Duas anciãs. Duas anciãs vestidas
à moda antiga. Duas anciãs muito empobrecidas.
Duas anciãs famintas. Família? Coisa de que
não sabiam. Esquecido conceito e forma. Então
nós forma família, né não Maria?
Assim, sim. Eu mais Ana veve junto faz anos.
Se riram. Como se o caso tivesse notoriedade.
Nós agora é como irmã pra uma a outra,
né memo, Ana? Como mãe. Então. Eu cheguei
aqui depois. Ela já fazia o trecho. Brabeceu comigo.
Mode que eu ia estrovar. Chorei muito. Ir praonde? Então
aí ela teve pena deu, né! Ficamo junto. Agora
nós anda pra aqui pra lá. Duas véia sem
endereço, moço. Te ontonte, ficamo numa favelinha
lá encimão. Lado de lá da cidade. Senhor
conhece? Pega praqui ó presse rumo. O dono do barraco
teve percisão pra parente chegado tomém. Fazê
o quê? Saimo. Tamo naquela praça do centro. Mode
que a gente percisa de lugar pra necessidade. (A outra riu.
Mão buscando esconder a boca em falta de dentes.) Necessidade
poca, né? Pra quem come de misericórdia. Inté
pra bebê água às vez é difícil.
A gente não acha lugar na rua. Dono de bar faz poco
caso. Cara enfezada. Nós apavora. Vamo andando. Nada
de compricação. Esturdia a polícia queria
levar nós prum asilo. Mas queria dicumento. Endereço.
Daí falei, seu guarda, se tamo na rua! Já embrabaram.
Que a gente tava desrespeitando otoridade. Que nós
só porque era duas velha. Que também podia tomar
umas porrada. (Riu.) Maria se mijou toda de medo. (Maria repreendeu-a.)
Que coisa mais sem graça, muié! (Rindo) Que
o quê, o moço nem liga pra essas coisas, né
não?
Não. Não ligava. E nada lhes
havia perguntado também. Escutara aquilo tudo sem o
querer. Enfadado. Paciente. Ouvira-as. Fora fechar o portão.
As crianças todas tinham ido. A passos do portão,
elas entraram. Duas anciãs. Atarracadas. Vestidos rodados.
Feito ciganas tradicionais. Cabelos escorridos. Brincões.
Parecidas. Fizeram-no evocar ciganas mesmo. Em menino, sua
cidadezinha vivia ocupada por eles. Lugar descampado. Armavam
barracas. Feito gente de circo. As duas imagens, quando pensava
nisso, baralhavam. As vestes os distinguiam, porém.
Tinham automóveis. Belos cavalos. As jóias fulguravam.
Uns pobres ricos incompreensíveis aos olhos do menino.
Precaviam-se deles. Cigano era sedutor. Maridos e mulheres
cuidassem-se. E dos filhos. Sobretudo das filhas. Eram engambeladores.
Nenhum negociante se lhes avantajava. Negócio com cigano
sempre desenganava. Os teimosos mais tarde, à socapa,
se podiam, descobriam o ponto do prejuízo. Eram afamados
de gatunos. Nunca, entanto, ninguém fizera flagrante
de lápis surrupiado sequer. Todavia, diziam do desaparecimento.
De objetos. De pequenos animais de corte. De bicicletas. A
cidadezinha. Tudo em seu lugar. Menos quando acometiam-na
os ciganos. E os circos.
As duas anciãs não eram ciganas.
As duas anciãs empobrecidas viviam desarvoradas. Duas
anciãs perdidas. Como cães de rua. À
cata de comida.( A gente ainda tem força. Mas de doméstica
não pega a gente. As dona fica olhando a gente. Depois
fala que não tá percisando).
Decerto descobriram esse filão. Pediram
um pouco de merenda. (Sempre sobra, né? O senhor é
o que aqui? Será que o deretor dá da merenda
pra gente comer um tiquinho? Desde onti que nós só
bebe água.)
Feito as donas, ficou fitando-as por instantes.
Os olhares delas caíram ao chão. Entreolharam-se.
Pareciam antecipar a negativa. Contudo, houve merenda. Apenas
que a merenda aquele dia era somente arroz doce. (Hum! Arroz
doce é bom, né não, Ana?)
Cada qual com seu prato plástico fundo
de arroz doce. Repetiram. (Às vez tem arroz temperado
com frango, né?)
Satisfeitas. Ficaram ainda ali as duas no
banco de madeira. Quietas. Olhando o derredor. Dando ao sagrado
arroz doce a paz necessária para tornar-se sangue bom
de anciãs desenganadas. (Deus-lhe pague, viu. Quem
sabe dia desse nós tem sorte pra arroz temperado com
frango, né memo?)