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Data 21/fev/2002

Feito cão abandonado. Ali. Olhos estatelados entre súplices e desconfiados. Insiste. Todavia sabe-se inaceito. A resistência em admiti-lo. Visto como cão indômito. Não domesticável. Incapaz de se confinar numa residência. Seguir o ritmo da casa. Incapaz.

Então lhe resta a rua como o definitivo. Definitivo apavorante. Bom estar livre. Cão vadio indo onde lhe convém. Sem obrigações demarcadas. Vagar pelas ruas. Sem hora de chegar. Sem hora de voltar.Sem ter para onde ir. Sem ter para onde voltar. A liberdade de livre trânsito. Ver. Olhar as circunstâncias. Apreendê-las. Cada coisa. As pessoas. Os outros animais. Os pássaros nas praças. Nos fios elétricos. Nos prédios. Hoje infinitamente mais os pássaros estão na cidade, mais que os cães. Mais que os gatos. Tanto quanto, ou quase os ratos. As ratazanas dos esgotos. Mas também já vão ultrapassando cães e gatos as crianças. Os adolescentes. Vadios como os cães e gatos. Livres, como os cães e gatos. Como estes, e os pássaros, e os ratos são das ruas. Habitam-nas. Curtem a liberdade e o ter lugar nenhum de vir ou para ir. Entretanto sobrepõem-se também em nocividade. Muito mais incomodativos. Cães, gatos, pássaros e ratos são sozinhos. Cada qual tem que fazer por si. Não fazem por ninguém, para ninguém. Agem por si e pra si mesmos. Sabem-se inferiores. Sobreviventes de guerra perdida. Sabem que os homens são a medida. Sabem, pois, fazerem-se toleráveis. Aqueles pivetes não. São humanos. Contêm os mesmos genes. O mesmo dom da inteligência. Então a disputa é mais complexa. Ao contrário da marginalidade animal, incomodam. E incomodam muito.

Aos animais bastam o mínimo abrigo e a comida. Algo qualquer que lhes mate a fome. Raramente têm de se valer de alguma forma de ataque para obter comida. Vasculham. Chafurdam as sobras. Os desperdícios que os humanos espalham. A fome desses infantes e adolescentes é mais complexa: "A gente não quer só comida/Agente quer comida, diversão e arte./A gente não quer só comida./A gente quer saída para qualquer parte./A gente não quer só comida,/A gente quer bebida, diversão, balé,/A gente não quer só comida,/A gente quer a vida como a vida quer./A gente não quer só comer,/A gente quer prazer pra aliviar a dor,/A gente quer dinheiro e felicidade,/A gente quer inteiro e não pela metade."

É mesmo isso. A guerra está entre nós. Cães e gatos, entanto, acabaram assimilando a compulsão da convivência com os humanos. Coisa de histórica domesticação. Logo, abandonados, perdidos rondam lares oferecidos. Súplices. Anseiam proteção. Que consiste em comida, abrigo e carinho. Daí que aquela liberdade instintiva valha enquanto dure. Arrefecida, esgotada, tornar ao lar doce lar. Coisa em que também se identificam com os humanos.

Então, assim lhe parecia aquele menino à porta recostado. Olhos estatelados entre súplices e desconfiados. Há dias insistindo assim. Teimoso como cão não adestrado, violara insistentemente as regras da casa. A casa fora tolerantemente relevando suas violações. Exigia-lhe, contudo recomposição. Procedera assim até o tempo que considerara limite. Depois veio a deposição. Não sumária. Talvez por isso, traumática. Ele resistira. Queria ficar. A irreversibilidade, porém, se impusera.

O tempo andou. Súbito, ele batendo à porta. Pedindo retorno. Não se estabelecera. Vagou. Vagou. Experimentou uma outra casa. Não conseguiu. A "sua" casa não o largava. Não resistiu, veio pedir. Aceite! Sou outro. A falta me mudou.

A relutância mudara de posição. Agora, resistia-se à readmissão. Não era o perdão que se encrespava. Era a desconfiança de que tudo poderia se redesencadear. Resistia-se. Ele permanecia ali. Na soleira. Olhos suplicantes. Queria tornar. Precisava tornar. Aprendera mesmo como era. Só a falta esclarecera o que era e não soubera ter. Deixasse-o entrar. Ficar! O que foi deposto acabara-se. Era outro.

Ante a resistência, ficava ali. Feito cão. Feito gato. Perdidos. Deserdados. Queria comida. Queria abrigo. Queria carinho. Queria estima. Tudo que só agora sabia.



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