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Postura
Data 02/mai/2002

Agulhas. Evocam arruinação. Mais que semelhanças sonoras. São imagens do imaginário construído quando ante elas.

A avó costurando. Aquelas afiladas agulhas espetadas na almofada. O avô vacinando os animais. Enormes agulhas fincando nas carnes do gado. Nas carnes dos cavalos. As injeções contra a gripe. O farmacêutico nos preparativos. A troca de agulhas. Uma que injeta o liquido num vidrilho. Outra que aspira o remédio já misturado. E a agulha maior. Para se enterrar no braço. Na nádega. Lembra dos choros apavorantes das crianças ante a súbita picada da agulha. Lembra-lhe a anestesia picando as costas para a extração do apêndice. E as agulhas das laranjeiras mesmas. Terríveis. Espinhos como se espadas. Como se facas agudíssimas. Punhais nascidos em galhos, de tão malignos a corpo de quem quer que seja. Ficava cogitando. Como podia. Pé-de-fruta tão saborosa repleto de agulhas tão maléficas. E as agulhinhas dos cactos. Dos cactos de ornamento. Enfincam-se para querer não mais sair. Permanecem na ardência da picada. E não saem. Nem pinça. Nem mesmo a agulha mesma. Quanto mais se escarafuncha, mais parece penetrar. Agulhinhas semelhantes a elas, as dos carrapichos. Muito doridas. Como aquelas. Desentranháveis. Como aquelas.

Agora exposto a sinistras agulhas para acupuntura. A cura na ponta das agulhas. Sabiamente enfincandas. Em pontos estratégicos do corpo. Cujas energéticas ações têm efeitos terapêuticos eficazes.

O tempo empurra os seres para as doenças. Cuja manifestação, nos homens, é mais evidente. Então a acorrida para a cura. Pela qual quase tudo vale.

Acupuntura. Sinistras agulhas picotando o corpo para magnetizá-lo. É uma das formas de cura em moda. Sim. É terapia milenar. Que se afirma de ação científica comprovada. Mas só há pouco tornou à voga.

Não ouvira falar que problemas famosos tivessem recorrido a ela. O mais célebre, o caso Ronaldinho. O Fenômeno, cujo joelho falha. As duas não menos famosas intervenções foram cirúrgicas. Nada quanto a possível recorrência à acupuntura.

Também o de fama igual no passado, agora já não unânime, Romário. E o joelho que o encaminha cada vez mais para a histórica galeria dos craques fenomenais. Não se soube que tenha se entregado à acupuntura.

Chegou a cogitar em charlatanice. Coincidentemente a voga da acupuntura se dá no mesmo momento do esoterismo. Lembrou-se de quando menino. Os fenômenos eram Pelé e Garrincha. Pelé fama maior. Urbanizado. Metropolizado. Recorria à medicina em suas esporádicas contusões. Mané, capiau. Não se situava nas metrópoles, as quais ridicularizava com seus dribles desconcertantes. Era uma ave maneira fazendo de bobo o urbano que inutilmente tentava apanhá-lo. Mané entregava-se também às benzedeiras e curandeiros.

Lembra de que fazia o mesmo. Pobre. Mais para Mané. Maneiro. Acostumado a constantes brincadeiras, raramente contusões o pegavam. Porém, quando, recorria à benzeção de Dona Zefa. E à erva-de-santa maria. Cujos preparativos eram especialidade da avó.

Dos instrumentos da benzedeira Zefa constava a agulha. Mas a agulha ia costurando num pedaço de trapo um desenho de exclusiva leitura dela. A cada sessão, o desenho modificava-se.

Homem maduro. Viceralmente urbanizado. Recorrente da medicina. Resolveu levar seu joelho combalido pela lida às agulhas da acupuntura. As agulhas ferem-lhe a pele e a carne empedernidas.

Hora em que sempre lhe vem a agulha de Dona Zefa costurando suas contusões. Nenhuma dor.



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