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Cheiro
Data 18/abr/2002

Era meu cheiro. Conhecia-o, claro. Pois se aquilo cheira eu! Odor de um homem na madureza da vida. Transpirante. Um cheiro inconfundível. Que minha mulher capta a distância. Que meus filhos não têm dúvidas. Que minha mãe por certo nunca perderá.

Cheiro de um homem teimoso. Obsedado por suas utopias. Homem que desde menino molhou a camisa por suas conquistas. Todas. Todas de exigir muito desse suor que exala esse cheiro. Suores que a meu pai causaram orgulho. Que a minha mãe causa. Para meu pai começou nos campinhos, depois nos campos, de futebol. Toda energia despendida por um craque. Craque não apenas tocava de primeira. Passes surpreendentes. Inesperados. Criativos. Não apenas dribles desconcertantes Para adiante. Mas é também aquele que disputa a bola. Corre em combate à jogada adversária incessantemente. Molha a camisa. Empapava-a com o suor de que advinha o seu cheiro.

Os homens são seus odores. Sutis são as diferenças. Contudo, nenhum cheiro igual ao outro. Como cada um é único. De certo mesmo os daqui a pouco clones. Penso. Meu clone terá meu cheiro? Minha mesma lentidão? Minhas mesmas fragilidades? Só vendo. Não de mim que não o terei. Dos narcisos que, sem dúvida quererão.

Meio aturdido. Não me lembra, sequer de passagem, situação dessa. Exceto o cheiro de camiseta usada em corrida. Mas esse é um cheiro não exatamente meu. Precisamente, não meu. Ele resulta da consubstanciação de meu suor com o tecido. A minha química humana amalgamada à do algodão tecido. E em estado seco. Porque quando molhado é outro o cheiro. Mais tolerável. Nada agressivo ao olfato.

Esse meu cheiro. Nunca o havia notado tanto. Totalitário. Possessivo. Obliterando os demais sentidos. Não permitindo que senão com ele me veja envolvido. Essa brisa outonal vindo da janela. Transpondo a porta. Tem no dorso o odor do meu cheiro. Que me vem. Me reconheço nele. Me surpreendo. Fico um pouco apreensivo. A curiosidade indagativa. Por que me vindo quando de mim? A mim mesmo estar cheirando-me? Isso é um processo mecânico. Imperceptível. Não me vir nitidamente, porque sou meu próprio cheiro.

Estranho, todavia, vir a mim como os cheiros outros. Como se algo de mim mesmo se desgarra. Depois retorna. Conforma que me cheire bem. Gosto de meu cheiro bom. Másculo. Suave. Carinhoso. Terno. Odorante em sua normalidade. Não agride como muitos com que me deparo por aí.

Cheiros. Muitos nauseabundos. Não digo os putrefatos apenas. Os que fedem. Refiro-me aos odores humanos. Cheiros de gente. Cheiros que atravessam o olfato como um rio inunda tudo. Rápidos e cáusticos. Cheiro de perfume barato. De desodorante vencido. De desodorante enjoativamente odorífico. Cheiro de camisa de muito uso sem lavar. Cheiros que levam a reter o fôlego.

Mas era o meu cheiro. Cheiro bom. De me suster o pensamento. De me por ao léu. Cheiro melhor somente o de meus filhos quando pequeninos. Cheiro melhor somente o cheiro da mulher amada.



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