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Bil não-Kid
Data 31/jan/2002

Bil. Por que Bil? Nunca se soubera direito. Tratava-se de Antenor Arquimedes. Negro alto. Forte. E gozador. Responsável pelo picador. Buraco quadrado acimentado, como receptáculo da argila em granel. Depositada ali, era tratada com água e camadas leves de saibro. Depois, posta num condutor rolante feito de lona. O barro (assim denominava-se a argila), posto no condutor pá a pá por Bil. E conduzido para a pipa. Uma máquina destinada a moê-lo. Assim o dia inteirinho. Que depois o expelia em forma de bastão retangular. Peça única, sendo esquartejada conforme medido tamanho. Os pedaços de bastão, envolvidos em composição de óleo combustível com parafina. Bastão sendo posto na máquina denominada prensa.Que fazia ir girando enorme tambor composto por molde de ferro de telha do tipo francesa. Molde a que denominavam formas. A máquina girava quinze delas por minuto. A argila transformada em seu produto quase final: a telha francesa.

Um operário ia descolando-a da prensa num anteparo de madeira apropriado para a acondicionar. Acondicionador a que se denominavam de grade. Posta em grade, a telha era levada a um amplo cômodo em que a parede feita de tijolo vazado permitia ao vento soprar amainado. Não incidindo direto nelas. Que ficavam empilhadas formando longas fileiras. A que denominavam filão. Ali ficavam confinadas. Curtindo a brisa trazida pelo sopro do vento de todo dia.

Então, terceira transformação se operava. A telha úmida de água, acrescida de óleo parafinado, dias depois estava enxuta. Seca, se dizia. Pronta para o forno. Fornalha. Feita de tijolo em forma arredonda. Teto abobadado. Piso com friso para escoamento de cinzas. Porta de entrada. Porta de saída. No em torno, simetrizados, quatro receptores apensados para lenha. Onde enormes fogueiras ardiam sem parar durante dias. Bocas de forno. Se dizia. Depois, o resfriamento. O forno ficava digerindo seu inferno. O resultado era a quarta transformação. A telha que ainda se vê. Abóbora-vermelho. Levada a argila ao seu ponto máximo de resistência. Impermeável. Vitrificada quase. Sonora, se percutida. A telha pronta a dar proteção contra o sol e a chuva às habitações humanas. E inumanas.

E Bil no picador. Trabalho pesado. Para gente forte. De pá em pá, pondo a argila a granel umedecida no correão. Que a conduz para a primeira transformação. O dia inteiro pá atrás de pá. O barro do picador vai baixando. O correão ficando mais alto. E o esforço tendo que ser maior. Bil ensopava-se em suor. Perdia muitos quilos diariamente. Uma fome doida. No almoço. Na janta. Comia uma caçarola repleta de arroz com feijão. Algum ovo. Ou torresmo. Picadinho de carne vez em quando.

Num sábado. Aos sábados, trabalhava-se até ao meio dia. Às onze, começava a limpeza geral. A Bil cabia também a maromba. Desempregnar as facas cortadeiras e compressoras da argila. Do corpo da maromba retirava-se uma parte parafusada. Para fazer a limpeza das facas interiores.

Bil já as havia limpado. Agora escorava ali o pé esquerdo na tarefa de limpar as facas da boca. Limpas as expostas, queria limpar as outras mais interiorizadas. Precisaria fazê-las vir à boca. Mandou que o menino fosse até a chave de ignição. Maromba em funcionamento, o menino tornou-se aos seus afazeres apressado. Era sábado. As facas do corpo da maromba deceparam o pé esquerdo de Bil esquecido lá.

Aleijado, Bil ficou aposentado por invalidez. E foi sempre muito determinado, com seu jeito zombeteiro que nem por isso perdera, em afastar do menino o sentimento de culpa. E mais veemente, passou a ser fã daquele menino. Menino bom de bola! Menino bom de escola! Brincava muito, dizendo da raridade da presença simultânea dos dois qualificativos.

A escola levou o ex-menino mundo afora. A passeio, ali, depois, quis saber de Bil. Desconversaram. Ele insistiu. Tanto que o levaram para o infortúnio de Bil O diabetes, muito tempo ignorado, resolveu comer-lhe o resto do corpo. Cego por completo. As duas pernas extraídas. Você viu, disse ele com o mesmo ar zombeteiro, a maromba quis só um pedaço do pé. A diabete quer tudo. Não vai deixar nada por vermes, a gulosa. E como sempre fez, deu aquela cuspidinha de lado. E ficou com sua risada troteante de gozador inveterado. Gozava sua própria desgraça.



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