Feito cão abandonado. Ali. Olhos estatelados
entre súplices e desconfiados. Insiste. Todavia sabe-se
inaceito. A resistência em admiti-lo. Visto como cão
indômito. Não domesticável. Incapaz de
se confinar numa residência. Seguir o ritmo da casa.
Incapaz.
Então lhe resta a rua como o definitivo.
Definitivo apavorante. Bom estar livre. Cão vadio indo
onde lhe convém. Sem obrigações demarcadas.
Vagar pelas ruas. Sem hora de chegar. Sem hora de voltar.Sem
ter para onde ir. Sem ter para onde voltar. A liberdade de
livre trânsito. Ver. Olhar as circunstâncias.
Apreendê-las. Cada coisa. As pessoas. Os outros animais.
Os pássaros nas praças. Nos fios elétricos.
Nos prédios. Hoje infinitamente mais os pássaros
estão na cidade, mais que os cães. Mais que
os gatos. Tanto quanto, ou quase os ratos. As ratazanas dos
esgotos. Mas também já vão ultrapassando
cães e gatos as crianças. Os adolescentes. Vadios
como os cães e gatos. Livres, como os cães e
gatos. Como estes, e os pássaros, e os ratos são
das ruas. Habitam-nas. Curtem a liberdade e o ter lugar nenhum
de vir ou para ir. Entretanto sobrepõem-se também
em nocividade. Muito mais incomodativos. Cães, gatos,
pássaros e ratos são sozinhos. Cada qual tem
que fazer por si. Não fazem por ninguém, para
ninguém. Agem por si e pra si mesmos. Sabem-se inferiores.
Sobreviventes de guerra perdida. Sabem que os homens são
a medida. Sabem, pois, fazerem-se toleráveis. Aqueles
pivetes não. São humanos. Contêm os mesmos
genes. O mesmo dom da inteligência. Então a disputa
é mais complexa. Ao contrário da marginalidade
animal, incomodam. E incomodam muito.
Aos animais bastam o mínimo abrigo
e a comida. Algo qualquer que lhes mate a fome. Raramente
têm de se valer de alguma forma de ataque para obter
comida. Vasculham. Chafurdam as sobras. Os desperdícios
que os humanos espalham. A fome desses infantes e adolescentes
é mais complexa: "A gente não quer só
comida/Agente quer comida, diversão e arte./A gente
não quer só comida./A gente quer saída
para qualquer parte./A gente não quer só comida,/A
gente quer bebida, diversão, balé,/A gente não
quer só comida,/A gente quer a vida como a vida quer./A
gente não quer só comer,/A gente quer prazer
pra aliviar a dor,/A gente quer dinheiro e felicidade,/A gente
quer inteiro e não pela metade."
É mesmo isso. A guerra está
entre nós. Cães e gatos, entanto, acabaram assimilando
a compulsão da convivência com os humanos. Coisa
de histórica domesticação. Logo, abandonados,
perdidos rondam lares oferecidos. Súplices. Anseiam
proteção. Que consiste em comida, abrigo e carinho.
Daí que aquela liberdade instintiva valha enquanto
dure. Arrefecida, esgotada, tornar ao lar doce lar. Coisa
em que também se identificam com os humanos.
Então, assim lhe parecia aquele menino
à porta recostado. Olhos estatelados entre súplices
e desconfiados. Há dias insistindo assim. Teimoso como
cão não adestrado, violara insistentemente as
regras da casa. A casa fora tolerantemente relevando suas
violações. Exigia-lhe, contudo recomposição.
Procedera assim até o tempo que considerara limite.
Depois veio a deposição. Não sumária.
Talvez por isso, traumática. Ele resistira. Queria
ficar. A irreversibilidade, porém, se impusera.
O tempo andou. Súbito, ele batendo
à porta. Pedindo retorno. Não se estabelecera.
Vagou. Vagou. Experimentou uma outra casa. Não conseguiu.
A "sua" casa não o largava. Não resistiu,
veio pedir. Aceite! Sou outro. A falta me mudou.
A relutância mudara de posição.
Agora, resistia-se à readmissão. Não
era o perdão que se encrespava. Era a desconfiança
de que tudo poderia se redesencadear. Resistia-se. Ele permanecia
ali. Na soleira. Olhos suplicantes. Queria tornar. Precisava
tornar. Aprendera mesmo como era. Só a falta esclarecera
o que era e não soubera ter. Deixasse-o entrar. Ficar!
O que foi deposto acabara-se. Era outro.
Ante a resistência, ficava ali. Feito
cão. Feito gato. Perdidos. Deserdados. Queria comida.
Queria abrigo. Queria carinho. Queria estima. Tudo que só
agora sabia.