Outono andado. Outono sempre lembra a proximidade
do inverno. Esfria. Avisa: o inverno evem.
É certo. Nenhuma estação
é melhor. É pior. Desconsideradas as pessoalidades.
Todas então com seus sins e nãos. Com seus senões.
Os seres que se precatem. Que organizem suas recepções.
Pois, cada estação, um gosto. A primavera é
dada aos olhos. O inverno, à ramela. Outono não
sabe ficar sem um. O verão com sua polifonia: olha
e enramela-se. Verão é indomável. Qualquer
hora arma uma borrasca. A temperatura desaba. O vento vergasta
com frialdade. Certo, isso é esporádico. Quase
sempre pura virtualidade. Porém, possível. Um
minuano que o diga.
O sim do inverno aconchega. Se não
cinza. Céu azul como nenhum. Sol em completude. Tudo
esplende ante suas luzes. Conquanto a frialdade arrefeça
seu calor, cumpre sua sina. Aquece.
Inverno é tempo de estar ao sol por
aquecer-se. Atitude antiverão. No inverno a cara tropicália
não se enrusga. Seu semblante álacre não
se perde. Não se inverte. Se arrefece. Mas o ar grácil
permanece. A paisagem troca de cores. Troca de flores. Os
ipês vêm com suas amarelas sugestionando calor.
Mesmo as primaveras não se negam ao inverno. Como se
a reverenciá-lo. Como se a recepcioná-lo, emite
também um pouco de flores. As unhas-de-vaca retêm
suas encarnadas estrelas. Como se em homenagem ao inverno,
se despetalam depois. As flores-de-são joão
com sua insossa cor de abóbora. Todavia, seu contínuo
ridente por entre as cercas. Por entre as árvores entrelaçando-as.
Espraiadas onde haja pedaço de campo em relva. Dão
vida viva ao sorumbático inato do inverno.
No inverno o verde se encolhe. Contudo não
morre. Não o das pastagens. Caso à parte. Que
afeta e alimenta a fome. O verde das árvores. Se embaça.
Se opacida. Se acanha. Entanto, se agüenta. Suportando
suas feridas. Não idem ao do Nordeste. Em que nem verde,
nem árvore resistem. Entretanto quando, é no
inverno que se abastecem. Pois que água ali prefere
o inverno por comparsa de seu inferno. Já para o inferno
do verão prefere o reverberante. Assim, não
permitindo ao Nordeste livrar-se de seu fatídico mal.
Os próprios do inverno se vão
brotando ao natural. Com pouco, tudo está sob seu domínio.
A natureza multifacetada lhe presta seu tributo. Os animais
se agregam mais. Juntos somam seu calor na porção
maior estendida a todos. A friagem na pele das pedras. Na
pele da terra. Nas lajes armadas em concreto. Das construções
pós-modernas. A friagem na pele das águas armazenadas.
Menos na das de poço. Que, se sacadas, saem tépidas.
Mornidão de coisa em banho-maria. Não, se estagnadas.
Sua pele é fria. Como os outros objetos lidos acima.
Poça. Estreita ou larga. Funda ou rasa. Se água
de pele à flor, e parada, será fria. Como as
de caixa. Conquanto estejam recobertas estas. Como as águas
de mar com vistas desde a praia. Já não com
as dos rios em geral. No inverno suas águas são,
como as de poço, tépidas. Talvez porque, como
aquelas, se exercitem com sua corrente dinâmica. Corrente
exposta num. Noutro, corrente subposta.
A dialética do inverno não é
mais nem menos. Ele retornando. E fazendo a natureza refazer-se
em seus hábitos invernais. Por exemplo, a morte dos
mendigos que não conseguirão fugir dele. E a
volta de certas querências. Como a dessa garça
magnífica a bordejar a lagoa. Que fria, pôs a
evadirem-se os predadores-homens.