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Denominador comum
Data 28/fev/2002

Os clássicos andarilhos são todos assim. Vagueiam carregando seu mundo. Um mundo, sobretudo, povoado por muitos ninguéns. Invisível universo aos viventes do mundo empírico.

Vão conversado. O interlocutor não se nos expõe. Não nos cabe vê-lo. Vai amparado pela manta da segura invisibilidade. Apenas à solitária pessoa que perambula cabe o dom de habitá-lo.

São talvez mais sensíveis e mais atenciosos, e mais compreensíveis ao universo dessas almas desprendidas. Penadas.

A máquina do mundo não permite que tais criaturas componham seu corpo. Um corpo cosmético. Ávido de conjugar prazer e elegância. Feito para desfrutar a vida plenamente. Movido pela tácita disputa. Ser melhor. Viver a inebriação da magia desse universo dos homens-deus.

Quase tudo está decifrado. Resta mais nada. Muito pouco. Decifrado o mistério da morte. Decifrado o lugar e a existência real de Deus. E pronto. Tudo estará concluído. Basta evitar a estupidez. Afastar a desfaçatez do bezerro de ouro. Afastar a danação de Sodoma e Gomorra.

Esse o lugar em que o terráqueo fez seu Olimpo. Ponto ínfimo no universo. O próprio terráqueo o soube. O próprio terráqueo o disse. Nessa insignificância, edificou-se um mundo de homens ávidos de vencer. Senhores do lugar, subjugaram tudo o mais a seu domínio. E de impérios sucedendo impérios, vêm sobrevivendo. Vivendo sobre tudo. Sobre todos. Sobre si mesmo. Parece que sua insensatez, muito mais que sua inquietação, instaurou a condição de risco de perecimento iminente.

A preservação de si mesmo, contraditoriamente, deflagrou esse risco. O deus-homem passou a olhar somente ao seu umbigo. E se fez então como seu próprio e maior inimigo. Seu próprio e maior predador. Paulo Honório, personagem de São Bernardo, de Graciliano Ramos, pronunciou isso, enquanto roía sua angústia e culpa: "O que estou é velho. Cinqüenta anos pelo S. Pedro. Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. Cinqüenta anos. Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida interia sem saber para quê!

E muitas são as formas de predação. E muitas são as tentativas de defesa. A alienação é uma muito freqüente. O andarilho ensaca sua casa. Reúne seus dentros todos. Temores. Amores. Ódios. Ruínas. Angústias. Dissabores. Fracassos. Valores. E se põe a vagar para o nada. O acaso é sua meta. A chegada, sua partida. A estrada, seu condomínio. Os fantasmas, seus companheiros e familiares. Leva-os consigo privilegiadamente. Pois, quando o quiser, fala com quem quer. Com eles decerto discute seus pareceres sobre sua circunstância. Decerto com eles avalia sua vida. A vida dos outros. O estado de coisas sociais que seus sentidos captam. Decerto com eles abre seu coração e lhes conta suas incertezas. Seu despojamento. Conta-lhes as dores de amor. As dores de rejeição. Também parece lhes contar suas alegrias. A felicidade se estampa às vezes em sua cara vincada de rugas. Enodoada por sol maligno. Pois ri. Ri, quando em vez, às gargalhadas. Um riso franco. Solto. Contagiante e comovente. Ri de fazer dó.

Uma fala disparada. Entrecortada de risos, por vezes. De expressões múltiplas. Ódio. Angústia. Emoções. O choro parece não expor. Ao menos o choro explícito. Convulso.

Andarilho. Que fala sozinho. Dado como alienado. Doido. Maluco. Aluado. Andarilho que anda sozinho. Também o denominam excluído. Marginalizado. Homem ensimesmado. Tornado ao casulo do útero materno. Como também vão fazendo os velhos. Silenciando a voz aos seus externos. Abrindo a fala. O riso. A raiva. O encanto aos seus fantasmas.A seu próprio universo interno.



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