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Indulto
Data 07/fev/2002

Foi-se fazendo formoso a cada instante o fio sem por que. O sol cumpria seu destino comum. Horizonte brônzeo-carmim. Enfeitando a larga e longa linha infinda. Que se ia encurvando ao limite do olhar.

Fazia-se muito acima da linha do horizonte aquilo. Indo em sentido inverso. E numa verticalidade tênue. Delgada. E muito pouco longa. Também versátil. Dinâmico. Um instrumento imperceptível. Traçava volutas como se códigos. Uma escrita lembrando grego antigo. Árabe. Fora da compreensão dos que o contemplávamos.

Passados os instantes dos murmúrios de surpresa. Ninguém ousava falar. Olhares fixos. Seguindo o dedo. A caneta. O pincel, enfim, sem forma voluteando arabescos gregos. Marcianos (disse alguém muito depois).

Conquanto estonteante, era magnífico. Um evocou cena cinematográfica de "Moisés". Moisés abobalhado como agora estávamos. Línguas de fogo incrustando os mandamentos na tábua pétrea. Não tínhamos a voz tonitruante dizendo. Um outro lembrou canhão de laser inscrevendo em painel em plena Avenida Paulista. Disse-se ainda de fenômeno sideral que escapava a ignóbeis conhecimentos de Astronomia. Física. Química. Éramos semelhantes aos navegadores de Vasco da Gama ante o canudo de água chupado pelos céus. Como Camões nos conta. Comparação mais acanhada lembrou eletrodos percorrendo a tela de monitor. Marcando o estado físico ou mental de um paciente.

Todavia, antes que se buscassem tais conceituações, o misto de medo e de encanto nos pôs mudos. Atraídos por aquilo. Será que tantas pessoas também viam? Não parecia haver dúvida. Bem acima do sol poente estava. Pouco mais além do ponto cerúleo do meio-dia. Somente não estariam vendo os distraídos todos pelos apelos dos afazeres. Os que olham o chão por onde pisam. E se esquecem que no céu há um universo de nuvens. Astros. Além dos pássaros. Um universo que por si se move. Que em seus fundos e sem-fins habitam estranhezas.

Quando o fato era, o céu estava azul. Um azul daqueles de causar impacto. Um azul de céu azul O azul da Terra vista de cima por Gagarin. Então desenhos alaranjado-brônzeos tendendo a lilás irromperam nele. As andorinhas, puras silhuetas, mais a negro, fazendo circular pedacinhos de nuvens naquela imensidão de azul. Pralapracá. Um céu de azul descortinado. Nele, ante nossos olhos, o fenômeno instigante e inebriante.

Havia que pôr uma explicação sobre tal mistério. Seria insuportável tê-lo por mais tempo sendo essa incógnita indiferente ao nosso pasmo e deslumbramento. Mas os outros homens, como nós, estavam também em nosso mesmo estado, não estavam? Estavam? Não tínhamos sido ainda tomados desse repentino incômodo. Para nosso sossego e conforto de sujeitos normais, deveriam estar.

Entanto, nada indiciava isso. Onde estavam todos, que não percebiam tal grandiosidade? E nós, afinal, onde estávamos? Súbito, então, nos entreolhamos apreensivos. Como se tacitamente indagávamo-nos uns aos outros.

Nos demos conta de que estávamos num campo. Uma roça de milho. Extenso milharal. Colhíamos milho. Nós, devidamente paramentados. Não. Sofisticadamente paramentados, se comparados aos agricultores comuns. Vestíamos luvas de couro. Avental de couro. Botas de couro. Roupas confortáveis. Logo, a possibilidade de estarmos em um campo de concentração de serviço forçado não procedia, como aventara alguém. Quis outro que talvez fosse Havana. Dedicávamos nossas horas de trabalho ao Estado. Absurdo! Nossa consciência recusava as duas hipóteses. Falávamos português. Não tínhamos formação camponesa. Muito menos vocação.

Incontestável, porém, que nos encontrávamos literalmente numa roça de milho. Estávamos mais para alguma forma de investigação agrícola. Os males de terrível praga que devastava a agricultura. Ninguém dentre nós, na verdade, tinha pendor para isso. Eu, da roça, um conjunto de outros fatores me interessava. Menos este.

A complexidade de todas essas incertezas aumentara ainda mais, quando paralisados pelo impasse na resolução dessas últimas, tornamos ao azul céu para recaptarmos o fenômeno e não o encontramos.

Era possível? Abruptamente se desfizera, como surgira. Ficamos perdidos. E sós entre nos mesmos. Então decidimos partir. Embora não soubéssemos, de longe, sequer, para onde. E cada um saiu em busca de seu lugar nenhum.



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