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Mudança
Data 27/jun/2002

Manhãzinha. A noite espreguicenta. Morosamente fazia sua retirada. Também a baita lua cheia lá em oeste. Pura sedução luminosa. Fizera-se a hora de ir. O relógio dos homens acusava atraso. O sol em leste já dardejava seus agudos coruscantes. Indômito e avassalador sol. Sedutor temível. Apolo imperial. Subjugador. Sabe-se que a noite não o suporta. Frágil. Feminina. Sonhadora. Prenhe de augúrios e devaneios. Amante carinhosa. Ficcionista repleta de mistérios e histórias mirabolantes. Dadivosa plurívoca. Em que sortilégios; mitos; lendas; misticamente, misteriosamente se embrenham.

Toda barroca, a noite povoa seu tempo com essas todas comendas. Seu plano tem a ordem do absconso. Nela plena liberam-se os fantasmas das fantasias. Os fantasmas das imaginações. É quando as probabilidades infestam. Soturna, sua filha dileta se expõe. E a cada instante, numa janela. Janela leste. Janela norte. Janela oeste. Suas curvas sensuais sugestivas. Seu invólucro ambíguo. Com insinuações de curvas montanhas. Que o imaginário místico quer seja São Jorge. Cavalo indômito. O cavaleiro em tintas medievais. Com sua lança acutelando o presumível dragão. Um quadro mais de fecundidade que de batalha. E a beldade fecundada cresce. Arredonda-se mais na sua prenhez. Fica máxima. Toda rotunda. Uma gravidez cujo acompanhamento sabe-se lá de quantos olhares. Lua grávida opaca. Lua grávida prateada. Lua grávida avermelhada. Hora da desova. E sua prole vai ser estrelas na vida. Ficam astros no infinito infindo. Mas o sol ciumento as apaga. Isentando-se de qualquer paternidade que lhe imputam. Nada a ver com as gravidezes da lua. Fêmea pública. Fácil! Desconfiassem mais de Marte. De Plutão Ali quietos. Discrição pouco confiável. Tinha sim seus amores. Mas nada que se assemelhasse a essa assanhada. Que contemplassem melhor o céu. Reparassem traço seu nalguma daquele turbilhão de estrelas. Nada o lembrava.

Ah! A vida sideral. Esse mistério real. Os cientistas escavam. E a cada constatação, provisória sempre, um reparo. A construção desse conhecimento parece inacabável. Feita de surpresas e inesperados.

A Copa do Mundo, em fim. Brasil outra vez finalista. As entrevistas dos astros. Lia-as. Ávido por saber da vida deles. Descobrira, ao indagar-se a si mesmo, de repente. Encontrar-se num deles. Jogador de futebol vem todos de baixo.Quisera tanto. Via-se em Rivaldo. Seu ídolo melhor. Lera sua entrevista de depois da vitória sobre a Turquia. Pobre. Desacreditado. Carreira feita na garra. Sabia de seu talento. Que a maioria não via. Apenas o pai. Esse, o seu guia. Animava-o Confiava no grande jogador que ali nasceria. Enxergava o imperceptível aos comuns. Por detrás do desengonçado e feio que afastava os demais. O filho era hábil. Tinha domínio. Domínio de bola. Mas, melhor, domínio de si. De seus nervos. Senhor de sua paciência e de si mesmo. Não sucumbia aos abandonos. Tinha determinação. Tinha talento. Tinha habilidade. Bons dribles. Bons lançamentos. Sabia finalizar. Erguia a cabeça. Olhava para onde enviar a bola.

Era uma questão de tempo. E foi. Para tristeza de Rivaldo, seu pai pôde presenciar apenas o começo do grande astro que previra.

Rivaldo era o que poderia vir a ser. Todavia o medo tomara conta dele. O pavor. Não conseguia livrar-se. Como o bêbado. Como o viciado. Medo. Medo. Deus! Aí, vem uma vontade de se matar. Sucumbido. Acabado. Humilhador de si mesmo. Não consegue. E todos, como não se dera com seu ídolo, tinham nele o que o pai somente tinha em Rivaldo.

Não conseguia. O assaltante que chutara como uma bola a cara de seu pai várias vezes antes de lhe desferir os tiros mortais. Que lhe enfiara o cano do revólver na boca. Que estuprara a irmã ante os olhos deles todos. Que lhe prometera várias vezes, aos berros, matá-lo qualquer dia depois. Ele estava a cada esquina. No pátio da escola. No campo de futebol. Medo. Pânico. E ódio. Muito ódio. Se ao menos tivesse visto o seu rosto. Contudo! Não valeria nada. Incapaz de manejar um estilete para apontar o lápis. Mas se pudesse pelo menos tornar ao futebol. Reacender a chama da esperança do grande astro de amanhã. Mas aquele maldito assassino não saía dele. Não o deixava em paz. Em liberdade. Se conseguisse se deixar matar. E enquanto não, fosse sendo tudo o que fora. Não se matar. Deixar que o prometido se cumprisse. Enquanto não, ir trilhando os caminhos que dariam em Rivaldo.



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