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Repetição transformante
Data 21/jun/2002

Outono andado. Outono sempre lembra a proximidade do inverno. Esfria. Avisa: o inverno evem.

É certo. Nenhuma estação é melhor. É pior. Desconsideradas as pessoalidades. Todas então com seus sins e nãos. Com seus senões. Os seres que se precatem. Que organizem suas recepções. Pois, cada estação, um gosto. A primavera é dada aos olhos. O inverno, à ramela. Outono não sabe ficar sem um. O verão com sua polifonia: olha e enramela-se. Verão é indomável. Qualquer hora arma uma borrasca. A temperatura desaba. O vento vergasta com frialdade. Certo, isso é esporádico. Quase sempre pura virtualidade. Porém, possível. Um minuano que o diga.

O sim do inverno aconchega. Se não cinza. Céu azul como nenhum. Sol em completude. Tudo esplende ante suas luzes. Conquanto a frialdade arrefeça seu calor, cumpre sua sina. Aquece.

Inverno é tempo de estar ao sol por aquecer-se. Atitude antiverão. No inverno a cara tropicália não se enrusga. Seu semblante álacre não se perde. Não se inverte. Se arrefece. Mas o ar grácil permanece. A paisagem troca de cores. Troca de flores. Os ipês vêm com suas amarelas sugestionando calor. Mesmo as primaveras não se negam ao inverno. Como se a reverenciá-lo. Como se a recepcioná-lo, emite também um pouco de flores. As unhas-de-vaca retêm suas encarnadas estrelas. Como se em homenagem ao inverno, se despetalam depois. As flores-de-são joão com sua insossa cor de abóbora. Todavia, seu contínuo ridente por entre as cercas. Por entre as árvores entrelaçando-as. Espraiadas onde haja pedaço de campo em relva. Dão vida viva ao sorumbático inato do inverno.

No inverno o verde se encolhe. Contudo não morre. Não o das pastagens. Caso à parte. Que afeta e alimenta a fome. O verde das árvores. Se embaça. Se opacida. Se acanha. Entanto, se agüenta. Suportando suas feridas. Não idem ao do Nordeste. Em que nem verde, nem árvore resistem. Entretanto quando, é no inverno que se abastecem. Pois que água ali prefere o inverno por comparsa de seu inferno. Já para o inferno do verão prefere o reverberante. Assim, não permitindo ao Nordeste livrar-se de seu fatídico mal.

Os próprios do inverno se vão brotando ao natural. Com pouco, tudo está sob seu domínio. A natureza multifacetada lhe presta seu tributo. Os animais se agregam mais. Juntos somam seu calor na porção maior estendida a todos. A friagem na pele das pedras. Na pele da terra. Nas lajes armadas em concreto. Das construções pós-modernas. A friagem na pele das águas armazenadas. Menos na das de poço. Que, se sacadas, saem tépidas. Mornidão de coisa em banho-maria. Não, se estagnadas. Sua pele é fria. Como os outros objetos lidos acima. Poça. Estreita ou larga. Funda ou rasa. Se água de pele à flor, e parada, será fria. Como as de caixa. Conquanto estejam recobertas estas. Como as águas de mar com vistas desde a praia. Já não com as dos rios em geral. No inverno suas águas são, como as de poço, tépidas. Talvez porque, como aquelas, se exercitem com sua corrente dinâmica. Corrente exposta num. Noutro, corrente subposta.

A dialética do inverno não é mais nem menos. Ele retornando. E fazendo a natureza refazer-se em seus hábitos invernais. Por exemplo, a morte dos mendigos que não conseguirão fugir dele. E a volta de certas querências. Como a dessa garça magnífica a bordejar a lagoa. Que fria, pôs a evadirem-se os predadores-homens.



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