Manhãzinha. A noite espreguicenta.
Morosamente fazia sua retirada. Também a baita lua
cheia lá em oeste. Pura sedução luminosa.
Fizera-se a hora de ir. O relógio dos homens acusava
atraso. O sol em leste já dardejava seus agudos coruscantes.
Indômito e avassalador sol. Sedutor temível.
Apolo imperial. Subjugador. Sabe-se que a noite não
o suporta. Frágil. Feminina. Sonhadora. Prenhe de augúrios
e devaneios. Amante carinhosa. Ficcionista repleta de mistérios
e histórias mirabolantes. Dadivosa plurívoca.
Em que sortilégios; mitos; lendas; misticamente, misteriosamente
se embrenham.
Toda barroca, a noite povoa seu tempo com
essas todas comendas. Seu plano tem a ordem do absconso. Nela
plena liberam-se os fantasmas das fantasias. Os fantasmas
das imaginações. É quando as probabilidades
infestam. Soturna, sua filha dileta se expõe. E a cada
instante, numa janela. Janela leste. Janela norte. Janela
oeste. Suas curvas sensuais sugestivas. Seu invólucro
ambíguo. Com insinuações de curvas montanhas.
Que o imaginário místico quer seja São
Jorge. Cavalo indômito. O cavaleiro em tintas medievais.
Com sua lança acutelando o presumível dragão.
Um quadro mais de fecundidade que de batalha. E a beldade
fecundada cresce. Arredonda-se mais na sua prenhez. Fica máxima.
Toda rotunda. Uma gravidez cujo acompanhamento sabe-se lá
de quantos olhares. Lua grávida opaca. Lua grávida
prateada. Lua grávida avermelhada. Hora da desova.
E sua prole vai ser estrelas na vida. Ficam astros no infinito
infindo. Mas o sol ciumento as apaga. Isentando-se de qualquer
paternidade que lhe imputam. Nada a ver com as gravidezes
da lua. Fêmea pública. Fácil! Desconfiassem
mais de Marte. De Plutão Ali quietos. Discrição
pouco confiável. Tinha sim seus amores. Mas nada que
se assemelhasse a essa assanhada. Que contemplassem melhor
o céu. Reparassem traço seu nalguma daquele
turbilhão de estrelas. Nada o lembrava.
Ah! A vida sideral. Esse mistério real.
Os cientistas escavam. E a cada constatação,
provisória sempre, um reparo. A construção
desse conhecimento parece inacabável. Feita de surpresas
e inesperados.
A Copa do Mundo, em fim. Brasil outra vez
finalista. As entrevistas dos astros. Lia-as. Ávido
por saber da vida deles. Descobrira, ao indagar-se a si mesmo,
de repente. Encontrar-se num deles. Jogador de futebol vem
todos de baixo.Quisera tanto. Via-se em Rivaldo. Seu ídolo
melhor. Lera sua entrevista de depois da vitória sobre
a Turquia. Pobre. Desacreditado. Carreira feita na garra.
Sabia de seu talento. Que a maioria não via. Apenas
o pai. Esse, o seu guia. Animava-o Confiava no grande jogador
que ali nasceria. Enxergava o imperceptível aos comuns.
Por detrás do desengonçado e feio que afastava
os demais. O filho era hábil. Tinha domínio.
Domínio de bola. Mas, melhor, domínio de si.
De seus nervos. Senhor de sua paciência e de si mesmo.
Não sucumbia aos abandonos. Tinha determinação.
Tinha talento. Tinha habilidade. Bons dribles. Bons lançamentos.
Sabia finalizar. Erguia a cabeça. Olhava para onde
enviar a bola.
Era uma questão de tempo. E foi. Para
tristeza de Rivaldo, seu pai pôde presenciar apenas
o começo do grande astro que previra.
Rivaldo era o que poderia vir a ser. Todavia
o medo tomara conta dele. O pavor. Não conseguia livrar-se.
Como o bêbado. Como o viciado. Medo. Medo. Deus! Aí,
vem uma vontade de se matar. Sucumbido. Acabado. Humilhador
de si mesmo. Não consegue. E todos, como não
se dera com seu ídolo, tinham nele o que o pai somente
tinha em Rivaldo.
Não conseguia. O assaltante que chutara
como uma bola a cara de seu pai várias vezes antes
de lhe desferir os tiros mortais. Que lhe enfiara o cano do
revólver na boca. Que estuprara a irmã ante
os olhos deles todos. Que lhe prometera várias vezes,
aos berros, matá-lo qualquer dia depois. Ele estava
a cada esquina. No pátio da escola. No campo de futebol.
Medo. Pânico. E ódio. Muito ódio. Se ao
menos tivesse visto o seu rosto. Contudo! Não valeria
nada. Incapaz de manejar um estilete para apontar o lápis.
Mas se pudesse pelo menos tornar ao futebol. Reacender a chama
da esperança do grande astro de amanhã. Mas
aquele maldito assassino não saía dele. Não
o deixava em paz. Em liberdade. Se conseguisse se deixar matar.
E enquanto não, fosse sendo tudo o que fora. Não
se matar. Deixar que o prometido se cumprisse. Enquanto não,
ir trilhando os caminhos que dariam em Rivaldo.