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Rotacismo
Data 25/abr/2002

As idas e vindas da rotina. Vai-se. Vem-se. Automatismos, a vida. E pelo caminho que se trilha todo dia se parece. Dia repetitivo. Quase a mesma hora as mesmas pessoas. Quase no mesmo lugar. Cada qual sabendo o outro que lhe passa pelos olhos. Como se encontro tacitamente marcado por estranhos. Às vezes o hábito do encontro torna-os conhecidos. Conhecidos só pelo olhar.

Aquele sujeito. Aquela mulher. Os quais a seu modo, manhãzinha, todo dia, varrem a calçada. Metodicamente. Amontoam os resíduos. Recolhe-os. Sempre os mesmos procedimentos. Aquele sujeito que depõe alimento aos pássaros. Às pombas mais precisamente. Os estudantes das escolas públicas. Cheios de sono. E de desânimo. Os operários em bicicleta. Os mototáxis raivosos e apressados. Os que caminham pela manhã. Os bares. Ponto de encontro antes e depois do trabalho. São típicos trabalhadores braçais. Sol nem posto, aos balcões. Decerto já bebem. Para enfrentar o trabalho. Para enfrentar o desemprego. Para enfrentar o próprio vício. De certo alguns fazem mesmo o seu precário desjejum. À tarde tornam. Bebem muito mais. E fazem psicanálise grupal. Intergrupal. Discutem futebol. Discutem o padrão Globo de novela. Discutem os boatos sobre machos e fêmeas. Discutem a política local. A política nacional. Palpitam sobre as guerras do dia. Palestinos contra israelenses.

O sol. Leve. Tomando tudo. Balizando o tempo. Fertilizando a vida. Calcinando cânceres. Também sendo perigoso. Perfeito exemplo maior de que malignidade e benignidade não são excludentes à lei da natureza. O sol é único. Todavia vivifica e mata. Coube ao homem o poder intervencionista de lidar com isso.

A rotina da tarde muito se parece uma manhã repetitiva. Agora é o ir-se. Tornam os escolares Alegres agora. Acabou-se o suplício do dia. Agora é apagar a escola até amanhã. As raivosidades mototaxistas voltam a rugir pelas ruas. Os operários de bicicleta demandam para casa. Para os bares. Os muitos automóveis. Os coletivos vão cheios. O comércio começa o processo de fechamento. Que nenhuma loja cerra suas portas abruptamente. O sol declinado para a outra margem. Cada vez mais imerge na escura lagoa da noite. Para que a lua com seu sorriso largo ou mínimo venha para fazer sua vez. A lua com sua comitiva de donzelas lindas (Aldebarã é a mais bonita!) Vêm arregalar os olhos de quem quer. E pouco lhes importa não queiram. Estão lá. Que se dêem às novelas. Que se dêem aos outros etecéteras. Estão lá. Aos que são capazes de ver e ouvir lua e estrelas.

Nesse ir e vir. A vida. Gastando a vida. Rotina. Envolvido, mal a via. Via-a até. Como se vê desviando o olhar. Para não se ir além do compadecer-se. Sempre relutara com esse sentimento. Quer poder tratar o deficiente como um comum. Categorizá-lo na linha da normalidade.

Assim via-a sempre. Mais à tarde. Pela calçada. Andando em seu possível. As pernas com seus aparelhos de apoio. Aquela muleta em que o apoio se prende ao braço. O que sempre via. Aconteceu quando parara para esperar o fluxo da preferencial liberar a sua travessia. Ela estacada ali. O olhar dela pregado nele. Passagem livre. Olhou mais antes de ir. O olhar dela súplice pregado nele.

Não prosseguiu. Retrocedeu ao lugar. Mas estacionou ao pé dela. Olharam-se. Perguntou a ela se estava tudo bem. Se precisava alguma coisa. Quieta. Quietos. Então olhou para frente. Ia embora. Aí ela falou o senhor é um moço tão bonito. Encabulado agradeceu. Ela prosseguiu que o senhor parece muito quando eu tinha pai. Ficou embaraçado. Sem voz. Olhos piedosos nela. E se enraiveceu consigo por isso. Quis pensar na filha que não pôde ter. Ela, olhar pregado nele. Abriu um sorriso triste e bonito. E saiu andando como pôde, seguindo o caminho.



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