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Desidentidade
Data 11/abr/2002

Uma amargosa. Assim sempre ouviu dizer o povo sobre essa espécie de pomba. Tamanho menor. O pombo urbano tem porte maior. Garbo. A urbanidade confere-lhe outro porte. As cores iridescentes. Mesmo quando não o azul com os tons róseos no pescoço grosso. Empapado. A sua pisadura exibicionista nos pátios. Nalgumas calçadas. Pombo dado a símbolo preservativo. A paz. Também o símbolo místico veste-se desse pombo.

A amargosa é inquilina urbana bem mais nova. Advém das desfeitas à natureza. Advém das devassadas matas. A raquítica vegetação citadina as serve. Talvez lhes console. Mitiga a irreparável perda de seu habitat. Como outros muitos pássaros. Como outros muitos animais. Como outros animais homens nômades produzidos pelo capitalismo selvagem que as selvas abate. Que o campesinato mata.

São tantas pombas. Há a elegância da pomba do ar. A pomba verdadeira. A asa branca. Pescoço longilíneo. Que fica feito um ponto de interrogação oscilando para frente. Na sua tensão de estar inquieta. Também elas já são do convívio dessas plagas urbanas. Ciscam as ruas. Bebem água nas poças de buraco de asfalto. E nos fios não-árvores, tesos em suas energias contidas, elas choram seus lamentos. Como as amargosas. Como as pombas-rola. Por essas plagas urbanas também estadiam as juritis. Ariscas pombas. Porte esbelto. Esguio pescoço.

A juriti no topo do pé-de-café. O pescoço na tensão de sua inquietude bicando oscilantemente o ar. Os olhinhos aguçados. O menino em sua caça programada. Caçador cioso. Com seu estilingue e pelotas de argila de sua própria fabricação. Terrível catapulta veloz. Outra presa não pretendia. Queria exibir uma caça bela. Uma pomba do ar. Dificílima façanha. Empreendia todos os seus estratagemas de guerreiro audaz. Mas nada. Ariscas! O mínimo as espantava.

Quinze pés de café de distância. Longe. Muito longe. Desinteressou-se. Estava já indo embora, quando viu a pomba. No topo. Bela! Restavam-lhe duas munições. Não precisava mais delas. Havia dado a caça por finda. Despreocupadamente atirou. Passou muito próximo. A pomba assustou-se. Fez menção de ir. Mas ficou. A segunda, longe. A pomba lá, soberana. Nada a fazer. Era ir-se. E avistou uma mamona. Meio murcha. Do jeito que a apanhou, pô-la na malha do estilingue e soltou o tiro. A mamona explodiu na cabeça da pomba. Precipitou-se para ela. Foi uma festa. O senhor caçador! Espécime belíssimo.

Agora, ali no canto dos pilares com as vigas do avarandado da casa elas nidificam. Por quê? Se no quintal há árvores? Árvores de bom porte. Cajueiro. Goiabeira. Coqueiros. Todavia, têm toda a proteção. Conquanto os filhotes no aprendizado de seu vôo caiam quase todos nas garras de um dos cães.

Coisas do tempo. A preciosa e rara caça de ontem, hoje faz assegurada moradia no avarandado de sua casa.



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