Haviam ultrapassado a linha do bom senso excessivamente.
Instituíram o nível do intolerável. Não
se lembrava de disparate aproximado. Nada de acionar as estatísticas
das tragédias provocadas. Conquanto seu histórico
fosse aterrador. Dedos destroçados. Mãos. Braços.
Olhos afetados. Em alguns casos, irreversivelmente. Queimaduras
de todos os graus. Deformações desoladoras.
Todavia, essa linha, há muito, ultrapassada.
A de agora, outra. Conseqüências aparentemente
sem aquela gravidade. Atordoante muito mais. Incomodativa.
Irritante. E o principal: descabida. Bom senso devassado,
pois o desrespeito a outrem. Os aquietados. Precisados de
suportar somente o barulho inevitável. O barulho citadino.
Aquele era intruso enveredado pelo descaramento.
Não se lembrava de disparate aproximado.
Há dezenas de anos era dali. A memória não
acusara nada parecido. Fato mesmo inusitado. E esse era inusitado
desconfortável. Quanto mais porque construtor de flagrante
contradição social. O país em nível
de campeão de desemprego. Somente os poucos grandes
ricos com sua eterna vultosa soma. E, contudo, nada dados
a esbanjar sua sobra. Não a empregariam. Não
a empregam à toa. São os que, decerto, quase
nada podem que assim agem. Um barulho intruso. Barulho desmedido.
Aqueles conhecidos segundos de estrondos ininterruptos comemorativos,
sim. Todavia, horas a fio, sem fim, ultrapassa. Agride. Até
mesmo os espetáculos pirotécnicos de passagem
de ano não se aproximam. Duram minutos. Essa pirotecnia
de agora vai dia, noite afora. Sem hora.
As festas juninas de quando menino. Mesmo
ainda muito depois. Mesmo na cidade. Não só
na roça. Havia lugar para uma fogueira. Hasteava-se
a bandeira com a estampa dos três santos. As crianças
em seus folguedos. Cantos de roda. Comiam-se pipoca, amendoim,
pés-de-moleque, doces caseiros. Bebiam-se quentão,
sucos naturais. Os homens também bebiam vinho. A grande
luminosidade produzia-a a fogueira. Ficava-se em torno dela.
Nela, assavam-se mandiocas, batatas-doces. Estouravam-se bombinhas.
Traques. Havia os fósforos-de-cor. As crianças
os acendiam e ficavam rodando o braço para um efeito
bem espetacular. O artifício mais temível era
o busca-pé. Não por sua carga explosiva. Que
não havia. Por sua endiabrada corrida atrás
das pessoas. Muito mais, quando lhe cortavam o cabo. Ele saía
rabeando. Acabava pegando o fugitivo. Entretanto, nada grave.
Eram mínimas as nocividades dele e de outros. Perigoso,
perigoso era rojão estourar antes de ser expelido para
o ar. Fogos. Tudo estouravam naquela noite apropriada. Depois,
apenas o barulho da vida renhida.
Agora, junho mal entrado, é um disparate.
Saraivadas de estrondo vindas dos quatro cantos. Como em guerra.
Fazem fogo dali. Respondem fogo de lá. E não
param. É dia ainda. E o tiroteio vai alto. Infindo.
Noite entrada, o tiroteio prossegue. Vêm imagens de
guerras. Um não-cessar fogo nunca.
É certo. Mais que festas juninas, os
jogos da Copa os ocasionaram. Todavia, ainda assim, não
se justifica. Jogo às seis da manhã. Os estrondos
intermitentes começavam na noite de véspera.
Jogo ganho. Os estrondos entravam noite. Iam noite adiantada.
Estresse humano. Estresse animal. Imaginem-se
os pássaros. Os cães, a ponto de terem ataques.
De morrerem mesmo. Não encontravam lugar de ficar.
Horrorizados. Desesperados. Um era pura tremedeira, enquanto
fogos houvesse.
E se lia. E se ouvia. E se ouve. E se lê.
O país beira, oscila a uma grande crise. Uma grande
crise. Então tome fogos! Muitos fogos. Disparate de
fogos. Dispendiosos fogos.