Mãe, me faz um favor. Se desgarre de
mim. Preciso. Sua sombra me doma. Sua palavra me tolhe. Suas
imposições. Esse amor abusivo. Sou pouco eu.
Sou quase nenhum eu Isso agora é visível. Me
passo por um cara de poucos amigos. Carlos é perigoso.
Filho de subversivo. Defensor do comunismo. João, um
bandido. Envolve-se com drogas. Vai me estender o vício.
Desvencilhar-me de Rodrigo. Perdido em cigarro e álcool.
Zé, um vadio. Viciado em sexo. Cultor de mulher nua.
Querendo a todas as meninas de sua turma. O Cido, um afeminado.
Declarado homossexual. Pobre família! Distanciar-me
dalgumas meninas. Quase todas doidas por homem. Um horror!
Geração de taradas! Ah! essa televisão.
Pondo a perder. Filhas, muitas, de boa família! A Lurdinha
põe tudo a nu. Aquilo é só sutiã
e calcinha . A Ana que se sabe boneca cobiçada estraçalha.
Calças colantes. Transparentes. As penugens insinuando-se.
Pai do céu! onde chegamos. Acabam grávidas.
Filhos sem mãe. Porque despreparadas. Marginais. Perdidos.
Sem carinho. Sem mãe, nem pai. Uma desfamília.
Mãe! Assim não vira. Vê se muda. Você
precisa. Também, nem tanto!
Ah! uma mãe. Mãe para meu desencanto.
Para curar minhas feridas. Para consolar meus prantos. Para
curar minhas feridas. Para me mimar com sua comida. Para chorar
em minhas partidas. Para me chamar razão de sua vida.
Para me defender com unhas e dentes. Feito fera demente protegendo
sua cria. Para perder o sono por mim. Para não parar
de falar bem de mim.
Ah! uma mãe. Que me chame: meu filho!.
Que não consegue esconder dos olhos o grande brilho,
quando mencionam seu filho. Que lava. Passa. Se mata. Por
uma única e inigualável causa: meu filho! Que
enfrenta filas. Viaja nas mais duras bancadas. Até
no pau-de-arara. Que o corpo, os pés dilacera em duras
caminhadas na conquista de seu incomparável troféu.
Ah! minha mãe deslumbrada, me amamentando
com seu seio. Falando pra mim o tempo inteiro. Me fazendo
gracejos. Minha mãe brincando com meu corpo. Acariciando
meu rosto. Me estalando beijos. Eu, ouvindo o seu riso tocante.
Eu, vendo seu sorriso lindo. Minha mãe me amparando
em meus tropeços iniciantes. Minha mãe trocando
minha fralda. Morrendo de rir da minha mixada em sua cara.
Face nublada (num esforço que mal disfarça)
dizendo não! Insistindo. Não! Leve palmada.
Não! Leve palmada. Sim. Batendo palma. Sim! Batendo
palma.
Minha mãe dilacerada. Por mim chorando.
Minha mãe pedindo por mim. Minha mãe dizendo
que não é bem assim. Minha mãe! Até
o fim.
Ah! mãe dos meus pecados. Mãe
dos desamparados. Dos descrentes e desacreditados. Mãe
dos pobres e injustiçados. Mãe dos ricos e bem-dotados.
A quem todos eles recorrem pelo mínimo e pelo máximo.
A quem não esquecem a imagem de mágico e místico
poder. Mãe, Senhora Graça Dadivosa eternamente.
Nada mais basta que sempre assim olhai por nós. Que
tanto sofremos por isso. Que tanto tem amamos por isso.