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Infortúnio
Data 14/fev/2002

Mesmo o entretenimento provoca conflitos. Talvez o homem seria outro, caso não fosse dotado de conflitos. Há homens nenhuns sem conflito. Quase nada sem ele permanece homem. Não tê-lo, a sensação é de vazio. De que algo falta. Tendo-o, a situação é de desequilíbrio. Urge reequilibrar. A modorra excessiva pede socorro. Os afazeres excessivos estressam. É o homem com seu vezo e inverso. Nervo de sua existência. Conflito há, onde homens se reúnem. No entretenimento,quando a energia despendida é puro prazer. Todavia, mesmo aí, mesmo no brinquedo, o grão do conflito paira. É que os homens se medem. A disputa é uma de suas mais inatas sinas. A conquista. O sobressair-se. Ser é vital, Não ser é mórbido. É depressivo. O homem precisa sentir-se sendo em quaisquer circunstâncias.

Perder, mesmo nos jogos de brinquedo, é frustrante. Tem sabor amargo de inferioridade. Quase sempre fere os brios. Aguça a auto-estima. A autocrítica. O sujeito se chama às falas. O perigo é que o outro logo é visto como inimigo. Difícil distinguir o que é adversário , o que é inimigo. Difícil conviver com o diferente. Aprendizado que o homem parece eternamente carregar. Pois, se indivíduo é único, o outro, seja quem for, é diferente.

Um fato. Cidadezinha. Longínquo lugar. Difícil acesso. Pobreza explícita. Posto que houvesse miséria. Os ricos eram remediados. O pobre tinha com suficiência condições básicas de vida. A roça dava o trabalho. E a comida. As criações complementavam. Dois enormes rios, o peixe em abundância. E diversão. Pescas. Passeios. Praias.

Instalar-se ali com proveito era estabelecer-se. Havia que permanecer. O precário e o rústico compunham tudo. Mas desconforto mesmo, não havia.

Quando a energia elétrica se fez, foi quase um sentimento do absoluto. Conquanto tudo fosse estrada de chão batido. Viajar com chuva, um suplício. Entretanto, a energia instaurou o que faltava para um conforto paradisíaco. Ar puro. O mínimo barulho era percebido longe, tal a normalidade do silêncio. Não aconteciam roubos. Ninguém assassinava ninguém. Dormiam todos com janela aberta nas estações de calor. Não havia perigo a temer. Afora os grandes temporais. Raios enormes se pegando no espaço. Muitas vezes ventos furiosos. Chuva pesada. Diziam que ocasionados pelos dois enormes rios.

Barragens para construção de hidroelétricas aportaram ali. O lugar foi-se tornando mais urbanizado. O sossego passou a ter escoriações. Mais recursos. Mais cobiça.

Havia o time de futebol do lugar. Os barrageiros chegantes passavam a querer integrá-lo. Criaram-se rivalidades. Os do lugar apenas engoliam os casos de jogadores incontestavelmente bons. Os professores já eram ali benquistos. O povo tinha-lhes grande apreço. Por seu turno, os professores se preservavam.

Um barrageiro jogador de futebol que namorava uma professora foi preterido no time da cidade. Era do setor de engenheiros. Ele inconformara-se. Não menos a professora.

Correu a cidade o boato de que o veto se dera por opinião do professor considerado o grande astro do time. O barrageiro já lhe tinha antipatia. A namorada, amiga, passou a dispensar-lhe desdém. Nem um e nem outro, porém, lhe solicitaram esclarecimentos.

Algumas semanas após, o barrageiro morreu em desastre automobilístico trágico. A professora namorada, em desvario, desgrenhando-se, irrompeu escola adentro. Ante os alunos, interceptou o professor com dedo em riste acusando-o de assassino. Assassino!

Depois, abraçou-o fortemente e passou furiosamente a beijá-lo. Beijou-lhe a boca. O pescoço. O tórax. O abdomem. E prostrada, de joelhos, abraçou-o pela cintura. Cabeça recostada em sua ilharga, continuou dando vazão a seu convulsivo choro. Enquanto ele, pacientemente, lhe acariciava os cabelos revoltos. Negros. Crespos. Longos.



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