Felicíssimos. Daqueles modelos a que
as propagandas governamentais recorrem. Difundem imagem e
performance. A matéria encerra apontando-os como exemplo
de vida às gerações. Dedicação
mútua. Plácidos companheiros. Sorrisos de complacência.
Tácitos amores. Comemoraram bodas. Passeiam pelas praças
com os netos.
Quando se conheceram, foi tudo natural. Acaso
bom. Histórias várias. Contudo, em todas consignam-se
a naturalidade do conhecer-se. Da amizade construída
paulatinamente. Nada de precipitações. Arrebatamentos.
A pacatez dos sensatos a construir sua personalidade. Conflitos
mínimos. Coisas de pequenos caprichos. O bom diálogo
apaziguador. Preceitos dos bons costumes, da moral e da ética
observados.
Cultores da caridade. Sempre atenciosos aos
apelos da pobreza e da miséria à porta pedindo
pão para saciar a fome. Detentores de catecismo. Primeira
comunhão. E praticantes das missas dominicais. De sétimo
dia. De dias santos maiores. Dos cultos semanais. Deus como
princípio e fim de todas as coisas. Sexualidade conduzida
conforme preceituam a moral e os bons costumes. As mãos
dadas. Beijos recatados. Toda pudicícia que o respeito
estabelece. Amantes contidos. Amores debaixo de sete chaves.
Nenhum sinal de concupisciência. Convivência conjugal
feliz. Ao que tudo indica. De aplicarem-se na boa formação
dos filhos. Acompanhamento escolar. De dedicarem-se aos familiares.
Apoios. Estímulos. Avessos e críticos aos vícios
gerais. Contrários às discriminações.
Compreensivos às anormalidades sociais. As quais admitem
um certo grau de tolerância. Cultores da boa amizade.
Das visitas mútuas. Dados ao conforto. Ciosos da nocividade
dos excessos.
Ambições devidas. Que não
permitam o pernicioso. Avessos a esbanjamentos. Ás
excentricidades. Às imoralidades. Às injustiças.
Severos com os despotismos. Os nepotismos. As corrupções.
Também a violência entrou em suas apreensões.
Todavia, religiosos, avessos à pena de morte. O estupro,
uma barbárie. As agressões paternas. As muitas
violações. Os assassinatos. Todos chocantes
e inconcebíveis. Os seqüestros, danificadores
físico-psíquicos, quando não mortais.
O tráfico como uma força dominadora de poder.
Impõe procedimentos. As facções das penitenciárias,
seu quartel general. Comandam dali. Mas, bons e obedientes
cristãos. São pelas penas em presídios.
Onde devem curar-se. Nas bodas, os familiares, os amigos,
eufóricos festejaram.
Essa, a fotografia de um certo tipo de cônjuges
de qualquer sociedade. Nela se enquadrou a vida da senhora
Rosália. Viveu assim. E como vivente destes tempos,
não os maldisse apenas. Conservadora. Conservacionista.
Mas contemporânea. Terceira idade andada. Cuidando-se.
Exercícios. Caminhadas. Mulher de seu tempo. Sessentona
bem posta. Atlética. Para seu bem. Para o bem de seu
marido. Para o bem dos familiares. Para o conforto dos amigos
e colegas. Disposta. Saudável. Prestimosa. Filhos casados.
Netos lindos e solícitos. Ela e o marido. A casa. Há
já anos. Ela o marido, a casa. A rotina. Os procedimentos
mesmos. A mesma preconizada felicidade.
Essa, a história de domínio
da família. Dos familiares. Dos amigos próximos.
A de domínio mais amplo é vária. Talvez
em virtude do quem conta um conto aumenta um ponto. O caso,decerto,
desta que se conta. Todavia, em comum, todas contam que foi
num certo dia. O senhor Juvenal fez o desjejum. E não
seguiu o hábito de ir ao vaso sanitário em seguida,
com seu cigarro. Entreteve-se com uma matéria jornalística.
Depois outra. Foi percorrendo o jornal que julgou muito bom
aquele dia. Mais de hora. Então, cadê Rosália.
Chamou. Buscou. Nada. Desábito. Porém, conquanto
raríssimo, entendeu que saíra para caminhar.
Aí veio a vontade de ir ao banheiro. Estava sobre a
tampa do vaso o pequeno sobrescrito para ele. Abriu-o entre
espantado e sôfrego:
"Juvenal. Custou-me. Mas decidi deixar
esta tal felicidade. Adeus. Para nunca mais. Rosália."