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Passamento
Data 30/mai/2002

Feito pioneirismo clássico. Lugar natureza. A terra e seus agregados. Gramináceas. O arvoredo. Quando há mata. Árvores, quando um descampado. Então pinta uma construção. Demora. Vem outra. E conforme respiram o mercado, a política, o habitat expande. Ou marca passo. Exceto as excepcionalidades de surtos. Assim, a urbanização das cidades.

Atingida a maioridade, torna-se bairro nobre. Torna-se bairro pobre. Torna-se bairro classe-média alta. Torna-se bairro classe-média baixa. A rota do processo de urbanização. Entrementes, faz-se também por outros expedientes. O surto dos condomínios de ricos. Dos condomínios dos remediados. O surto de apartamentos em edifícios a ricos. Edifícios a remediados. Urbanização então planejada. Previamente arrematada. Urbanização construída com vistas à prova de ladrões. Com vistas ao conforto e segurança. Urbanização antiimproviso. Urbanização para o claro do raciocínio. São muitos os perigos. São muitos os inimigos. São muitos os subversivos. Torna-se imprescindível acercar-se. De muros muralhas. Arrematados a cerca elétrica. Portarias. Porteiros. Seguranças. Mirar-se na razão feudal. Refeudalizar-se para proteger-se. A miúda gente dos suburgos graça como praga. Ousada. Truculenta. Depravada. Assalta. Pega. Mata. Estupra. Graça espraiada. Enfiadas em tocas. Casebres irrompidos nos mais infectos pontos. Convém muito prevenir-se contra ela. Que invade tudo. Infiltra tudo. Por mais que se estanquem os furos.

Então, construir para proteger-se. Construir num desenho lógico. Tijolo com tijolo. Num desenho sólido. Aviar-se desse bicho urbano. Que age a céu aberto. E devassa. E corrompe. E vai tomando espaços. Guerra aberta aos bem-aventurados. Que se vêem quase desamparados. Traídos. O inimigo mora comigo. Meu Deus! Por que tudo isto?! E cerca. Cerca aqui. Ali. Acolá.

O próprio paisagismo mais não há. As praças são deles. Ir ao jardim. Marcou época. Ia-se ao jardim. Ver o verde. Ouvir os pássaros. Flertar. Namorar. A fonte jorrava água. Peixes nadavam no lago. Passado. Coisa de romantismo. Idílios ingênuos. Afetados. De um povo passivo. Cordato.

É um tempo de guerra. Não a clássica. Essa também compôs aquele tempo romântico. Guerra tácita. Guerra entre nós. O inimigo janta comigo. Eu contra ti. Ti contra mim. Quem mata prossegue. Até ser morto.

Paisagismo? Fazê-lo raquítico. Simulacro. Nas cantoneiras do prédio. No terraço. Na cobertura. Proliferá-lo nos vasos. E gravar nas fotos. Nas fitas VHS. E em serões, apresentar aos netos. Eis, a terra do tempo de seus bisavôs. E junto ir revivendo. Ir condoendo-se. Saudosamente. Nostalgicamente.

Pois então. Urbanismo espontâneo quase findo. Não o suburbanismo. Esse prolifera. A sua medida está para a expansão de condomínios e edifícios. Mas instalara-se numa casa quando ainda ali a urbanidade classe médio-baixa ia em sua espontaneidade. Havia mais duas ou três humildes. Tinha um quintal de verdade. (Era filho de quintais.) fê-lo um jardim-pomar. Teimoso. Não iria arredar pé (Deus quisesse, fosse nunca.) Dera árvores e frutos aos pássaros. Grama aos olhos. Flores. As primaveras faziam-se beleza e proteção trepadas ao muro. O lugar foi ganhando a feição igual ao dos outros. Ficou bairro. Completamente casas, calçadas e asfalto. Os amigos indo para os condomínios. Para os edifícios. Manteve-se na teimosia. A modesta casa sofrendo reparos vez em quando. E o quintal. Com sua paisagem. Pequena. Mas paisagem.

Quando se instalara ali, das poucas árvores do lugar, era a cássia do quintal de sua casa.. Única. Já adulta. Sua florada de árvore alta e copada encantava. Varou anos com sua lindeza fazendo gênero. Muitas histórias nesses anos em torno dela.

Agora, morre reprochavelmente. Foi depois de uma poda. Morre. Para a desolação da casa. Não há o que a refaça. Não haverá mais aquele monumento repleto de cachos amarelos. Dorido passamento como outros.

Mas o quintal vive. E em louvor à grandeza dela decerto edificará uma sua irmã. Como um certo refazimento da ordem e resistência da real paisagem.



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