As idas e vindas da rotina. Vai-se. Vem-se.
Automatismos, a vida. E pelo caminho que se trilha todo dia
se parece. Dia repetitivo. Quase a mesma hora as mesmas pessoas.
Quase no mesmo lugar. Cada qual sabendo o outro que lhe passa
pelos olhos. Como se encontro tacitamente marcado por estranhos.
Às vezes o hábito do encontro torna-os conhecidos.
Conhecidos só pelo olhar.
Aquele sujeito. Aquela mulher. Os quais a
seu modo, manhãzinha, todo dia, varrem a calçada.
Metodicamente. Amontoam os resíduos. Recolhe-os. Sempre
os mesmos procedimentos. Aquele sujeito que depõe alimento
aos pássaros. Às pombas mais precisamente. Os
estudantes das escolas públicas. Cheios de sono. E
de desânimo. Os operários em bicicleta. Os mototáxis
raivosos e apressados. Os que caminham pela manhã.
Os bares. Ponto de encontro antes e depois do trabalho. São
típicos trabalhadores braçais. Sol nem posto,
aos balcões. Decerto já bebem. Para enfrentar
o trabalho. Para enfrentar o desemprego. Para enfrentar o
próprio vício. De certo alguns fazem mesmo o
seu precário desjejum. À tarde tornam. Bebem
muito mais. E fazem psicanálise grupal. Intergrupal.
Discutem futebol. Discutem o padrão Globo de novela.
Discutem os boatos sobre machos e fêmeas. Discutem a
política local. A política nacional. Palpitam
sobre as guerras do dia. Palestinos contra israelenses.
O sol. Leve. Tomando tudo. Balizando o tempo.
Fertilizando a vida. Calcinando cânceres. Também
sendo perigoso. Perfeito exemplo maior de que malignidade
e benignidade não são excludentes à lei
da natureza. O sol é único. Todavia vivifica
e mata. Coube ao homem o poder intervencionista de lidar com
isso.
A rotina da tarde muito se parece uma manhã
repetitiva. Agora é o ir-se. Tornam os escolares Alegres
agora. Acabou-se o suplício do dia. Agora é
apagar a escola até amanhã. As raivosidades
mototaxistas voltam a rugir pelas ruas. Os operários
de bicicleta demandam para casa. Para os bares. Os muitos
automóveis. Os coletivos vão cheios. O comércio
começa o processo de fechamento. Que nenhuma loja cerra
suas portas abruptamente. O sol declinado para a outra margem.
Cada vez mais imerge na escura lagoa da noite. Para que a
lua com seu sorriso largo ou mínimo venha para fazer
sua vez. A lua com sua comitiva de donzelas lindas (Aldebarã
é a mais bonita!) Vêm arregalar os olhos de quem
quer. E pouco lhes importa não queiram. Estão
lá. Que se dêem às novelas. Que se dêem
aos outros etecéteras. Estão lá. Aos
que são capazes de ver e ouvir lua e estrelas.
Nesse ir e vir. A vida. Gastando a vida. Rotina.
Envolvido, mal a via. Via-a até. Como se vê desviando
o olhar. Para não se ir além do compadecer-se.
Sempre relutara com esse sentimento. Quer poder tratar o deficiente
como um comum. Categorizá-lo na linha da normalidade.
Assim via-a sempre. Mais à tarde. Pela
calçada. Andando em seu possível. As pernas
com seus aparelhos de apoio. Aquela muleta em que o apoio
se prende ao braço. O que sempre via. Aconteceu quando
parara para esperar o fluxo da preferencial liberar a sua
travessia. Ela estacada ali. O olhar dela pregado nele. Passagem
livre. Olhou mais antes de ir. O olhar dela súplice
pregado nele.
Não prosseguiu. Retrocedeu ao lugar.
Mas estacionou ao pé dela. Olharam-se. Perguntou a
ela se estava tudo bem. Se precisava alguma coisa. Quieta.
Quietos. Então olhou para frente. Ia embora. Aí
ela falou o senhor é um moço tão bonito.
Encabulado agradeceu. Ela prosseguiu que o senhor parece muito
quando eu tinha pai. Ficou embaraçado. Sem voz. Olhos
piedosos nela. E se enraiveceu consigo por isso. Quis pensar
na filha que não pôde ter. Ela, olhar pregado
nele. Abriu um sorriso triste e bonito. E saiu andando como
pôde, seguindo o caminho.