Uma amargosa. Assim sempre ouviu dizer o povo
sobre essa espécie de pomba. Tamanho menor. O pombo
urbano tem porte maior. Garbo. A urbanidade confere-lhe outro
porte. As cores iridescentes. Mesmo quando não o azul
com os tons róseos no pescoço grosso. Empapado.
A sua pisadura exibicionista nos pátios. Nalgumas calçadas.
Pombo dado a símbolo preservativo. A paz. Também
o símbolo místico veste-se desse pombo.
A amargosa é inquilina urbana bem mais
nova. Advém das desfeitas à natureza. Advém
das devassadas matas. A raquítica vegetação
citadina as serve. Talvez lhes console. Mitiga a irreparável
perda de seu habitat. Como outros muitos pássaros.
Como outros muitos animais. Como outros animais homens nômades
produzidos pelo capitalismo selvagem que as selvas abate.
Que o campesinato mata.
São tantas pombas. Há a elegância
da pomba do ar. A pomba verdadeira. A asa branca. Pescoço
longilíneo. Que fica feito um ponto de interrogação
oscilando para frente. Na sua tensão de estar inquieta.
Também elas já são do convívio
dessas plagas urbanas. Ciscam as ruas. Bebem água nas
poças de buraco de asfalto. E nos fios não-árvores,
tesos em suas energias contidas, elas choram seus lamentos.
Como as amargosas. Como as pombas-rola. Por essas plagas urbanas
também estadiam as juritis. Ariscas pombas. Porte esbelto.
Esguio pescoço.
A juriti no topo do pé-de-café.
O pescoço na tensão de sua inquietude bicando
oscilantemente o ar. Os olhinhos aguçados. O menino
em sua caça programada. Caçador cioso. Com seu
estilingue e pelotas de argila de sua própria fabricação.
Terrível catapulta veloz. Outra presa não pretendia.
Queria exibir uma caça bela. Uma pomba do ar. Dificílima
façanha. Empreendia todos os seus estratagemas de guerreiro
audaz. Mas nada. Ariscas! O mínimo as espantava.
Quinze pés de café de distância.
Longe. Muito longe. Desinteressou-se. Estava já indo
embora, quando viu a pomba. No topo. Bela! Restavam-lhe duas
munições. Não precisava mais delas. Havia
dado a caça por finda. Despreocupadamente atirou. Passou
muito próximo. A pomba assustou-se. Fez menção
de ir. Mas ficou. A segunda, longe. A pomba lá, soberana.
Nada a fazer. Era ir-se. E avistou uma mamona. Meio murcha.
Do jeito que a apanhou, pô-la na malha do estilingue
e soltou o tiro. A mamona explodiu na cabeça da pomba.
Precipitou-se para ela. Foi uma festa. O senhor caçador!
Espécime belíssimo.
Agora, ali no canto dos pilares com as vigas
do avarandado da casa elas nidificam. Por quê? Se no
quintal há árvores? Árvores de bom porte.
Cajueiro. Goiabeira. Coqueiros. Todavia, têm toda a
proteção. Conquanto os filhotes no aprendizado
de seu vôo caiam quase todos nas garras de um dos cães.
Coisas do tempo. A preciosa e rara caça
de ontem, hoje faz assegurada moradia no avarandado de sua
casa.