Redemoinhos. Redemoinhos. Espiral vertiginosa
dentro do cérebro. Tudo fugaz. Conquanto intenso e
nítido. A mão da namorada na sua mão.
A boca da namorada na sua boca. A frêmita pulsão
de seu sexo pubescente. As fantasias em devaneio. As jogadas
espetaculares naquelas partidas. A zonzeira das primeiras
tragadas. A surra do pai ao surpreendê-los, os irmãos
e ele, acendendo as bitucas de cigarro apanhadas pela rua.
O pai assistindo o jogo de futebol. Fio terra na mão.
A cerveja sorvida em copo americano. A foça física
do tio decantada pelos bares da cidade. A grandeza do pai
no jogo de sinuca.
Os brinquedos nas ruas da cidade à
noite. Brinquedos em que os brinquedos eram os brincantes
em disputa. Salvas. Piques. Pé na lata. Salto a distância.
Pular cordas. O cirquinho armado na casa de uns. Artistas
e platéia todos. Ele, trapezista feito os de circo.
A escola. O grupo escolar. A calça
de brim caqui. A camisa branca. Os sapatos pretos. Vistosos,
os dele. Filho de sapateiro afamado. Quando a mãe jogou
a água de seu banho de bacia, o amigo veio de encontro.
Pelo corredor para a porta da cozinha todos os dias. Que dali
iam para a escola. Mas era rico. Logo voltou de uniforme novo.
Horror deles, ir ao dentista. Dentista cioso. Severo. Tinha
absoluto controle dos tratamentos de cada um. Impossível
escapar-lhe. As cáries removidas sob dor indescritível,
pois a anestesia só em casos raros. Dor de pôr
lágrimas nos olhos. Uma tortura. A única que
trocavam pela ida à diretoria. A severidade do diretor.
Os castigos que impunha. Suas repreensões. Todavia,
não torturavam como aquele motorzinho maldito.
Bom tomar sopa. Sopa de verduras, quase sempre.
Verdura da horta da escola. Horta cuidada por eles. A cada
grupo de alunos um canteiro. O canteiro de que fazia parte
era o de couve. O grupo trabalhava sob sua responsabilidade.
Detinha conhecimentos sobre horticultura. A avó sempre
cultivou uma grande horta. Uma data. Havia de tudo. Ele servia-lhe
de ajudante mão-pra-toda-obra. Preparava a terra para
a feitura do canteiro. Para a semeadura. Catava o esterco
de cavalo, que preferia a horteloa.
Escola aberta. Apenas tendo a cerca de arame
farpado como delimitadora. Era reverenciada. Sagrado lugar
do saber. Da formação. Orgulho das famílias
que a atingiam. Eram poucas. Que escolas não havia
a todos. Triste isso: toda gratuidade absoluta é desprestigiada.
É alvo de grande ingratidão. A escola da sua
infância era poderosa. Só agora sabe. Seria bem
menos, não fora ela.
Em redemoinhos. Tudo em espiral vertiginosa.
Fugazmente. Os anos de viagem na carroceria de caminhão.
Para cursar o ginásio em cidade vizinha. No inverno,
só cobertor suportava. As pescarias. De lambari no
riacho da fazenda que o avô administrava. Apetrechavam-se.
Ele e os irmãos. A tarde toda. Ou toda a manhã.
Batiam os poços do rio Festa quando saía um
lambari maior. Um Tambiú. Fisgava atirando o anzol
para fora. Aflição forte, certa feita. Dera
fisgada dessa. O anzol limpo da água fisgou a pálpebra
de um olho de um irmão. Apreensão e pânico.
O irmão foi fisgado até a casa para avó
solucionar.
Tudo lhe redemoinhou assim naquele dia. Jogo
final. Disputa de título. Marianinhos versus Corintinhas.
Ele, a atração deste. Ironia da circunstância.
Era palmeirense. Fizera o único gol que conquistara
o título ao Corintinhas. Ao conferir o gol, levou forte
cotovelada na cabeça. Desabou. O jogo acabava. Ficou
bons minutos desacordado. Que lhe trouxeram esses redemoinhos
de imagens múltiplas vertiginosamente. Tornado a si,
apenas as imagens dos redemoinhos. Custou lembrar, muitos
dias depois, da vitória. Do título. Do gol vangloriado
na festa comemorativa. Se esforçava. Vinham-lhe apenas
as imagens dos redemoinhos.
E eles todos abruptos tomaram-no de novo no
jogo contra Costa Rica. Madrugada. O jogo morno em dois a
zero. A poltrona generosa favoreceu o sono. Acordou com a
ululância verbal de Galvão Bueno exaltando o
gol de Edmilson. Era o terceiro.