Nada podia me dar tanto. Tampouco eu. A magnitude
da simetria daqueles astros mesmo. Nunca vista composição
celeste. Eles se entregavam com aquela singular performance.
Beleza impactante. Mão poderosa da pintura a teria
feito. O arco de lua. Em sua convexidade, a vésper.
Em sua concavidade, a aldebarã. Perfeitas. Como se
brincassem de se mirar por entre a lua. São Jorge e
o dragão, ausentes; criaram coragem. Indiferentes às
admirações possíveis. Decerto se perturbariam,
ao sabê-las. Sensíveis. Tímidas. Sua luz
recolheria o álacre que só lhe dava a alegria.
Tampouco podia me dar aqueles limões.
Graúdos. Sólidos de amarelo. Raros. Quase solitários,
porque foram muitos. Ago raquíticos. Puro raquitismo,
se a lembrança lhes refaz o retrato. Limoeiro de porte.
Vitalício. Longa vida. Definha. Já se faz anos
assim. Mal se pode. Contudo, dadivoso, esplende limões,
conquanto raros de tal grandeza.
Que podia me dar, a falta que me faz? A incompreensão
e narcisismo dos homens coíbem. Somos únicos
e melhores. Nada se nos compara. Impulsionados a competir.
Apropriamo-nos sempre. Não há senão viver
para isso. O tempo de que dispomos é para a diferença.
A nós cabe-nos o bom quinhão. Solidariedade
é com a sobra. Olhar o outro, quando me admitir completo
e maior. Ainda assim, olhá-lo para estabelecer as diferenças.
Para confirmar nossa superioridade. Para constatar sua futilidade.
Sua insignificância. Seu artificialismo. Cúmplices
mútuos de nossa supremacia como irrefutável
certeza. Resplandecer é a meta. Não há
tempo a perder. Ao compadecimento se pode dedicar algo. Tão-somente
algo. Simulacro de não-egocentrismo. Puro simulacro.
O homem é sim competidor do homem. Quanto ficamos,
é só por conveniência. Abertos por entrega.
Olhares reconhecedores. Aceitação mútua.
Tácitas que sejam. Não há repartir e
admitir. Admitir é retirar. É ficar sem. É
deixar-se menos. Ah! nós, os homens. Nada convém
senão nos sobrepor.
Estupenda estrela do meu imaginário.
Brilha única o meu trajeto. O fogo do seu lume. Fogo
denso. Fogo tenso. Fogo vivo. Que se aviva aos olhos verdes
dos pirilampos. Funde o meu indevassável. Quanto mais.
Feito lava escorrendo para cicatrizes tenras. Cicatrizes ternas.
Cicatrizes memoráveis. Nada podia me dar tanto. Menos.
Muito menos, se fogo de labaredas. Voláteis e inconstantes
labaredas. Línguas vituperinamente ardentes. Todavia
fluidas. Desajustáveis por completo às minhas
obsessões. Às minhas ansiedades. Aos meus sonhos.
Aos meus desejos. Vorazes como a sofreguidão. Como
os dotes da paixão.
Tampouco meus pesadelos juvenis. As armazenadas
frustrações. Quando as soube tolas, desguarnecidas
completamente minhas puerilidades. Nem a vocação
erótica para o irresolvido. Talento dos desajustes
que amadurecem o homem. Então: tanto , tal o tabu ao
nosso sexo, invento da muralha de imoralidade impingida. Espólio
de nãos. Espólio de pecados vãos. Acervo
de moralidades inúteis. Fúteis. Danosas.
Tampouco poderia eu selar o dom do meu amor
no rancor do seu tesão. Nada podia me dar tanto.