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Crise de insensatez
Data 04/jul/2002

Haviam ultrapassado a linha do bom senso excessivamente. Instituíram o nível do intolerável. Não se lembrava de disparate aproximado. Nada de acionar as estatísticas das tragédias provocadas. Conquanto seu histórico fosse aterrador. Dedos destroçados. Mãos. Braços. Olhos afetados. Em alguns casos, irreversivelmente. Queimaduras de todos os graus. Deformações desoladoras.

Todavia, essa linha, há muito, ultrapassada. A de agora, outra. Conseqüências aparentemente sem aquela gravidade. Atordoante muito mais. Incomodativa. Irritante. E o principal: descabida. Bom senso devassado, pois o desrespeito a outrem. Os aquietados. Precisados de suportar somente o barulho inevitável. O barulho citadino. Aquele era intruso enveredado pelo descaramento.

Não se lembrava de disparate aproximado. Há dezenas de anos era dali. A memória não acusara nada parecido. Fato mesmo inusitado. E esse era inusitado desconfortável. Quanto mais porque construtor de flagrante contradição social. O país em nível de campeão de desemprego. Somente os poucos grandes ricos com sua eterna vultosa soma. E, contudo, nada dados a esbanjar sua sobra. Não a empregariam. Não a empregam à toa. São os que, decerto, quase nada podem que assim agem. Um barulho intruso. Barulho desmedido. Aqueles conhecidos segundos de estrondos ininterruptos comemorativos, sim. Todavia, horas a fio, sem fim, ultrapassa. Agride. Até mesmo os espetáculos pirotécnicos de passagem de ano não se aproximam. Duram minutos. Essa pirotecnia de agora vai dia, noite afora. Sem hora.

As festas juninas de quando menino. Mesmo ainda muito depois. Mesmo na cidade. Não só na roça. Havia lugar para uma fogueira. Hasteava-se a bandeira com a estampa dos três santos. As crianças em seus folguedos. Cantos de roda. Comiam-se pipoca, amendoim, pés-de-moleque, doces caseiros. Bebiam-se quentão, sucos naturais. Os homens também bebiam vinho. A grande luminosidade produzia-a a fogueira. Ficava-se em torno dela. Nela, assavam-se mandiocas, batatas-doces. Estouravam-se bombinhas. Traques. Havia os fósforos-de-cor. As crianças os acendiam e ficavam rodando o braço para um efeito bem espetacular. O artifício mais temível era o busca-pé. Não por sua carga explosiva. Que não havia. Por sua endiabrada corrida atrás das pessoas. Muito mais, quando lhe cortavam o cabo. Ele saía rabeando. Acabava pegando o fugitivo. Entretanto, nada grave. Eram mínimas as nocividades dele e de outros. Perigoso, perigoso era rojão estourar antes de ser expelido para o ar. Fogos. Tudo estouravam naquela noite apropriada. Depois, apenas o barulho da vida renhida.

Agora, junho mal entrado, é um disparate. Saraivadas de estrondo vindas dos quatro cantos. Como em guerra. Fazem fogo dali. Respondem fogo de lá. E não param. É dia ainda. E o tiroteio vai alto. Infindo. Noite entrada, o tiroteio prossegue. Vêm imagens de guerras. Um não-cessar fogo nunca.

É certo. Mais que festas juninas, os jogos da Copa os ocasionaram. Todavia, ainda assim, não se justifica. Jogo às seis da manhã. Os estrondos intermitentes começavam na noite de véspera. Jogo ganho. Os estrondos entravam noite. Iam noite adiantada.

Estresse humano. Estresse animal. Imaginem-se os pássaros. Os cães, a ponto de terem ataques. De morrerem mesmo. Não encontravam lugar de ficar. Horrorizados. Desesperados. Um era pura tremedeira, enquanto fogos houvesse.

E se lia. E se ouvia. E se ouve. E se lê. O país beira, oscila a uma grande crise. Uma grande crise. Então tome fogos! Muitos fogos. Disparate de fogos. Dispendiosos fogos.



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