Era meu cheiro. Conhecia-o, claro. Pois se
aquilo cheira eu! Odor de um homem na madureza da vida. Transpirante.
Um cheiro inconfundível. Que minha mulher capta a distância.
Que meus filhos não têm dúvidas. Que minha
mãe por certo nunca perderá.
Cheiro de um homem teimoso. Obsedado por suas
utopias. Homem que desde menino molhou a camisa por suas conquistas.
Todas. Todas de exigir muito desse suor que exala esse cheiro.
Suores que a meu pai causaram orgulho. Que a minha mãe
causa. Para meu pai começou nos campinhos, depois nos
campos, de futebol. Toda energia despendida por um craque.
Craque não apenas tocava de primeira. Passes surpreendentes.
Inesperados. Criativos. Não apenas dribles desconcertantes
Para adiante. Mas é também aquele que disputa
a bola. Corre em combate à jogada adversária
incessantemente. Molha a camisa. Empapava-a com o suor de
que advinha o seu cheiro.
Os homens são seus odores. Sutis são
as diferenças. Contudo, nenhum cheiro igual ao outro.
Como cada um é único. De certo mesmo os daqui
a pouco clones. Penso. Meu clone terá meu cheiro? Minha
mesma lentidão? Minhas mesmas fragilidades? Só
vendo. Não de mim que não o terei. Dos narcisos
que, sem dúvida quererão.
Meio aturdido. Não me lembra, sequer
de passagem, situação dessa. Exceto o cheiro
de camiseta usada em corrida. Mas esse é um cheiro
não exatamente meu. Precisamente, não meu. Ele
resulta da consubstanciação de meu suor com
o tecido. A minha química humana amalgamada à
do algodão tecido. E em estado seco. Porque quando
molhado é outro o cheiro. Mais tolerável. Nada
agressivo ao olfato.
Esse meu cheiro. Nunca o havia notado tanto.
Totalitário. Possessivo. Obliterando os demais sentidos.
Não permitindo que senão com ele me veja envolvido.
Essa brisa outonal vindo da janela. Transpondo a porta. Tem
no dorso o odor do meu cheiro. Que me vem. Me reconheço
nele. Me surpreendo. Fico um pouco apreensivo. A curiosidade
indagativa. Por que me vindo quando de mim? A mim mesmo estar
cheirando-me? Isso é um processo mecânico. Imperceptível.
Não me vir nitidamente, porque sou meu próprio
cheiro.
Estranho, todavia, vir a mim como os cheiros
outros. Como se algo de mim mesmo se desgarra. Depois retorna.
Conforma que me cheire bem. Gosto de meu cheiro bom. Másculo.
Suave. Carinhoso. Terno. Odorante em sua normalidade. Não
agride como muitos com que me deparo por aí.
Cheiros. Muitos nauseabundos. Não digo
os putrefatos apenas. Os que fedem. Refiro-me aos odores humanos.
Cheiros de gente. Cheiros que atravessam o olfato como um
rio inunda tudo. Rápidos e cáusticos. Cheiro
de perfume barato. De desodorante vencido. De desodorante
enjoativamente odorífico. Cheiro de camisa de muito
uso sem lavar. Cheiros que levam a reter o fôlego.
Mas era o meu cheiro. Cheiro bom. De me suster
o pensamento. De me por ao léu. Cheiro melhor somente
o de meus filhos quando pequeninos. Cheiro melhor somente
o cheiro da mulher amada.