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Degenerescência
Data 07/mar/2002

A preservação instintiva a impulsionar-nos para a vida. Viver é melhor que sonhar. Apenas os românticos presumiam o inverso. Não os céticos. A galhofa machadiana ironizou muito isso. Mas a vida é luta renhida, disse o poeta Gonçalves Dias. Riobaldo, o incrível personagem de Grande sertão: veredas, afirma que viver é muito perigoso.

A vida é, porém, a meta. O ser quer viver. Aqui está para isso. Viver é instintivo. Dádiva. Ou acaso. Certo é que se quer a vida. E a sua preservação. As condições básicas para ela discorrer a pauta do tempo. Sim, a vida não se dá à toa. Tem suas exigências. A vida é faminta. Uma fome insaciável. A vida precisa. A falta lhe rói a potência de ser. Que não lhe falte água. Que não lhe falte abrigo. Que não lhe falte comida.

Todavia, a vida não é uníssona. Não há vida única. São muitas. E a Terra talvez seja capaz de prover todas. E a todas indistintamente se abriu. Acolheu as. Permitiu que dela fizessem o melhor para a sobrevivência.

A vida vegetal. A vida animal. A vida mineral. A vida humana. Categorias ou classes de vida. É certo que todas se subcategorizam. E estas defendem a vida como pode. Como entendem ser melhor. E quisesse a Terra ou não quisesse que a sua revelia se dê, dá-se que todas incluem no rol do exercício de sua sobrevivência o extermínio de vidas. Viver inclui matar. Literalmente, os animais se comem. Há vidas, conquanto, talvez, lhes falte essa consciência, cujo fim é alimentar outras. Sina cruel. Contudo, as crueldades vão além. Não se esgotam. Abruptam, súbito, como doença ruim.

Os humanos, descobridores da consciência, decidiram dar à vida sentido. Viver por que. Viver para que. Os animais move-os a vital necessidade de saciar a fome. A instinta preservação da espécie. Isso exige-lhes vigilância. Desatenção custa a vida muitas vezes. E custa-lhe a competente habilidade para conseguir comida. Esse o sentido da vida dos animais. Parece-nos. Por instinto copular. Por instinto campear alimento. Por instinto procriar. Por isso também envelhecem Estressam. Senão são abatidos como presa. Talvez os herbívoros apenas sejam vítimas. Não vitimem. (Ou vegetais não berram seu padecimento e dor.)

A vida humana, entretanto, é instinto. É inteligência. Para ela, viver é também sonhar. E seu sonho não decorre da vontade animalesca de ser. Seu sonho decorre de querer ser o que ainda não fora. A vida humana é muito vir a ser. Os homens vivem o seu instante condicionado no depois. Depois será diferente.

E nada pode afetar esta ambição. Nenhum outro ser se depura e se transforma por si mesmo. Barata é barata desde sempre. Homem, não. Homem desde sempre está não sendo. E fatalmente os deslimites da natureza humana afetam mesmo os limites da natureza animal. Da natureza vegetal. Da natureza mineral.

Há espécies animais quase acabadas. Outras já extintas. Efeitos das ações do não-ser contínuo do homem. Há mares. Há rios. Dói saber que o Rio São Francisco tão genuinamente brasileiro agoniza. Sem ao menos ter cuidado devidamente contra a seca e fome nordestinas.

A vida mineral. Escâncaras. Voçorocas. Abismos. Terra devassada. E morta. A vida vegetal atingiu a esfera de tragédia. A mata morre vertiginosamente. Morre decepada. Morre queimada. E a morte das matas implica morte de homens. Sem dúvida, homem é ser que mais avilta sua espécie.

Leu-se há pouco que as quaresmeiras de São Paulo florescem mais de uma vez durante o ano. E suas flores encarnadas têm um brilho e colorido singular. O estresse ocasiona tal beleza. As quaresmeiras apressam-se no ciclo reprodutivo para se preservarem. A poluição paulistana rouba-lhes pelo menos vinte anos de existência. Beleza que a morte provoca.

Dói: a vida humana é assassina. E suicida.



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