Foi-se fazendo formoso a cada instante o fio
sem por que. O sol cumpria seu destino comum. Horizonte brônzeo-carmim.
Enfeitando a larga e longa linha infinda. Que se ia encurvando
ao limite do olhar.
Fazia-se muito acima da linha do horizonte
aquilo. Indo em sentido inverso. E numa verticalidade tênue.
Delgada. E muito pouco longa. Também versátil.
Dinâmico. Um instrumento imperceptível. Traçava
volutas como se códigos. Uma escrita lembrando grego
antigo. Árabe. Fora da compreensão dos que o
contemplávamos.
Passados os instantes dos murmúrios
de surpresa. Ninguém ousava falar. Olhares fixos. Seguindo
o dedo. A caneta. O pincel, enfim, sem forma voluteando arabescos
gregos. Marcianos (disse alguém muito depois).
Conquanto estonteante, era magnífico.
Um evocou cena cinematográfica de "Moisés".
Moisés abobalhado como agora estávamos. Línguas
de fogo incrustando os mandamentos na tábua pétrea.
Não tínhamos a voz tonitruante dizendo. Um outro
lembrou canhão de laser inscrevendo em painel em plena
Avenida Paulista. Disse-se ainda de fenômeno sideral
que escapava a ignóbeis conhecimentos de Astronomia.
Física. Química. Éramos semelhantes aos
navegadores de Vasco da Gama ante o canudo de água
chupado pelos céus. Como Camões nos conta. Comparação
mais acanhada lembrou eletrodos percorrendo a tela de monitor.
Marcando o estado físico ou mental de um paciente.
Todavia, antes que se buscassem tais conceituações,
o misto de medo e de encanto nos pôs mudos. Atraídos
por aquilo. Será que tantas pessoas também viam?
Não parecia haver dúvida. Bem acima do sol poente
estava. Pouco mais além do ponto cerúleo do
meio-dia. Somente não estariam vendo os distraídos
todos pelos apelos dos afazeres. Os que olham o chão
por onde pisam. E se esquecem que no céu há
um universo de nuvens. Astros. Além dos pássaros.
Um universo que por si se move. Que em seus fundos e sem-fins
habitam estranhezas.
Quando o fato era, o céu estava azul.
Um azul daqueles de causar impacto. Um azul de céu
azul O azul da Terra vista de cima por Gagarin. Então
desenhos alaranjado-brônzeos tendendo a lilás
irromperam nele. As andorinhas, puras silhuetas, mais a negro,
fazendo circular pedacinhos de nuvens naquela imensidão
de azul. Pralapracá. Um céu de azul descortinado.
Nele, ante nossos olhos, o fenômeno instigante e inebriante.
Havia que pôr uma explicação
sobre tal mistério. Seria insuportável tê-lo
por mais tempo sendo essa incógnita indiferente ao
nosso pasmo e deslumbramento. Mas os outros homens, como nós,
estavam também em nosso mesmo estado, não estavam?
Estavam? Não tínhamos sido ainda tomados desse
repentino incômodo. Para nosso sossego e conforto de
sujeitos normais, deveriam estar.
Entanto, nada indiciava isso. Onde estavam
todos, que não percebiam tal grandiosidade? E nós,
afinal, onde estávamos? Súbito, então,
nos entreolhamos apreensivos. Como se tacitamente indagávamo-nos
uns aos outros.
Nos demos conta de que estávamos num
campo. Uma roça de milho. Extenso milharal. Colhíamos
milho. Nós, devidamente paramentados. Não. Sofisticadamente
paramentados, se comparados aos agricultores comuns. Vestíamos
luvas de couro. Avental de couro. Botas de couro. Roupas confortáveis.
Logo, a possibilidade de estarmos em um campo de concentração
de serviço forçado não procedia, como
aventara alguém. Quis outro que talvez fosse Havana.
Dedicávamos nossas horas de trabalho ao Estado. Absurdo!
Nossa consciência recusava as duas hipóteses.
Falávamos português. Não tínhamos
formação camponesa. Muito menos vocação.
Incontestável, porém, que nos
encontrávamos literalmente numa roça de milho.
Estávamos mais para alguma forma de investigação
agrícola. Os males de terrível praga que devastava
a agricultura. Ninguém dentre nós, na verdade,
tinha pendor para isso. Eu, da roça, um conjunto de
outros fatores me interessava. Menos este.
A complexidade de todas essas incertezas aumentara
ainda mais, quando paralisados pelo impasse na resolução
dessas últimas, tornamos ao azul céu para recaptarmos
o fenômeno e não o encontramos.
Era possível? Abruptamente se desfizera,
como surgira. Ficamos perdidos. E sós entre nos mesmos.
Então decidimos partir. Embora não soubéssemos,
de longe, sequer, para onde. E cada um saiu em busca de seu
lugar nenhum.