Agulhas. Evocam arruinação.
Mais que semelhanças sonoras. São imagens do
imaginário construído quando ante elas.
A avó costurando. Aquelas afiladas
agulhas espetadas na almofada. O avô vacinando os animais.
Enormes agulhas fincando nas carnes do gado. Nas carnes dos
cavalos. As injeções contra a gripe. O farmacêutico
nos preparativos. A troca de agulhas. Uma que injeta o liquido
num vidrilho. Outra que aspira o remédio já
misturado. E a agulha maior. Para se enterrar no braço.
Na nádega. Lembra dos choros apavorantes das crianças
ante a súbita picada da agulha. Lembra-lhe a anestesia
picando as costas para a extração do apêndice.
E as agulhas das laranjeiras mesmas. Terríveis. Espinhos
como se espadas. Como se facas agudíssimas. Punhais
nascidos em galhos, de tão malignos a corpo de quem
quer que seja. Ficava cogitando. Como podia. Pé-de-fruta
tão saborosa repleto de agulhas tão maléficas.
E as agulhinhas dos cactos. Dos cactos de ornamento. Enfincam-se
para querer não mais sair. Permanecem na ardência
da picada. E não saem. Nem pinça. Nem mesmo
a agulha mesma. Quanto mais se escarafuncha, mais parece penetrar.
Agulhinhas semelhantes a elas, as dos carrapichos. Muito doridas.
Como aquelas. Desentranháveis. Como aquelas.
Agora exposto a sinistras agulhas para acupuntura.
A cura na ponta das agulhas. Sabiamente enfincandas. Em pontos
estratégicos do corpo. Cujas energéticas ações
têm efeitos terapêuticos eficazes.
O tempo empurra os seres para as doenças.
Cuja manifestação, nos homens, é mais
evidente. Então a acorrida para a cura. Pela qual quase
tudo vale.
Acupuntura. Sinistras agulhas picotando o
corpo para magnetizá-lo. É uma das formas de
cura em moda. Sim. É terapia milenar. Que se afirma
de ação científica comprovada. Mas só
há pouco tornou à voga.
Não ouvira falar que problemas famosos
tivessem recorrido a ela. O mais célebre, o caso Ronaldinho.
O Fenômeno, cujo joelho falha. As duas não menos
famosas intervenções foram cirúrgicas.
Nada quanto a possível recorrência à acupuntura.
Também o de fama igual no passado,
agora já não unânime, Romário.
E o joelho que o encaminha cada vez mais para a histórica
galeria dos craques fenomenais. Não se soube que tenha
se entregado à acupuntura.
Chegou a cogitar em charlatanice. Coincidentemente
a voga da acupuntura se dá no mesmo momento do esoterismo.
Lembrou-se de quando menino. Os fenômenos eram Pelé
e Garrincha. Pelé fama maior. Urbanizado. Metropolizado.
Recorria à medicina em suas esporádicas contusões.
Mané, capiau. Não se situava nas metrópoles,
as quais ridicularizava com seus dribles desconcertantes.
Era uma ave maneira fazendo de bobo o urbano que inutilmente
tentava apanhá-lo. Mané entregava-se também
às benzedeiras e curandeiros.
Lembra de que fazia o mesmo. Pobre. Mais para
Mané. Maneiro. Acostumado a constantes brincadeiras,
raramente contusões o pegavam. Porém, quando,
recorria à benzeção de Dona Zefa. E à
erva-de-santa maria. Cujos preparativos eram especialidade
da avó.
Dos instrumentos da benzedeira Zefa constava
a agulha. Mas a agulha ia costurando num pedaço de
trapo um desenho de exclusiva leitura dela. A cada sessão,
o desenho modificava-se.
Homem maduro. Viceralmente urbanizado. Recorrente
da medicina. Resolveu levar seu joelho combalido pela lida
às agulhas da acupuntura. As agulhas ferem-lhe a pele
e a carne empedernidas.
Hora em que sempre lhe vem a agulha de Dona
Zefa costurando suas contusões. Nenhuma dor.