As flores são dádivas. Erigidas
como troféu universal. Sem classe social. Ofertá-las
em oferendas, tornou-se espontaneísmo da alma humana.
As flores. Tessitura que a mão da natureza
compõe onde quer em qualquer lugar. Mais que o ciclo
evolutivo das plantas. Mais que o estágio da reprodução
vegetal. As flores bolem com os vivos que as vêem .
Que as sentem. Suas cores. Seus trejeitos. Seus formatos.
Suas espessuras. Sua delicadeza. Sua dialética. Que
o digam as rosas. As primaveras. Os cactos. Seus odores. Excessivos.
Excêntricos. Sutis. Neutros.
As flores. Soltas cumprindo sua sina. Pelos
caminhos. Nos mais imprevistos espaços. Nos mais impossíveis
lugares. E são tantas. E todas a seu modo tão
belas. Quer estejam à beira de estrada. Quer estejam
à flor d`água. Quer estejam no seio das grandes
matas. Quer estejam num cotovelo de calçada. Quer estejam
nas frestas de uma murada. Quer estejam nos beirais de casa
abandonada. Quer estejam em datas entregues à quiçaça.
Quer estejam em quaisquer jardins.
Nada há que as impeça. Os pássaros
as põem por onde passam. E elas nascem. E vicejam.
E dão-se em enfeites aos olhos da terra. Embelezam.
Enternecem. E se deixam colher. Vão como oferendas.
Oferendas às mais diversas circunstâncias. Oferendas
às mais diversas pessoas. Personalidades.
As flores compondo os cenários conjugais.
As igrejas. O buquê de noiva. As flores compondo as
relações amorosas. A flor pelo seu aniversário.
A flor como apreço. A flor como forma de conquista.
A flor em nome do amor.
A flor colhida de improviso. A flor, súbito
no meio do caminho, lembra a amada. Colher-lha. A flor pureza
de ser álacre. E no fim, a flor. As flores de adeus.
As flores. A flor única cuja graça
nos despedaça. As flores que as amadas desvelam. A
máxima flor: tua graça.
As flores-palavra. As flores do mal baudelaireanas
transmutadas em poemas de bem. A flor drummondiana que à
náusea afasta. Posto que feia, é uma flor. "Furou
o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio" A
Florbela Espanca desabrochando versos de amor. A flor cabralina
destecendo-se, para recompor-se em flor.
Então quando se toma a flor em gesto.
Depô-la na lapela a dizer conveniências. Depô-la
nos cabelos a dizer estereótipos. A flor com tua flor.
A flor castroalvina despetalada em teu seio a meio. As flores
de teus seios. A flor de tua boca.
Todavia a defloração compõe
o seu estado interessante. As flores de primavera despetaladas
na grama. As flores das unhas-de-vaca despetaladas num pátio.
As outras tantas flores despetaladas pelas ruas. As quaresmeiras.
As flamboaiãs. Sujeiras embelecentes.
Essa cássia morta fora assim. Vivaz
dourada. Mil cachos enormes amarelos. Porte altivo repleto
dessas lanternas japonesas amarelas. Cobiça de quantos
passavam. (A mãe diz que sua morte foi de tanto mal
olhado.)
Tantos anos assim. Refrigério de quem
a tinha. Refrigério de quem a via. Sua deflorada transferia
a beleza ao chão. Asfalto e relva repletos de amarelo
aroma.
Servira a vidas e a morte. Cachos seus foram
felicitações de aniversários. Felicitações
de amor. E cobriram corpo na urna de morte.
Agora, a seu corpo morto, os tendões
vivos das primaveras vão recobrindo.