A preservação instintiva a impulsionar-nos
para a vida. Viver é melhor que sonhar. Apenas os românticos
presumiam o inverso. Não os céticos. A galhofa
machadiana ironizou muito isso. Mas a vida é luta renhida,
disse o poeta Gonçalves Dias. Riobaldo, o incrível
personagem de Grande sertão: veredas, afirma que viver
é muito perigoso.
A vida é, porém, a meta. O ser
quer viver. Aqui está para isso. Viver é instintivo.
Dádiva. Ou acaso. Certo é que se quer a vida.
E a sua preservação. As condições
básicas para ela discorrer a pauta do tempo. Sim, a
vida não se dá à toa. Tem suas exigências.
A vida é faminta. Uma fome insaciável. A vida
precisa. A falta lhe rói a potência de ser. Que
não lhe falte água. Que não lhe falte
abrigo. Que não lhe falte comida.
Todavia, a vida não é uníssona.
Não há vida única. São muitas.
E a Terra talvez seja capaz de prover todas. E a todas indistintamente
se abriu. Acolheu as. Permitiu que dela fizessem o melhor
para a sobrevivência.
A vida vegetal. A vida animal. A vida mineral.
A vida humana. Categorias ou classes de vida. É certo
que todas se subcategorizam. E estas defendem a vida como
pode. Como entendem ser melhor. E quisesse a Terra ou não
quisesse que a sua revelia se dê, dá-se que todas
incluem no rol do exercício de sua sobrevivência
o extermínio de vidas. Viver inclui matar. Literalmente,
os animais se comem. Há vidas, conquanto, talvez, lhes
falte essa consciência, cujo fim é alimentar
outras. Sina cruel. Contudo, as crueldades vão além.
Não se esgotam. Abruptam, súbito, como doença
ruim.
Os humanos, descobridores da consciência,
decidiram dar à vida sentido. Viver por que. Viver
para que. Os animais move-os a vital necessidade de saciar
a fome. A instinta preservação da espécie.
Isso exige-lhes vigilância. Desatenção
custa a vida muitas vezes. E custa-lhe a competente habilidade
para conseguir comida. Esse o sentido da vida dos animais.
Parece-nos. Por instinto copular. Por instinto campear alimento.
Por instinto procriar. Por isso também envelhecem Estressam.
Senão são abatidos como presa. Talvez os herbívoros
apenas sejam vítimas. Não vitimem. (Ou vegetais
não berram seu padecimento e dor.)
A vida humana, entretanto, é instinto.
É inteligência. Para ela, viver é também
sonhar. E seu sonho não decorre da vontade animalesca
de ser. Seu sonho decorre de querer ser o que ainda não
fora. A vida humana é muito vir a ser. Os homens vivem
o seu instante condicionado no depois. Depois será
diferente.
E nada pode afetar esta ambição.
Nenhum outro ser se depura e se transforma por si mesmo. Barata
é barata desde sempre. Homem, não. Homem desde
sempre está não sendo. E fatalmente os deslimites
da natureza humana afetam mesmo os limites da natureza animal.
Da natureza vegetal. Da natureza mineral.
Há espécies animais quase acabadas.
Outras já extintas. Efeitos das ações
do não-ser contínuo do homem. Há mares.
Há rios. Dói saber que o Rio São Francisco
tão genuinamente brasileiro agoniza. Sem ao menos ter
cuidado devidamente contra a seca e fome nordestinas.
A vida mineral. Escâncaras. Voçorocas.
Abismos. Terra devassada. E morta. A vida vegetal atingiu
a esfera de tragédia. A mata morre vertiginosamente.
Morre decepada. Morre queimada. E a morte das matas implica
morte de homens. Sem dúvida, homem é ser que
mais avilta sua espécie.
Leu-se há pouco que as quaresmeiras
de São Paulo florescem mais de uma vez durante o ano.
E suas flores encarnadas têm um brilho e colorido singular.
O estresse ocasiona tal beleza. As quaresmeiras apressam-se
no ciclo reprodutivo para se preservarem. A poluição
paulistana rouba-lhes pelo menos vinte anos de existência.
Beleza que a morte provoca.