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Tampouco; nada
Data 16/mai/2002

Nada podia me dar tanto. Tampouco eu. A magnitude da simetria daqueles astros mesmo. Nunca vista composição celeste. Eles se entregavam com aquela singular performance. Beleza impactante. Mão poderosa da pintura a teria feito. O arco de lua. Em sua convexidade, a vésper. Em sua concavidade, a aldebarã. Perfeitas. Como se brincassem de se mirar por entre a lua. São Jorge e o dragão, ausentes; criaram coragem. Indiferentes às admirações possíveis. Decerto se perturbariam, ao sabê-las. Sensíveis. Tímidas. Sua luz recolheria o álacre que só lhe dava a alegria.

Tampouco podia me dar aqueles limões. Graúdos. Sólidos de amarelo. Raros. Quase solitários, porque foram muitos. Ago raquíticos. Puro raquitismo, se a lembrança lhes refaz o retrato. Limoeiro de porte. Vitalício. Longa vida. Definha. Já se faz anos assim. Mal se pode. Contudo, dadivoso, esplende limões, conquanto raros de tal grandeza.

Que podia me dar, a falta que me faz? A incompreensão e narcisismo dos homens coíbem. Somos únicos e melhores. Nada se nos compara. Impulsionados a competir. Apropriamo-nos sempre. Não há senão viver para isso. O tempo de que dispomos é para a diferença. A nós cabe-nos o bom quinhão. Solidariedade é com a sobra. Olhar o outro, quando me admitir completo e maior. Ainda assim, olhá-lo para estabelecer as diferenças. Para confirmar nossa superioridade. Para constatar sua futilidade. Sua insignificância. Seu artificialismo. Cúmplices mútuos de nossa supremacia como irrefutável certeza. Resplandecer é a meta. Não há tempo a perder. Ao compadecimento se pode dedicar algo. Tão-somente algo. Simulacro de não-egocentrismo. Puro simulacro. O homem é sim competidor do homem. Quanto ficamos, é só por conveniência. Abertos por entrega. Olhares reconhecedores. Aceitação mútua. Tácitas que sejam. Não há repartir e admitir. Admitir é retirar. É ficar sem. É deixar-se menos. Ah! nós, os homens. Nada convém senão nos sobrepor.

Estupenda estrela do meu imaginário. Brilha única o meu trajeto. O fogo do seu lume. Fogo denso. Fogo tenso. Fogo vivo. Que se aviva aos olhos verdes dos pirilampos. Funde o meu indevassável. Quanto mais. Feito lava escorrendo para cicatrizes tenras. Cicatrizes ternas. Cicatrizes memoráveis. Nada podia me dar tanto. Menos. Muito menos, se fogo de labaredas. Voláteis e inconstantes labaredas. Línguas vituperinamente ardentes. Todavia fluidas. Desajustáveis por completo às minhas obsessões. Às minhas ansiedades. Aos meus sonhos. Aos meus desejos. Vorazes como a sofreguidão. Como os dotes da paixão.

Tampouco meus pesadelos juvenis. As armazenadas frustrações. Quando as soube tolas, desguarnecidas completamente minhas puerilidades. Nem a vocação erótica para o irresolvido. Talento dos desajustes que amadurecem o homem. Então: tanto , tal o tabu ao nosso sexo, invento da muralha de imoralidade impingida. Espólio de nãos. Espólio de pecados vãos. Acervo de moralidades inúteis. Fúteis. Danosas.

Tampouco poderia eu selar o dom do meu amor no rancor do seu tesão. Nada podia me dar tanto.



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