Toda palavra de ordem conforta. Dá
brilho à esperança. Fortalece a coragem. Encarece
a luta. Entrelaça os homens. Alenta as vontades. Renova
promessas. Toda palavra de ordem serve-se à mobilização.
Mental e intencional que seja. Move ações. Move
reações. Assim: O povo unido jamais será
vencido. Você me prende vivo, eu escapo morto. Sonho
que se sonha só e sonho só, mas sonho que se
sonha junto é realidade. Quem sabe faz a hora não
espera acontecer. Sou a flor que o vento jogou no chão,
mas ficou um galho pra outra flor brotar. A minha flor o vento
pode levar, mas o meu perfume fica boiando no ar. Avante,
avante, irmãos, avante, a luta é pra homem forte,
não podemos ficar distante. E tantas.
Toda fala empenhada acende, reaquece, reaviva
quereres. A fala eufórica aflora estoques. Desperta-os.
Acorda-os. Como não se esperava. E a fala ali aclara.
Instaura. Traz à tona a incrustada, adormecida indignação.
Põe na pele revoltas. Incômodo indescritível.
Corre forte o sangue. A alma lateja. No peito. Nos ouvidos.
Nas têmporas. E verte choro. Em lágrimas. A seco.
Fala pulsante pondo pele em arrepio. Pelos hirtos. Que subordina
a ratio idéia. Infla a auto-estima. A defesa da vida.
A solidariedade como medida. Não se dando a líquido
instinto. Alçando-se à sublimação.
Todo discurso é uma palavra de ordem.
A retórica que nada diz. E que perora volumosamente
o seu esvaziamento. O clássico argumento que insufla
no outro a atenção. E o toma pelas rédeas.
E lhe despista as réplicas. E finda em crédito.
O discurso superposto: do cientista, do médico. Que
convence sem nenhum esforço. O discurso poético,
cuja ambigüidade põe o outro arredio. O discurso
midiático cuja verdade contamina com aceitação
irretocável.
Então: todo discurso é uma fala
empenhada. Fala carregada de propósitos. Estabelecendo
sentidos. Que arregimentam. Que atormentam. Que dispersam.
Que amedrontam. Que revoltam. As palavras. Ai, palavras, ai
palavras,/que estranha potência, a vossa!/ Toda sentido
da vida/principia à vossa porta;/o mel do amor cristaliza/seu
perfume em vossa rosa;/sois o sonho e sois a audácia,/calúnia,
fúria, derrota.
A pilastra. Os pilotis. A raiz. A razão.
A palavrocracia como essência da vida em sociedade.
Talvez, seja, sim, a palavra o fundamento da democracia. Nada
incapaz ante a palavra. Então a paz. A ordem. Os valores
humanos. A via das demandas. Dos desentendimentos. Das restaurações.
Como das invenções. E os mais complexos pensares.
O discurso como a alma e a aura do homem. Uma ferramenta vital.
Por isso, digna de exímia manutenção.
Mantê-lo. Aprimorá-lo. Como o modo maior de se
fazer crescer. Vicejar. E rebrotar a vida. Inventamos a escola
como lugar especial para esse exercício espetacular.
Eis, no entanto, que para a interceptação
da palavra a perfídia inventou a arma. Não a
arma para promover e aperfeiçoar ávida. A arma
para nos miserabilizar. Que nos declarou inimigos e predadores
maiores de nós mesmos. Que torna a palavra parca, escassa,
ínfima, vil, exterminadora de semelhantes. De seres
demais. Acovardada e fragílima, torna-se brutalmente
palavra-morte. Arma é morte.
A dor atroz de não poder coibi-la.
A dor súplice de não compreender por que a permite
a vontade divina.