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A condição inumana
Data 24/jan/2002

Toda palavra de ordem conforta. Dá brilho à esperança. Fortalece a coragem. Encarece a luta. Entrelaça os homens. Alenta as vontades. Renova promessas. Toda palavra de ordem serve-se à mobilização. Mental e intencional que seja. Move ações. Move reações. Assim: O povo unido jamais será vencido. Você me prende vivo, eu escapo morto. Sonho que se sonha só e sonho só, mas sonho que se sonha junto é realidade. Quem sabe faz a hora não espera acontecer. Sou a flor que o vento jogou no chão, mas ficou um galho pra outra flor brotar. A minha flor o vento pode levar, mas o meu perfume fica boiando no ar. Avante, avante, irmãos, avante, a luta é pra homem forte, não podemos ficar distante. E tantas.

Toda fala empenhada acende, reaquece, reaviva quereres. A fala eufórica aflora estoques. Desperta-os. Acorda-os. Como não se esperava. E a fala ali aclara. Instaura. Traz à tona a incrustada, adormecida indignação. Põe na pele revoltas. Incômodo indescritível. Corre forte o sangue. A alma lateja. No peito. Nos ouvidos. Nas têmporas. E verte choro. Em lágrimas. A seco. Fala pulsante pondo pele em arrepio. Pelos hirtos. Que subordina a ratio idéia. Infla a auto-estima. A defesa da vida. A solidariedade como medida. Não se dando a líquido instinto. Alçando-se à sublimação.

Todo discurso é uma palavra de ordem. A retórica que nada diz. E que perora volumosamente o seu esvaziamento. O clássico argumento que insufla no outro a atenção. E o toma pelas rédeas. E lhe despista as réplicas. E finda em crédito. O discurso superposto: do cientista, do médico. Que convence sem nenhum esforço. O discurso poético, cuja ambigüidade põe o outro arredio. O discurso midiático cuja verdade contamina com aceitação irretocável.

Então: todo discurso é uma fala empenhada. Fala carregada de propósitos. Estabelecendo sentidos. Que arregimentam. Que atormentam. Que dispersam. Que amedrontam. Que revoltam. As palavras. Ai, palavras, ai palavras,/que estranha potência, a vossa!/ Toda sentido da vida/principia à vossa porta;/o mel do amor cristaliza/seu perfume em vossa rosa;/sois o sonho e sois a audácia,/calúnia, fúria, derrota.

A pilastra. Os pilotis. A raiz. A razão. A palavrocracia como essência da vida em sociedade. Talvez, seja, sim, a palavra o fundamento da democracia. Nada incapaz ante a palavra. Então a paz. A ordem. Os valores humanos. A via das demandas. Dos desentendimentos. Das restaurações. Como das invenções. E os mais complexos pensares. O discurso como a alma e a aura do homem. Uma ferramenta vital. Por isso, digna de exímia manutenção. Mantê-lo. Aprimorá-lo. Como o modo maior de se fazer crescer. Vicejar. E rebrotar a vida. Inventamos a escola como lugar especial para esse exercício espetacular.

Eis, no entanto, que para a interceptação da palavra a perfídia inventou a arma. Não a arma para promover e aperfeiçoar ávida. A arma para nos miserabilizar. Que nos declarou inimigos e predadores maiores de nós mesmos. Que torna a palavra parca, escassa, ínfima, vil, exterminadora de semelhantes. De seres demais. Acovardada e fragílima, torna-se brutalmente palavra-morte. Arma é morte.

A dor atroz de não poder coibi-la. A dor súplice de não compreender por que a permite a vontade divina.



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