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De gol a gol
Data 13/jun/2002

Redemoinhos. Redemoinhos. Espiral vertiginosa dentro do cérebro. Tudo fugaz. Conquanto intenso e nítido. A mão da namorada na sua mão. A boca da namorada na sua boca. A frêmita pulsão de seu sexo pubescente. As fantasias em devaneio. As jogadas espetaculares naquelas partidas. A zonzeira das primeiras tragadas. A surra do pai ao surpreendê-los, os irmãos e ele, acendendo as bitucas de cigarro apanhadas pela rua. O pai assistindo o jogo de futebol. Fio terra na mão. A cerveja sorvida em copo americano. A foça física do tio decantada pelos bares da cidade. A grandeza do pai no jogo de sinuca.

Os brinquedos nas ruas da cidade à noite. Brinquedos em que os brinquedos eram os brincantes em disputa. Salvas. Piques. Pé na lata. Salto a distância. Pular cordas. O cirquinho armado na casa de uns. Artistas e platéia todos. Ele, trapezista feito os de circo.

A escola. O grupo escolar. A calça de brim caqui. A camisa branca. Os sapatos pretos. Vistosos, os dele. Filho de sapateiro afamado. Quando a mãe jogou a água de seu banho de bacia, o amigo veio de encontro. Pelo corredor para a porta da cozinha todos os dias. Que dali iam para a escola. Mas era rico. Logo voltou de uniforme novo. Horror deles, ir ao dentista. Dentista cioso. Severo. Tinha absoluto controle dos tratamentos de cada um. Impossível escapar-lhe. As cáries removidas sob dor indescritível, pois a anestesia só em casos raros. Dor de pôr lágrimas nos olhos. Uma tortura. A única que trocavam pela ida à diretoria. A severidade do diretor. Os castigos que impunha. Suas repreensões. Todavia, não torturavam como aquele motorzinho maldito.

Bom tomar sopa. Sopa de verduras, quase sempre. Verdura da horta da escola. Horta cuidada por eles. A cada grupo de alunos um canteiro. O canteiro de que fazia parte era o de couve. O grupo trabalhava sob sua responsabilidade. Detinha conhecimentos sobre horticultura. A avó sempre cultivou uma grande horta. Uma data. Havia de tudo. Ele servia-lhe de ajudante mão-pra-toda-obra. Preparava a terra para a feitura do canteiro. Para a semeadura. Catava o esterco de cavalo, que preferia a horteloa.

Escola aberta. Apenas tendo a cerca de arame farpado como delimitadora. Era reverenciada. Sagrado lugar do saber. Da formação. Orgulho das famílias que a atingiam. Eram poucas. Que escolas não havia a todos. Triste isso: toda gratuidade absoluta é desprestigiada. É alvo de grande ingratidão. A escola da sua infância era poderosa. Só agora sabe. Seria bem menos, não fora ela.

Em redemoinhos. Tudo em espiral vertiginosa. Fugazmente. Os anos de viagem na carroceria de caminhão. Para cursar o ginásio em cidade vizinha. No inverno, só cobertor suportava. As pescarias. De lambari no riacho da fazenda que o avô administrava. Apetrechavam-se. Ele e os irmãos. A tarde toda. Ou toda a manhã. Batiam os poços do rio Festa quando saía um lambari maior. Um Tambiú. Fisgava atirando o anzol para fora. Aflição forte, certa feita. Dera fisgada dessa. O anzol limpo da água fisgou a pálpebra de um olho de um irmão. Apreensão e pânico. O irmão foi fisgado até a casa para avó solucionar.

Tudo lhe redemoinhou assim naquele dia. Jogo final. Disputa de título. Marianinhos versus Corintinhas. Ele, a atração deste. Ironia da circunstância. Era palmeirense. Fizera o único gol que conquistara o título ao Corintinhas. Ao conferir o gol, levou forte cotovelada na cabeça. Desabou. O jogo acabava. Ficou bons minutos desacordado. Que lhe trouxeram esses redemoinhos de imagens múltiplas vertiginosamente. Tornado a si, apenas as imagens dos redemoinhos. Custou lembrar, muitos dias depois, da vitória. Do título. Do gol vangloriado na festa comemorativa. Se esforçava. Vinham-lhe apenas as imagens dos redemoinhos.

E eles todos abruptos tomaram-no de novo no jogo contra Costa Rica. Madrugada. O jogo morno em dois a zero. A poltrona generosa favoreceu o sono. Acordou com a ululância verbal de Galvão Bueno exaltando o gol de Edmilson. Era o terceiro.



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