Feito pioneirismo clássico. Lugar natureza.
A terra e seus agregados. Gramináceas. O arvoredo.
Quando há mata. Árvores, quando um descampado.
Então pinta uma construção. Demora. Vem
outra. E conforme respiram o mercado, a política, o
habitat expande. Ou marca passo. Exceto as excepcionalidades
de surtos. Assim, a urbanização das cidades.
Atingida a maioridade, torna-se bairro nobre.
Torna-se bairro pobre. Torna-se bairro classe-média
alta. Torna-se bairro classe-média baixa. A rota do
processo de urbanização. Entrementes, faz-se
também por outros expedientes. O surto dos condomínios
de ricos. Dos condomínios dos remediados. O surto de
apartamentos em edifícios a ricos. Edifícios
a remediados. Urbanização então planejada.
Previamente arrematada. Urbanização construída
com vistas à prova de ladrões. Com vistas ao
conforto e segurança. Urbanização antiimproviso.
Urbanização para o claro do raciocínio.
São muitos os perigos. São muitos os inimigos.
São muitos os subversivos. Torna-se imprescindível
acercar-se. De muros muralhas. Arrematados a cerca elétrica.
Portarias. Porteiros. Seguranças. Mirar-se na razão
feudal. Refeudalizar-se para proteger-se. A miúda gente
dos suburgos graça como praga. Ousada. Truculenta.
Depravada. Assalta. Pega. Mata. Estupra. Graça espraiada.
Enfiadas em tocas. Casebres irrompidos nos mais infectos pontos.
Convém muito prevenir-se contra ela. Que invade tudo.
Infiltra tudo. Por mais que se estanquem os furos.
Então, construir para proteger-se.
Construir num desenho lógico. Tijolo com tijolo. Num
desenho sólido. Aviar-se desse bicho urbano. Que age
a céu aberto. E devassa. E corrompe. E vai tomando
espaços. Guerra aberta aos bem-aventurados. Que se
vêem quase desamparados. Traídos. O inimigo mora
comigo. Meu Deus! Por que tudo isto?! E cerca. Cerca aqui.
Ali. Acolá.
O próprio paisagismo mais não
há. As praças são deles. Ir ao jardim.
Marcou época. Ia-se ao jardim. Ver o verde. Ouvir os
pássaros. Flertar. Namorar. A fonte jorrava água.
Peixes nadavam no lago. Passado. Coisa de romantismo. Idílios
ingênuos. Afetados. De um povo passivo. Cordato.
É um tempo de guerra. Não a
clássica. Essa também compôs aquele tempo
romântico. Guerra tácita. Guerra entre nós.
O inimigo janta comigo. Eu contra ti. Ti contra mim. Quem
mata prossegue. Até ser morto.
Paisagismo? Fazê-lo raquítico.
Simulacro. Nas cantoneiras do prédio. No terraço.
Na cobertura. Proliferá-lo nos vasos. E gravar nas
fotos. Nas fitas VHS. E em serões, apresentar aos netos.
Eis, a terra do tempo de seus bisavôs. E junto ir revivendo.
Ir condoendo-se. Saudosamente. Nostalgicamente.
Pois então. Urbanismo espontâneo
quase findo. Não o suburbanismo. Esse prolifera. A
sua medida está para a expansão de condomínios
e edifícios. Mas instalara-se numa casa quando ainda
ali a urbanidade classe médio-baixa ia em sua espontaneidade.
Havia mais duas ou três humildes. Tinha um quintal de
verdade. (Era filho de quintais.) fê-lo um jardim-pomar.
Teimoso. Não iria arredar pé (Deus quisesse,
fosse nunca.) Dera árvores e frutos aos pássaros.
Grama aos olhos. Flores. As primaveras faziam-se beleza e
proteção trepadas ao muro. O lugar foi ganhando
a feição igual ao dos outros. Ficou bairro.
Completamente casas, calçadas e asfalto. Os amigos
indo para os condomínios. Para os edifícios.
Manteve-se na teimosia. A modesta casa sofrendo reparos vez
em quando. E o quintal. Com sua paisagem. Pequena. Mas paisagem.
Quando se instalara ali, das poucas árvores
do lugar, era a cássia do quintal de sua casa.. Única.
Já adulta. Sua florada de árvore alta e copada
encantava. Varou anos com sua lindeza fazendo gênero.
Muitas histórias nesses anos em torno dela.
Agora, morre reprochavelmente. Foi depois
de uma poda. Morre. Para a desolação da casa.
Não há o que a refaça. Não haverá
mais aquele monumento repleto de cachos amarelos. Dorido passamento
como outros.
Mas o quintal vive. E em louvor à grandeza
dela decerto edificará uma sua irmã. Como um
certo refazimento da ordem e resistência da real paisagem.