Não entendia bem. Mas sabia do quanto
o ego é susceptível. Querer absoluto. Possessão.
Exclusividade. Mal congênito dos animais.
Daí tentar compreender a solicitação:
queria um poema para si. Que fosse para ela. Com minha cara.
Faça pra mim, poeta!
Não prometera. Nem negara peremptoriamente.
Desconversara.
Depois, ficara pensando nos equívocos.
Decerto, solicitações dessas tinham por estímulo
as dedicatórias. Os poetas têm o hábito
de dedicar poemas. Ou o livro de poemas. João Cabral
dedicou muitos. Drummond, nem tanto. Mas também. Murilo
Mendes dedicou-os. Jorge de Lima. Bandeira intitulou poemas
com o nome dos contemplados. Vinícius fez rol de poemas
louvações.
Todavia, ainda assim, não era a mesma
coisa. Poemas dessa natureza não têm exclusividade.
Numa dedicatória o que delineia o poema não
aparenta. Poema dedicado quase sempre traz inesperados. O
contemplado não o lê como quem num espelho se
põe. Lê-o como se examina súbita pinta
desconhecida. O encômio é de menos. Já
vem no próprio fato de ser do poema. E poema foge do
óbvio. Não se afina com o óbvio. E há,
sutis que sejam, distinções entre o poema dedicado
e o poema nominado.
O poema dedicado resulta na pinta então
desconhecida. O poema nominado é a pinta desconhecida,
todavia vista por um prisma singular.
O poema resultante em pinta desconhecida:
FILHOS
A meu filho Marcos
Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via
crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.
(Ferreira Gullar)
A pinta desconhecida:
GRACILIANO RAMOS:
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço.
Cresta o simplesmente folhagem,
Folha prolixa, folharada,
Onde possa esconder-se a fraude.
Falo somente por quem falo:
Por quem existe nesses climas
Condicionados pelo sol,
Pelo gavião e outras rapinas:
E onde estão os solos inertes
De tantas condições caatinga
Em que só cabe cultivar
O que é sinônimo da míngua
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente,
a contra-pêlo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.
(João Cabral de Melo Neto)
Mas o consabido: um poema, por mais restrito,
se abre ao lido. O receptor se capta, se acha às vezes
no mínimo. Na combinação dos sons de
um ou vários versos. Na imagem suscitada por uma expressão.
Por um verso. A cadência rítmica. As rimas. A
face do poema. Evocam. Suscitam. Fatos, sensações
vividos. Instauram sonhos.
Então o poema é de domínio
público. E quando assim, um poema nunca mais é
um. Um poema é outro a cada recepção.
A bula de remédio é única. Único
o decreto. A lei. Única a notícia. Um poema
são muitos a cada voz. Bicho vivo.
Então, se feito a específico
destino, se despoetisa. Fica psicanalítico. Quer-se
análise. Menos poema. E poeta e psicanalista caminham
por via inversas. Diversas.A da construção desconstrução,
um. A da desconstrução construção,
o outro.