposo que o outro. Como se competissem numa cavalhada. No entanto, tinham algo em comum. A hostilidade que dirigiam a ele. Do modo mesmo que se comportara o primeiro. O mais grave é que surgiam inesperadamente. Um vinha em sentido contrário. Um carão apoplético. Bigodão grisalho. O barbicacho do chapéu em ouro coruscando. Outro de repente saía da esquerda. Mais à frente, outro, que saíra da direita. Os gigantes ginetes vindo para cima. E, quase nele, desapareciam.

O pavor já o inundava novamente de suor. Por que aquela hostilidade, quem eram aqueles cavaleiros ameaçadores como vespas monstruosas que claramente queriam impedi-lo? Não conseguia atinar. Sobretudo quando se sabia que agia profissionalmente. Fora publicamente contratado para executar um trabalho musical.

Então, aí, sim, estacou. Como? Talvez aquelas investidas tivessem razão. Execução musical? Ele? Sim, era certo que iria abrilhantar um grande encontro. Uma convenção internacional. Executaria seis peças para violino, acordeom e berimbau. Lembrava-se perfeitamente de que assim rezava o contrato. Contrato em cujo ajuste houve fotos, risos, cumprimentos mútuos.

Deus! Como tudo aquilo era possível, se ele era poeta?! Executava versos, poemas. Entanto, ainda que tomado dessa consciência apavorante, continuou em frente. Esperavam-no. Era homem de palavra. Ainda que as vespas feitas horrendos cavaleiros persistissem esvoaçando em seu caminho.



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