Mesmo o entretenimento provoca conflitos.
Talvez o homem seria outro, caso não fosse dotado de
conflitos. Há homens nenhuns sem conflito. Quase nada
sem ele permanece homem. Não tê-lo, a sensação
é de vazio. De que algo falta. Tendo-o, a situação
é de desequilíbrio. Urge reequilibrar. A modorra
excessiva pede socorro. Os afazeres excessivos estressam.
É o homem com seu vezo e inverso. Nervo de sua existência.
Conflito há, onde homens se reúnem. No entretenimento,quando
a energia despendida é puro prazer. Todavia, mesmo
aí, mesmo no brinquedo, o grão do conflito paira.
É que os homens se medem. A disputa é uma de
suas mais inatas sinas. A conquista. O sobressair-se. Ser
é vital, Não ser é mórbido. É
depressivo. O homem precisa sentir-se sendo em quaisquer circunstâncias.
Perder, mesmo nos jogos de brinquedo, é
frustrante. Tem sabor amargo de inferioridade. Quase sempre
fere os brios. Aguça a auto-estima. A autocrítica.
O sujeito se chama às falas. O perigo é que
o outro logo é visto como inimigo. Difícil distinguir
o que é adversário , o que é inimigo.
Difícil conviver com o diferente. Aprendizado que o
homem parece eternamente carregar. Pois, se indivíduo
é único, o outro, seja quem for, é diferente.
Um fato. Cidadezinha. Longínquo lugar.
Difícil acesso. Pobreza explícita. Posto que
houvesse miséria. Os ricos eram remediados. O pobre
tinha com suficiência condições básicas
de vida. A roça dava o trabalho. E a comida. As criações
complementavam. Dois enormes rios, o peixe em abundância.
E diversão. Pescas. Passeios. Praias.
Instalar-se ali com proveito era estabelecer-se.
Havia que permanecer. O precário e o rústico
compunham tudo. Mas desconforto mesmo, não havia.
Quando a energia elétrica se fez, foi
quase um sentimento do absoluto. Conquanto tudo fosse estrada
de chão batido. Viajar com chuva, um suplício.
Entretanto, a energia instaurou o que faltava para um conforto
paradisíaco. Ar puro. O mínimo barulho era percebido
longe, tal a normalidade do silêncio. Não aconteciam
roubos. Ninguém assassinava ninguém. Dormiam
todos com janela aberta nas estações de calor.
Não havia perigo a temer. Afora os grandes temporais.
Raios enormes se pegando no espaço. Muitas vezes ventos
furiosos. Chuva pesada. Diziam que ocasionados pelos dois
enormes rios.
Barragens para construção de
hidroelétricas aportaram ali. O lugar foi-se tornando
mais urbanizado. O sossego passou a ter escoriações.
Mais recursos. Mais cobiça.
Havia o time de futebol do lugar. Os barrageiros
chegantes passavam a querer integrá-lo. Criaram-se
rivalidades. Os do lugar apenas engoliam os casos de jogadores
incontestavelmente bons. Os professores já eram ali
benquistos. O povo tinha-lhes grande apreço. Por seu
turno, os professores se preservavam.
Um barrageiro jogador de futebol que namorava
uma professora foi preterido no time da cidade. Era do setor
de engenheiros. Ele inconformara-se. Não menos a professora.
Correu a cidade o boato de que o veto se dera
por opinião do professor considerado o grande astro
do time. O barrageiro já lhe tinha antipatia. A namorada,
amiga, passou a dispensar-lhe desdém. Nem um e nem
outro, porém, lhe solicitaram esclarecimentos.
Algumas semanas após, o barrageiro
morreu em desastre automobilístico trágico.
A professora namorada, em desvario, desgrenhando-se, irrompeu
escola adentro. Ante os alunos, interceptou o professor com
dedo em riste acusando-o de assassino. Assassino!
Depois, abraçou-o fortemente e passou
furiosamente a beijá-lo. Beijou-lhe a boca. O pescoço.
O tórax. O abdomem. E prostrada, de joelhos, abraçou-o
pela cintura. Cabeça recostada em sua ilharga, continuou
dando vazão a seu convulsivo choro. Enquanto ele, pacientemente,
lhe acariciava os cabelos revoltos. Negros. Crespos. Longos.