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É certo, sobretudo
Data 06/jun/2002

Muito se vê nesta vida. É certo. Muito não se vê nesta vida. É certo. Muito se vê e visto fica sem compreensão. Muito compreendido se cala. É certo. Muito, pois, do que o olhar nos dá, nos fere. Muito do que nos dá o olhar, obliteramos. Obliteramos a fome incômoda pelas esquinas. Pelas avenidas. Pelas praças. Os genocídios escancarados nas páginas de jornais. Escancarados na televisão. É certo. Que o animal homem se agrega. E se ama perdidamente. Que lhe governa uma tal alma capaz de lágrimas convulsivas por da cá aquela palha. Capaz de sacrifícios incríveis por amor a outro. São vivas almas penadas. Cuja felicidade se acende ante um olhar de ternura. Um sorriso dadivoso. É certo que um surto de ódio basta a compor o quadro inverso. A alma sanha. Alma ferida de rancor. Enegrecida em seu vermelho redivivo pelo fogo da dor. A dor que dá ao ego a emoção mais sequaz. E o ódio pelos condutos seus leva à extravasão do amargor.

É certo que o arrefecimento conquista seu momento de espaço. E enovela-se nessa alma. Como alga. Infiltra como água. Água tépida. Mansa. Quer recompor seu estado alfa. Restabelecer a razão calma. Azeitar o eixo. A alma torna a seu olhar benfazejo. Instaura a senda dos magnos desejos. Quer-se repartida. Compassiva. Abertamente amiga. Perdão aos pecados todos. Aos seus. Aos dos outros. Lúcida, se reeduca. Precavê-se como pode contra a degradante ingenuidade. E volta a ser o bicho que por outro bicho se comove. Aquele bicho pronto a entregar-se com paixão ao outro. A tê-lo como irmão. A tê-lo como um outro bicho igual. Que sua alma clama. Que solidário quer desafastada a solidão. Demovê-la a custo de afagos. Reconhecimento.

É certo que a integridade da condição humana não resiste a permanência absoluta. Humana condição apregoada como semelhante à de Deus. Pois que somos em muito o que de Deus é. Contudo, também soam em nós; manifestam em nós a herança, a porção satânica. Satãs a estourar em meio a pessoas carros-bomba. Satãs arrasando tudo e todos. Animais Plantas. Velhos. Mulheres. Crianças. Todos pagando pela comoção satânica dos podres poderes de mando. Satânicos seqüestros, roubos, assassinatos, estupros, torturas, usuras, calúnias, ameaças, corrupções, retaliações, vinganças. Satanismo maldito. Contramarca do selo Deus do batismo. Do selo ser homem parte da integridade do cósmico universo.

É certo que a natureza se nos mostra outra. Avessa a tais procedimentos predadores humanos. Que impassível se mantém mãe, apesar. Que mestra se mantém perseverante educadora na eterna lida de corrigir esses humanos alunos rebeldes. É certo que as estrelas, cumprindo o que lhes cabe, toda noite se abrem íntegras. Toda noite a compor no oco céu seu arquitetônico carrossel indelevelmente. Desenhando imagens constelares aos olhares desarmados. Ao olhar do bicho homem afeito ao amor amplexo. Olhares que em muitas delas projetam significados acalantados cá na Terra.

É certo que encanto, angústia e dor compõem os homens. Compõem os bichos. Compõem as árvores. E então comove-os sobretudo a morte bruta, brusca de outro homem. A morte bruta, brusca de um cão, um gato, por exemplo, sob os pneus de um carro. A morte bruta, brusca de uma árvore. Por exemplo, uma cássia cuja existência se prestou a dar a beleza da cor de seus cachos amarelos à vida.

É certo que me repito. E que a vida se repete e se transforma no ir desses atritos e contritos. E que dizer o menos, ou dizer o mesmo, ainda assim não nos faz proscrito. Por isso que, desse jeito, me grito. Me dispo. Para que o outro menos saiba que existo. Saiba que com ele faço da vida esse circuito.



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