Bil. Por que Bil? Nunca se soubera direito.
Tratava-se de Antenor Arquimedes. Negro alto. Forte. E gozador.
Responsável pelo picador. Buraco quadrado acimentado,
como receptáculo da argila em granel. Depositada ali,
era tratada com água e camadas leves de saibro. Depois,
posta num condutor rolante feito de lona. O barro (assim denominava-se
a argila), posto no condutor pá a pá por Bil.
E conduzido para a pipa. Uma máquina destinada a moê-lo.
Assim o dia inteirinho. Que depois o expelia em forma de bastão
retangular. Peça única, sendo esquartejada conforme
medido tamanho. Os pedaços de bastão, envolvidos
em composição de óleo combustível
com parafina. Bastão sendo posto na máquina
denominada prensa.Que fazia ir girando enorme tambor composto
por molde de ferro de telha do tipo francesa. Molde a que
denominavam formas. A máquina girava quinze delas por
minuto. A argila transformada em seu produto quase final:
a telha francesa.
Um operário ia descolando-a da prensa
num anteparo de madeira apropriado para a acondicionar. Acondicionador
a que se denominavam de grade. Posta em grade, a telha era
levada a um amplo cômodo em que a parede feita de tijolo
vazado permitia ao vento soprar amainado. Não incidindo
direto nelas. Que ficavam empilhadas formando longas fileiras.
A que denominavam filão. Ali ficavam confinadas. Curtindo
a brisa trazida pelo sopro do vento de todo dia.
Então, terceira transformação
se operava. A telha úmida de água, acrescida
de óleo parafinado, dias depois estava enxuta. Seca,
se dizia. Pronta para o forno. Fornalha. Feita de tijolo em
forma arredonda. Teto abobadado. Piso com friso para escoamento
de cinzas. Porta de entrada. Porta de saída. No em
torno, simetrizados, quatro receptores apensados para lenha.
Onde enormes fogueiras ardiam sem parar durante dias. Bocas
de forno. Se dizia. Depois, o resfriamento. O forno ficava
digerindo seu inferno. O resultado era a quarta transformação.
A telha que ainda se vê. Abóbora-vermelho. Levada
a argila ao seu ponto máximo de resistência.
Impermeável. Vitrificada quase. Sonora, se percutida.
A telha pronta a dar proteção contra o sol e
a chuva às habitações humanas. E inumanas.
E Bil no picador. Trabalho pesado. Para gente
forte. De pá em pá, pondo a argila a granel
umedecida no correão. Que a conduz para a primeira
transformação. O dia inteiro pá atrás
de pá. O barro do picador vai baixando. O correão
ficando mais alto. E o esforço tendo que ser maior.
Bil ensopava-se em suor. Perdia muitos quilos diariamente.
Uma fome doida. No almoço. Na janta. Comia uma caçarola
repleta de arroz com feijão. Algum ovo. Ou torresmo.
Picadinho de carne vez em quando.
Num sábado. Aos sábados, trabalhava-se
até ao meio dia. Às onze, começava a
limpeza geral. A Bil cabia também a maromba. Desempregnar
as facas cortadeiras e compressoras da argila. Do corpo da
maromba retirava-se uma parte parafusada. Para fazer a limpeza
das facas interiores.
Bil já as havia limpado. Agora escorava
ali o pé esquerdo na tarefa de limpar as facas da boca.
Limpas as expostas, queria limpar as outras mais interiorizadas.
Precisaria fazê-las vir à boca. Mandou que o
menino fosse até a chave de ignição.
Maromba em funcionamento, o menino tornou-se aos seus afazeres
apressado. Era sábado. As facas do corpo da maromba
deceparam o pé esquerdo de Bil esquecido lá.
Aleijado, Bil ficou aposentado por invalidez.
E foi sempre muito determinado, com seu jeito zombeteiro que
nem por isso perdera, em afastar do menino o sentimento de
culpa. E mais veemente, passou a ser fã daquele menino.
Menino bom de bola! Menino bom de escola! Brincava muito,
dizendo da raridade da presença simultânea dos
dois qualificativos.
A escola levou o ex-menino mundo afora. A
passeio, ali, depois, quis saber de Bil. Desconversaram. Ele
insistiu. Tanto que o levaram para o infortúnio de
Bil O diabetes, muito tempo ignorado, resolveu comer-lhe o
resto do corpo. Cego por completo. As duas pernas extraídas.
Você viu, disse ele com o mesmo ar zombeteiro, a maromba
quis só um pedaço do pé. A diabete quer
tudo. Não vai deixar nada por vermes, a gulosa. E como
sempre fez, deu aquela cuspidinha de lado. E ficou com sua
risada troteante de gozador inveterado. Gozava sua própria
desgraça.