Ao nascer homem, há pai nenhum que
resista. Presenteia o menino atribuindo-lhe o time do coração.
Depois, pratica a política da fixação.
As coisas trazem as cores do time. Ao após-fralda,
camisa do time. O quase uniforme. Assiste ao jogo na tevê,
o filho no colo. O filho próximo. Reiterando a denominação
da equipe.
Assim todo pai futebolista (já há
mães). Nada de conversa tola. Deixar que escolha depois
nada. Haverá influências. Vulnerabilidade exposta.
Logo, sem descuidar-se do ritual iniciador. A preguiça
abre às intromissões. Agir vigilantemente.
E torcer a time de futebol é patrimônio.
Transmissão como os valores. A ética. Os bons
costumes. Como os bens de família. Como o nome de família.
Iniciação como tudo isso tem. Sob pena de ver,
quando tarde, a perda.
E futebol demora ainda à mulher habilitar-se.
Esporte masculino há milênios. Futebol é
patriarcal. Cabe ao pai. Meu filho é do meu time. Não
cabe o baixo golpe de antidemocrático tal procedimento.
A pseudodemocracia sucumbe ao espertalhão. Aos aproveitadores.
Onde se viu? Filho meu torcedor de rival de time meu? Adversário
atira-nos ao rosto. Incompetência tanta que o filho
torce pelo rival.
Futebol também. Coisa de pai para filho.
Já propaga o adágio: onde há união,
há pão. Para o que nada escapa. Tudo tem fundo.
A razão disso é que o filho
rompera o elo. O neto crescia. Lindo moleque. Aguçadíssima
inteligência. Entanto, sinais quaisquer de iniciação.
Pôs-se feito quem à espreita. Crescia o neto.
E nada. Indício algum do time de família. Hora
de sair dos desvãos. Acabariam perdendo o neto.
A alegação da inércia:
os familiares da mãe (a própria) eram de cores
outras. Pior. Cores de rival maior. O pai, contumaz mediador,
desincumbiu-se de tomar partido. O menino, vulnerável.
Ó tempos! Chamasse a mulher às falas. Olha,
nessa questão não transijo. É para estado
de brio. Como defesa de honra. Ao homem é de direito.
Questão de cultura nacional. Observe. Em sua casa,
os irmãos são do time do pai. Você mesma.
Os sobrinhos do time do pai deles. Também aqui em casa
cabe ao pai.
Discurso dele que queria do filho que decerto
não o faria. O neto parecia neutro. Crer nisso, todavia,
já implicava perda. Passara da conta. Desenrustir-se.
Empreender estratagema. Talvez chamar o outro para negociação.
Assuntarem sobre o caso. Extraírem posição
comum. Qual! Ingenuidade. Acabariam na mesma solução
do pai e mãe. A única: conciliatória.
Não quereria um e outro esperar o segundo neto para
a compensação. Não cria em neutralidade.
Há muito aprendera que ela não existe. Tampouco
acreditava que o outro cria. Neutralidade é estratégia
manjada.
Convinha agir. A via presentes, inviável.
Presente é educadamente bem-vindo. Mas escamoteado.
No fundo dos guardados. Cachorrinho de pelúcia vestindo
o time. Boné com distintivo. Bola com distintivo em
gomos. Enfim, presente, não.
Não titubearia nas suas posses do neto.
Comprou caneca bonita com as cores e distintivo do time. Dar
de beber ao neto. Toalha de banho para quando. Peniquinho.
Bola para no jardim. Assistir ao time com o neto por perto.
Procedimentos assim. Quando com os pais, melhor não.
Mas não temer arriscar. Afinal, o outro, rival maior,
decerto empreendia também. Seria limpo. Sem tripudiar
o adversário. Se acaso viesse à tona, desconversar.
A surda luta pelo time. O neto como o mais cobiçado
adepto.