Os clássicos andarilhos são
todos assim. Vagueiam carregando seu mundo. Um mundo, sobretudo,
povoado por muitos ninguéns. Invisível universo
aos viventes do mundo empírico.
Vão conversado. O interlocutor não
se nos expõe. Não nos cabe vê-lo. Vai
amparado pela manta da segura invisibilidade. Apenas à
solitária pessoa que perambula cabe o dom de habitá-lo.
São talvez mais sensíveis e
mais atenciosos, e mais compreensíveis ao universo
dessas almas desprendidas. Penadas.
A máquina do mundo não permite
que tais criaturas componham seu corpo. Um corpo cosmético.
Ávido de conjugar prazer e elegância. Feito para
desfrutar a vida plenamente. Movido pela tácita disputa.
Ser melhor. Viver a inebriação da magia desse
universo dos homens-deus.
Quase tudo está decifrado. Resta mais
nada. Muito pouco. Decifrado o mistério da morte. Decifrado
o lugar e a existência real de Deus. E pronto. Tudo
estará concluído. Basta evitar a estupidez.
Afastar a desfaçatez do bezerro de ouro. Afastar a
danação de Sodoma e Gomorra.
Esse o lugar em que o terráqueo fez
seu Olimpo. Ponto ínfimo no universo. O próprio
terráqueo o soube. O próprio terráqueo
o disse. Nessa insignificância, edificou-se um mundo
de homens ávidos de vencer. Senhores do lugar, subjugaram
tudo o mais a seu domínio. E de impérios sucedendo
impérios, vêm sobrevivendo. Vivendo sobre tudo.
Sobre todos. Sobre si mesmo. Parece que sua insensatez, muito
mais que sua inquietação, instaurou a condição
de risco de perecimento iminente.
A preservação de si mesmo, contraditoriamente,
deflagrou esse risco. O deus-homem passou a olhar somente
ao seu umbigo. E se fez então como seu próprio
e maior inimigo. Seu próprio e maior predador. Paulo
Honório, personagem de São Bernardo, de Graciliano
Ramos, pronunciou isso, enquanto roía sua angústia
e culpa: "O que estou é velho. Cinqüenta
anos pelo S. Pedro. Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta
anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os
outros. Cinqüenta anos. Quantas horas inúteis!
Consumir-se uma pessoa a vida interia sem saber para quê!
E muitas são as formas de predação.
E muitas são as tentativas de defesa. A alienação
é uma muito freqüente. O andarilho ensaca sua
casa. Reúne seus dentros todos. Temores. Amores. Ódios.
Ruínas. Angústias. Dissabores. Fracassos. Valores.
E se põe a vagar para o nada. O acaso é sua
meta. A chegada, sua partida. A estrada, seu condomínio.
Os fantasmas, seus companheiros e familiares. Leva-os consigo
privilegiadamente. Pois, quando o quiser, fala com quem quer.
Com eles decerto discute seus pareceres sobre sua circunstância.
Decerto com eles avalia sua vida. A vida dos outros. O estado
de coisas sociais que seus sentidos captam. Decerto com eles
abre seu coração e lhes conta suas incertezas.
Seu despojamento. Conta-lhes as dores de amor. As dores de
rejeição. Também parece lhes contar suas
alegrias. A felicidade se estampa às vezes em sua cara
vincada de rugas. Enodoada por sol maligno. Pois ri. Ri, quando
em vez, às gargalhadas. Um riso franco. Solto. Contagiante
e comovente. Ri de fazer dó.
Uma fala disparada. Entrecortada de risos,
por vezes. De expressões múltiplas. Ódio.
Angústia. Emoções. O choro parece não
expor. Ao menos o choro explícito. Convulso.
Andarilho. Que fala sozinho. Dado como alienado.
Doido. Maluco. Aluado. Andarilho que anda sozinho. Também
o denominam excluído. Marginalizado. Homem ensimesmado.
Tornado ao casulo do útero materno. Como também
vão fazendo os velhos. Silenciando a voz aos seus externos.
Abrindo a fala. O riso. A raiva. O encanto aos seus fantasmas.A
seu próprio universo interno.