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Oração
Data 09/mai/2002

Mãe, me faz um favor. Se desgarre de mim. Preciso. Sua sombra me doma. Sua palavra me tolhe. Suas imposições. Esse amor abusivo. Sou pouco eu. Sou quase nenhum eu Isso agora é visível. Me passo por um cara de poucos amigos. Carlos é perigoso. Filho de subversivo. Defensor do comunismo. João, um bandido. Envolve-se com drogas. Vai me estender o vício. Desvencilhar-me de Rodrigo. Perdido em cigarro e álcool. Zé, um vadio. Viciado em sexo. Cultor de mulher nua. Querendo a todas as meninas de sua turma. O Cido, um afeminado. Declarado homossexual. Pobre família! Distanciar-me dalgumas meninas. Quase todas doidas por homem. Um horror! Geração de taradas! Ah! essa televisão. Pondo a perder. Filhas, muitas, de boa família! A Lurdinha põe tudo a nu. Aquilo é só sutiã e calcinha . A Ana que se sabe boneca cobiçada estraçalha. Calças colantes. Transparentes. As penugens insinuando-se. Pai do céu! onde chegamos. Acabam grávidas. Filhos sem mãe. Porque despreparadas. Marginais. Perdidos. Sem carinho. Sem mãe, nem pai. Uma desfamília. Mãe! Assim não vira. Vê se muda. Você precisa. Também, nem tanto!

Ah! uma mãe. Mãe para meu desencanto. Para curar minhas feridas. Para consolar meus prantos. Para curar minhas feridas. Para me mimar com sua comida. Para chorar em minhas partidas. Para me chamar razão de sua vida. Para me defender com unhas e dentes. Feito fera demente protegendo sua cria. Para perder o sono por mim. Para não parar de falar bem de mim.

Ah! uma mãe. Que me chame: meu filho!. Que não consegue esconder dos olhos o grande brilho, quando mencionam seu filho. Que lava. Passa. Se mata. Por uma única e inigualável causa: meu filho! Que enfrenta filas. Viaja nas mais duras bancadas. Até no pau-de-arara. Que o corpo, os pés dilacera em duras caminhadas na conquista de seu incomparável troféu.

Ah! minha mãe deslumbrada, me amamentando com seu seio. Falando pra mim o tempo inteiro. Me fazendo gracejos. Minha mãe brincando com meu corpo. Acariciando meu rosto. Me estalando beijos. Eu, ouvindo o seu riso tocante. Eu, vendo seu sorriso lindo. Minha mãe me amparando em meus tropeços iniciantes. Minha mãe trocando minha fralda. Morrendo de rir da minha mixada em sua cara. Face nublada (num esforço que mal disfarça) dizendo não! Insistindo. Não! Leve palmada. Não! Leve palmada. Sim. Batendo palma. Sim! Batendo palma.

Minha mãe dilacerada. Por mim chorando. Minha mãe pedindo por mim. Minha mãe dizendo que não é bem assim. Minha mãe! Até o fim.

Ah! mãe dos meus pecados. Mãe dos desamparados. Dos descrentes e desacreditados. Mãe dos pobres e injustiçados. Mãe dos ricos e bem-dotados. A quem todos eles recorrem pelo mínimo e pelo máximo. A quem não esquecem a imagem de mágico e místico poder. Mãe, Senhora Graça Dadivosa eternamente. Nada mais basta que sempre assim olhai por nós. Que tanto sofremos por isso. Que tanto tem amamos por isso.

A bênção.

Amém.



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