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Serviço de flor
Data 18/jul/2002

As flores são dádivas. Erigidas como troféu universal. Sem classe social. Ofertá-las em oferendas, tornou-se espontaneísmo da alma humana.

As flores. Tessitura que a mão da natureza compõe onde quer em qualquer lugar. Mais que o ciclo evolutivo das plantas. Mais que o estágio da reprodução vegetal. As flores bolem com os vivos que as vêem . Que as sentem. Suas cores. Seus trejeitos. Seus formatos. Suas espessuras. Sua delicadeza. Sua dialética. Que o digam as rosas. As primaveras. Os cactos. Seus odores. Excessivos. Excêntricos. Sutis. Neutros.

As flores. Soltas cumprindo sua sina. Pelos caminhos. Nos mais imprevistos espaços. Nos mais impossíveis lugares. E são tantas. E todas a seu modo tão belas. Quer estejam à beira de estrada. Quer estejam à flor d`água. Quer estejam no seio das grandes matas. Quer estejam num cotovelo de calçada. Quer estejam nas frestas de uma murada. Quer estejam nos beirais de casa abandonada. Quer estejam em datas entregues à quiçaça. Quer estejam em quaisquer jardins.

Nada há que as impeça. Os pássaros as põem por onde passam. E elas nascem. E vicejam. E dão-se em enfeites aos olhos da terra. Embelezam. Enternecem. E se deixam colher. Vão como oferendas. Oferendas às mais diversas circunstâncias. Oferendas às mais diversas pessoas. Personalidades.

As flores compondo os cenários conjugais. As igrejas. O buquê de noiva. As flores compondo as relações amorosas. A flor pelo seu aniversário. A flor como apreço. A flor como forma de conquista. A flor em nome do amor.

A flor colhida de improviso. A flor, súbito no meio do caminho, lembra a amada. Colher-lha. A flor pureza de ser álacre. E no fim, a flor. As flores de adeus.

As flores. A flor única cuja graça nos despedaça. As flores que as amadas desvelam. A máxima flor: tua graça.

As flores-palavra. As flores do mal baudelaireanas transmutadas em poemas de bem. A flor drummondiana que à náusea afasta. Posto que feia, é uma flor. "Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio" A Florbela Espanca desabrochando versos de amor. A flor cabralina destecendo-se, para recompor-se em flor.

Então quando se toma a flor em gesto. Depô-la na lapela a dizer conveniências. Depô-la nos cabelos a dizer estereótipos. A flor com tua flor. A flor castroalvina despetalada em teu seio a meio. As flores de teus seios. A flor de tua boca.

Todavia a defloração compõe o seu estado interessante. As flores de primavera despetaladas na grama. As flores das unhas-de-vaca despetaladas num pátio. As outras tantas flores despetaladas pelas ruas. As quaresmeiras. As flamboaiãs. Sujeiras embelecentes.

Essa cássia morta fora assim. Vivaz dourada. Mil cachos enormes amarelos. Porte altivo repleto dessas lanternas japonesas amarelas. Cobiça de quantos passavam. (A mãe diz que sua morte foi de tanto mal olhado.)

Tantos anos assim. Refrigério de quem a tinha. Refrigério de quem a via. Sua deflorada transferia a beleza ao chão. Asfalto e relva repletos de amarelo aroma.

Servira a vidas e a morte. Cachos seus foram felicitações de aniversários. Felicitações de amor. E cobriram corpo na urna de morte.

Agora, a seu corpo morto, os tendões vivos das primaveras vão recobrindo.



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