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Incertas anciãs
Data 14/mar/2002

Duas anciãs. Duas anciãs vestidas à moda antiga. Duas anciãs muito empobrecidas. Duas anciãs famintas. Família? Coisa de que não sabiam. Esquecido conceito e forma. Então nós forma família, né não Maria? Assim, sim. Eu mais Ana veve junto faz anos.

Se riram. Como se o caso tivesse notoriedade. Nós agora é como irmã pra uma a outra, né memo, Ana? Como mãe. Então. Eu cheguei aqui depois. Ela já fazia o trecho. Brabeceu comigo. Mode que eu ia estrovar. Chorei muito. Ir praonde? Então aí ela teve pena deu, né! Ficamo junto. Agora nós anda pra aqui pra lá. Duas véia sem endereço, moço. Te ontonte, ficamo numa favelinha lá encimão. Lado de lá da cidade. Senhor conhece? Pega praqui ó presse rumo. O dono do barraco teve percisão pra parente chegado tomém. Fazê o quê? Saimo. Tamo naquela praça do centro. Mode que a gente percisa de lugar pra necessidade. (A outra riu. Mão buscando esconder a boca em falta de dentes.) Necessidade poca, né? Pra quem come de misericórdia. Inté pra bebê água às vez é difícil. A gente não acha lugar na rua. Dono de bar faz poco caso. Cara enfezada. Nós apavora. Vamo andando. Nada de compricação. Esturdia a polícia queria levar nós prum asilo. Mas queria dicumento. Endereço. Daí falei, seu guarda, se tamo na rua! Já embrabaram. Que a gente tava desrespeitando otoridade. Que nós só porque era duas velha. Que também podia tomar umas porrada. (Riu.) Maria se mijou toda de medo. (Maria repreendeu-a.) Que coisa mais sem graça, muié! (Rindo) Que o quê, o moço nem liga pra essas coisas, né não?

Não. Não ligava. E nada lhes havia perguntado também. Escutara aquilo tudo sem o querer. Enfadado. Paciente. Ouvira-as. Fora fechar o portão. As crianças todas tinham ido. A passos do portão, elas entraram. Duas anciãs. Atarracadas. Vestidos rodados. Feito ciganas tradicionais. Cabelos escorridos. Brincões. Parecidas. Fizeram-no evocar ciganas mesmo. Em menino, sua cidadezinha vivia ocupada por eles. Lugar descampado. Armavam barracas. Feito gente de circo. As duas imagens, quando pensava nisso, baralhavam. As vestes os distinguiam, porém. Tinham automóveis. Belos cavalos. As jóias fulguravam. Uns pobres ricos incompreensíveis aos olhos do menino. Precaviam-se deles. Cigano era sedutor. Maridos e mulheres cuidassem-se. E dos filhos. Sobretudo das filhas. Eram engambeladores. Nenhum negociante se lhes avantajava. Negócio com cigano sempre desenganava. Os teimosos mais tarde, à socapa, se podiam, descobriam o ponto do prejuízo. Eram afamados de gatunos. Nunca, entanto, ninguém fizera flagrante de lápis surrupiado sequer. Todavia, diziam do desaparecimento. De objetos. De pequenos animais de corte. De bicicletas. A cidadezinha. Tudo em seu lugar. Menos quando acometiam-na os ciganos. E os circos.

As duas anciãs não eram ciganas. As duas anciãs empobrecidas viviam desarvoradas. Duas anciãs perdidas. Como cães de rua. À cata de comida.( A gente ainda tem força. Mas de doméstica não pega a gente. As dona fica olhando a gente. Depois fala que não tá percisando).

Decerto descobriram esse filão. Pediram um pouco de merenda. (Sempre sobra, né? O senhor é o que aqui? Será que o deretor dá da merenda pra gente comer um tiquinho? Desde onti que nós só bebe água.)

Feito as donas, ficou fitando-as por instantes. Os olhares delas caíram ao chão. Entreolharam-se. Pareciam antecipar a negativa. Contudo, houve merenda. Apenas que a merenda aquele dia era somente arroz doce. (Hum! Arroz doce é bom, né não, Ana?)

Cada qual com seu prato plástico fundo de arroz doce. Repetiram. (Às vez tem arroz temperado com frango, né?)

Satisfeitas. Ficaram ainda ali as duas no banco de madeira. Quietas. Olhando o derredor. Dando ao sagrado arroz doce a paz necessária para tornar-se sangue bom de anciãs desenganadas. (Deus-lhe pague, viu. Quem sabe dia desse nós tem sorte pra arroz temperado com frango, né memo?)



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