Quando viu o vulto... estrambótico
surdir. E mal surdira, fora se desfazendo, enviesando para
um lado. Fisionomia máscula cavalgando um tordilho
fogoso. Vasto bigode grisalho. Duro olhar. Entre inquisitivo
e admoestador. As crinas ruivas do animal ao vento embaralhando-se
na figura.
Surpreso, estacara-se recuando um pouco. Não
sabia por quê. Havia de evitar aquela criatura. Que
parecia com muita pressa. Que parecia contrariada com sua
presença. Que súbito pareceu investir contra
ele. Como que a querer pisoteá-lo com aquele possesso
cavalo.
Irritou-se por sua vez. O pó produzido
pelo tropel impregnava-se em sua roupa. Partículas
de poeira recobrindo todo o ambiente. Mas poeira estranha.
Muito estranha. Úmida! Como se neve. Ou névoa.
Ou orvalho. Mas que ao desfazer-se, manchava. Como saibro.
E se desfazia em escoriações. Sentia já
os cabelos molhados. Escorrendo. O rosto molhado escorrendo.
Como se após sua ablução matinal o tivesse
deixado sem enxugar. Assim procedera às vezes, era
verdade. Dia de muito calor. Verão intenso. Ao levantar-se,
deixava o rosto ainda impregnado de água. Ia à
mesa do desjejum assim. A mãe que nada perdia admoestava.
Que distração era aquela! Tornasse ao banheiro
enxugar o rosto. Alegava calor. Com pouco estaria seco. Mas
ela mandava ali. Ia. Tornava a lavar-se como se o rosto não
se desfizesse nunca de uma sujeira invisível. Como
acontecia agora. Seu lenço empapava-se. Torcia-o. Tornava
a empapá-lo enxugando os cabelos. O rosto.
E quando o acometia já o desespero,
veio vindo uma brisa leve. Mansa. Inebriante. Uma brisbrisa.
E o que era úmido, foi-se tornando bom. Tudo num átimo
voltara ao normal. Todavia sua roupa mantivera-se manchada.
Seu terno azul-celeste, bem cortado. Caro. Que ainda estava
por pagar. Que fora especialmente feito para aquele evento.
Tomara a cor daquele cavalo. Entordilhara-se. Como era possível?
E a primeira tentativa de desvencilhá-lo daquilo mostrara-se
desastrosa. Limpar-se, era mais ainda entordilhar o terno.
De novo começava a ver-se em desespero.
Tornar a casa. Trocar de roupa. Mas nada havia em seu guarda-roupa
capaz de vesti-lo para aquela ocasião. Daí o
terno que seria ajustado com o recebimento pelo trabalho que
ali executaria. Orgulhava-se de ter sido contratado para fazê-lo.
A preferência por ele evidenciava o seu valor. O seu
prestígio. Tinha, pois, que estar à altura do
que esperavam dele. A altura do que ele próprio espera
de si mesmo. E o apresentar-se bem vestido fazia parte. Elegância
discreta. Imprescindível para a natureza de seu trabalho.
E percebeu que essa conturbação
de espírito dava-se com ele a caminhar. Decerto caminhava
para o evento. E, depois de tudo, atrasara-se muito. Contudo,
era inadmissível apresentar-se naquele estado. Precisava
recompor-se. Mas, --por quê? -- ia em frente. Sua missão
o atraía por certo.
De repente, acometeu-o: para onde se dirigia?
O local onde se desempenharia, não atinava onde. Perdera
a noção. Efeito decerto da turbulência
de que fora de súbito acometido. Então, para
onde se dirigir?
Nisso cavaleiros como aquele começaram
a surdir pelo caminho. Intermitentemente, passavam. Cada um
parecia mais pomposo que o outro. Como se competissem numa
cavalhada. No entanto, tinham algo em comum. A hostilidade
que dirigiam a ele. Do modo mesmo que se comportara o primeiro.
O mais grave é que surgiam inesperadamente. Um vinha
em sentido contrário. Um carão apoplético.
Bigodão grisalho. O barbicacho do chapéu em
ouro coruscando. Outro de repente saía da esquerda.
Mais à frente, outro, que saíra da direita.
Os gigantes ginetes vindo para cima. E, quase nele, desapareciam.
O pavor já o inundava novamente de
suor. Por que aquela hostilidade, quem eram aqueles cavaleiros
ameaçadores como vespas monstruosas que claramente
queriam impedi-lo? Não conseguia atinar. Sobretudo
quando se sabia que agia profissionalmente. Fora publicamente
contratado para executar um trabalho musical.
Então, aí, sim, estacou. Como?
Talvez aquelas investidas tivessem razão. Execução
musical? Ele? Sim, era certo que iria abrilhantar um grande
encontro. Uma convenção internacional. Executaria
seis peças para violino, acordeom e berimbau. Lembrava-se
perfeitamente de que assim rezava o contrato. Contrato em
cujo ajuste houve fotos, risos, cumprimentos mútuos.
Deus! Como tudo aquilo era possível,
se ele era poeta?! Executava versos, poemas. Entanto, ainda
que tomado dessa consciência apavorante, continuou em
frente. Esperavam-no. Era homem de palavra. Ainda que as vespas
feitas horrendos cavaleiros persistissem esvoaçando
em seu caminho.