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Olvido
Data 11/jul/2002

Doar-se ao olvido. A força do homem é também poder de recusa. Nenhuma vontade acomete as inutilidades. Viu quando a fragilidade agigantou-se. Mais de uma vez soube. E o gigantismo começa pelos despercebidos. Começa pela imperceptível discrição da humildade. Humildade mesmo. Consciência da parca condição a que se vê exposta a natureza viva. O vivo é entusiasmo e vontade. Coragem e medo. Perseverança e tirocínio. Todavia não saber ler seus limites. Não saber ler sua precariedade. Não saber aceitar sua constante condição de ignorância. Mesmo em estado de grande sapiência. É permanente estado de degeneração. E degenerar-se é um bem enorme ao desfazimento do caminho da descoberta. Da depuração.

Em fim. O homem não se domina. Tampouco se sabe e não se denomina: sou. Que não aclarou ainda a si o seu começo. Seu princípio Barro soprado pela boca de Deus. Deus construtor construído. Em construção. Em desconstrução. Divindade de registro controverso. Deus feito biólogo. Que de suas experiências, o micróbio tomou nas mãos. Soprou-lhe o corpo informe. Meteu-o nas moléculas d`água. E ordenou multiplica-te. Faze-te muitos seres. Sê pedra. Sê água. Sê ar. Sê fogo. Sê toda espécie de animais. Sê pássaros que entoem a passagem do tempo. Sê, por fim, por último, por século-seculorum, sê homem.

Doto-te de consciência superior, homem. Consciência similar à minha. Terás minha cumplicidade. Aos seres mais estabeleço um destino. A ti dou-te o dom do diálogo. De falardes entre vós. De falar comigo. És meu construtor. Meu mestre-de-obras. Faze desta Terra aprazível lugar de vida.

Mas homem é pulsão indomável. Pulsão insaciável. Salvou-se Deus da invasão humana ao tornar-se poder invisível. De gregário a civilizado, se fez o homem. E se desfez. E se refaz. E segue sem saber ao certo. O germe da incerteza nele incrustado lateja intacto. Indômito. E o move. E o demove. E o transforma. E o deforma. E, sobre Deus, fez-se desconstrutor. Fez-se exterminador de si. Exterminador dos demais. E faz, desse e de outro modo, a sua história. E em sua história, a história de Deus. O mito maior. A cumplicidade terá ido longe demais. Ou passou o homem a querer Deus como cúmplice. E a recusa possível de Deus pode ter resultado em cada um para si. Deus para si mesmo. E o homem consigo mesmo.

Daí o homem e seus templos. Arvora-se o homem em senhor de poder. Primeiro o poder bélico. O poder político. O poder econômico. Desígnios que se supunha a Deus pertencentes. Poder concreto. Palpável. Nada suposto. Depois gostou do poder místico. E as igrejas e os templos pululam. Há deuses e seus acumpliciados por toda parte. Monoteístas. Politeístas. Henoteístas.

Então, doar-se ao olvido. Furtar-se da condição alienante do padronizado. O padrão é instituição direcionadora. Afiar a capacidade de apreender o universo de poder. Destituir-se da miserável fragilidade em desassumir-se. A canalha quase sempre se arvora de pobreza de espírito. O ser e o não ser divisionistas sectários. Que instituem etiquetas às personalidades. Romper com a covardia maniqueísta. Olvidar a condição de ser futuro. A complacência e humanismo com a bandidagem multifacetada. Olvidar a farsa despótica de tolerância aos pérfidos. Travestidos de riqueza. Travestidos de pobreza. Travestidos de marginais. Travestidos de explorados. Olvidar a farsa despótica de amor aos mais fracos e oprimidos. A condição demagógica sobrevivendo a impérios. Sobrevivendo a ditaduras. Sobrevivendo a democracias.

Olvidar-se. Munir-se de um explosivo antidepressivo. Anticorrosivo. Explosivo antiterrorismo. E explodir-se em perdão. De cujo caos se restabelecerá o cosmo de homens novos. Consortes de Deus. E se recomece uma nova história. E todo o desastre até então praticado olvidado seja.



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