Muito se vê nesta vida. É certo.
Muito não se vê nesta vida. É certo. Muito
se vê e visto fica sem compreensão. Muito compreendido
se cala. É certo. Muito, pois, do que o olhar nos dá,
nos fere. Muito do que nos dá o olhar, obliteramos.
Obliteramos a fome incômoda pelas esquinas. Pelas avenidas.
Pelas praças. Os genocídios escancarados nas
páginas de jornais. Escancarados na televisão.
É certo. Que o animal homem se agrega. E se ama perdidamente.
Que lhe governa uma tal alma capaz de lágrimas convulsivas
por da cá aquela palha. Capaz de sacrifícios
incríveis por amor a outro. São vivas almas
penadas. Cuja felicidade se acende ante um olhar de ternura.
Um sorriso dadivoso. É certo que um surto de ódio
basta a compor o quadro inverso. A alma sanha. Alma ferida
de rancor. Enegrecida em seu vermelho redivivo pelo fogo da
dor. A dor que dá ao ego a emoção mais
sequaz. E o ódio pelos condutos seus leva à
extravasão do amargor.
É certo que o arrefecimento conquista
seu momento de espaço. E enovela-se nessa alma. Como
alga. Infiltra como água. Água tépida.
Mansa. Quer recompor seu estado alfa. Restabelecer a razão
calma. Azeitar o eixo. A alma torna a seu olhar benfazejo.
Instaura a senda dos magnos desejos. Quer-se repartida. Compassiva.
Abertamente amiga. Perdão aos pecados todos. Aos seus.
Aos dos outros. Lúcida, se reeduca. Precavê-se
como pode contra a degradante ingenuidade. E volta a ser o
bicho que por outro bicho se comove. Aquele bicho pronto a
entregar-se com paixão ao outro. A tê-lo como
irmão. A tê-lo como um outro bicho igual. Que
sua alma clama. Que solidário quer desafastada a solidão.
Demovê-la a custo de afagos. Reconhecimento.
É certo que a integridade da condição
humana não resiste a permanência absoluta. Humana
condição apregoada como semelhante à
de Deus. Pois que somos em muito o que de Deus é. Contudo,
também soam em nós; manifestam em nós
a herança, a porção satânica. Satãs
a estourar em meio a pessoas carros-bomba. Satãs arrasando
tudo e todos. Animais Plantas. Velhos. Mulheres. Crianças.
Todos pagando pela comoção satânica dos
podres poderes de mando. Satânicos seqüestros,
roubos, assassinatos, estupros, torturas, usuras, calúnias,
ameaças, corrupções, retaliações,
vinganças. Satanismo maldito. Contramarca do selo Deus
do batismo. Do selo ser homem parte da integridade do cósmico
universo.
É certo que a natureza se nos mostra
outra. Avessa a tais procedimentos predadores humanos. Que
impassível se mantém mãe, apesar. Que
mestra se mantém perseverante educadora na eterna lida
de corrigir esses humanos alunos rebeldes. É certo
que as estrelas, cumprindo o que lhes cabe, toda noite se
abrem íntegras. Toda noite a compor no oco céu
seu arquitetônico carrossel indelevelmente. Desenhando
imagens constelares aos olhares desarmados. Ao olhar do bicho
homem afeito ao amor amplexo. Olhares que em muitas delas
projetam significados acalantados cá na Terra.
É certo que encanto, angústia
e dor compõem os homens. Compõem os bichos.
Compõem as árvores. E então comove-os
sobretudo a morte bruta, brusca de outro homem. A morte bruta,
brusca de um cão, um gato, por exemplo, sob os pneus
de um carro. A morte bruta, brusca de uma árvore. Por
exemplo, uma cássia cuja existência se prestou
a dar a beleza da cor de seus cachos amarelos à vida.
É certo que me repito. E que a vida
se repete e se transforma no ir desses atritos e contritos.
E que dizer o menos, ou dizer o mesmo, ainda assim não
nos faz proscrito. Por isso que, desse jeito, me grito. Me
dispo. Para que o outro menos saiba que existo. Saiba que
com ele faço da vida esse circuito.