Doar-se ao olvido. A força do homem
é também poder de recusa. Nenhuma vontade acomete
as inutilidades. Viu quando a fragilidade agigantou-se. Mais
de uma vez soube. E o gigantismo começa pelos despercebidos.
Começa pela imperceptível discrição
da humildade. Humildade mesmo. Consciência da parca
condição a que se vê exposta a natureza
viva. O vivo é entusiasmo e vontade. Coragem e medo.
Perseverança e tirocínio. Todavia não
saber ler seus limites. Não saber ler sua precariedade.
Não saber aceitar sua constante condição
de ignorância. Mesmo em estado de grande sapiência.
É permanente estado de degeneração. E
degenerar-se é um bem enorme ao desfazimento do caminho
da descoberta. Da depuração.
Em fim. O homem não se domina. Tampouco
se sabe e não se denomina: sou. Que não aclarou
ainda a si o seu começo. Seu princípio Barro
soprado pela boca de Deus. Deus construtor construído.
Em construção. Em desconstrução.
Divindade de registro controverso. Deus feito biólogo.
Que de suas experiências, o micróbio tomou nas
mãos. Soprou-lhe o corpo informe. Meteu-o nas moléculas
d`água. E ordenou multiplica-te. Faze-te muitos seres.
Sê pedra. Sê água. Sê ar. Sê
fogo. Sê toda espécie de animais. Sê pássaros
que entoem a passagem do tempo. Sê, por fim, por último,
por século-seculorum, sê homem.
Doto-te de consciência superior, homem.
Consciência similar à minha. Terás minha
cumplicidade. Aos seres mais estabeleço um destino.
A ti dou-te o dom do diálogo. De falardes entre vós.
De falar comigo. És meu construtor. Meu mestre-de-obras.
Faze desta Terra aprazível lugar de vida.
Mas homem é pulsão indomável.
Pulsão insaciável. Salvou-se Deus da invasão
humana ao tornar-se poder invisível. De gregário
a civilizado, se fez o homem. E se desfez. E se refaz. E segue
sem saber ao certo. O germe da incerteza nele incrustado lateja
intacto. Indômito. E o move. E o demove. E o transforma.
E o deforma. E, sobre Deus, fez-se desconstrutor. Fez-se exterminador
de si. Exterminador dos demais. E faz, desse e de outro modo,
a sua história. E em sua história, a história
de Deus. O mito maior. A cumplicidade terá ido longe
demais. Ou passou o homem a querer Deus como cúmplice.
E a recusa possível de Deus pode ter resultado em cada
um para si. Deus para si mesmo. E o homem consigo mesmo.
Daí o homem e seus templos. Arvora-se
o homem em senhor de poder. Primeiro o poder bélico.
O poder político. O poder econômico. Desígnios
que se supunha a Deus pertencentes. Poder concreto. Palpável.
Nada suposto. Depois gostou do poder místico. E as
igrejas e os templos pululam. Há deuses e seus acumpliciados
por toda parte. Monoteístas. Politeístas. Henoteístas.
Então, doar-se ao olvido. Furtar-se
da condição alienante do padronizado. O padrão
é instituição direcionadora. Afiar a
capacidade de apreender o universo de poder. Destituir-se
da miserável fragilidade em desassumir-se. A canalha
quase sempre se arvora de pobreza de espírito. O ser
e o não ser divisionistas sectários. Que instituem
etiquetas às personalidades. Romper com a covardia
maniqueísta. Olvidar a condição de ser
futuro. A complacência e humanismo com a bandidagem
multifacetada. Olvidar a farsa despótica de tolerância
aos pérfidos. Travestidos de riqueza. Travestidos de
pobreza. Travestidos de marginais. Travestidos de explorados.
Olvidar a farsa despótica de amor aos mais fracos e
oprimidos. A condição demagógica sobrevivendo
a impérios. Sobrevivendo a ditaduras. Sobrevivendo
a democracias.
Olvidar-se. Munir-se de um explosivo antidepressivo.
Anticorrosivo. Explosivo antiterrorismo. E explodir-se em
perdão. De cujo caos se restabelecerá o cosmo
de homens novos. Consortes de Deus. E se recomece uma nova
história. E todo o desastre até então
praticado olvidado seja.