As vendas. Venda do seu Inácio. O armazém
dos Nani. O empório do seu José. A venda do
João Vermelho. A venda de Bastião Galdino. O
armazém Imperial.
Era um tempo de vendas. Empórios. Armazéns.
Na linguagem popular, tudo era venda. Mas o povo freqüentava
a venda mesmo. Venda sempre se declinava com complemento.
Venda de alguém. Venda, - não. O povo ia à
venda de seu homem qualquer. Mulher não era vendeira
nominada proprietária. Mesmo quando delas alguma lá
atuava. Dava as ordens. Ainda assim, o seu nome não
compunha a expressão denominante. Era a dona Dirce
do seu Pedro Neco da venda. Ou, a dona Angelina da venda de
seu Marcolino.
Os armazéns mais que os empórios.
Muito mais que as vendas. Armazéns, empórios
e vendas eram, certamente, os antepassados dos mercados. Avós
prósperos com futuros descendentes promissores. Os
mercados. Os supermercados. As mercearias.
Armazéns eram expressão e síntese
de uma sociedade orgulhosamente agrícola. Sintonizavam
a produção e a tecnologia contemporânea.
Amplos. Expunham e comerciavam de um tudo. Em pequena e arrojada
escala. No atacado e no varejo. Secos e molhados. E comerciavam
insumos e implementos. Os armazéns prezados tinham
as suas seções. A das roupas de passeio e de
trabalho. Os armarinhos. A seção das ferragens.
A seção dos cereais. A seção das
carnes imprensadas. Discreto e sóbrio serviço
de bar em balcão. Ali, decerto, negócios altos,
médios se firmavam. As pessoas figuravam elegância.
Discrição. Sobriedade. Percorriam as seções.
A examinar as qualidades dos produtos. Na verdade, nos armazéns
conviviam os proprietários. Senhores de negócios.
Sitiantes. Fazendeiros. Atacadistas. Se gente pequena lá
ia, buscava encomenda. Tarefa traçada pelo patrão.
Passar no Armazém Pereira e apanhar tal. Às
vezes o portador levava autorização escrita.
Autorizo fulano (caracteres gerais do próprio). A gente
do povo passava à larga. Curiosa. Devagar, muitos.
Olhando. Vendo como era lá dentro. Vendo quem ia dentro.
Entrar não convinha. O atrevido, por ventura, era abordado
de pronto por um caixeiro. Pois não, em que posso servi-lo?
Mas a gente granfa, eles, bracinhos cruzados para trás,
curvando-se para o cumprimento. Muito bom-dia! Muito boa-tarde!
Não exatamente assim nos empórios.
Menos. Muito menos nas vendas. Empório tinha ainda
certo ranço armazém. Sim, outro, o movimento.
Contudo, havia um certo meio-a-meio. O emporieiro, decerto,
aspirava a armazeneiro. Cônscio, entretanto, da sua
sustentação. Como o vendeiro, precisava do pouco
que sequer entrava no bolso do pequeno. Sempre, porém,
botando banca de superior a esse.
Eminentemente popular era a venda. Lugar sem
igual aos anônimos comuns. A venda: um não armazém.
Um terço de tamanho. Precária iluminação.
Secos e molhados, insumos e implementos, ferragens, calçados
baratos (botinas, sandálias, alpargatas), bijuterias,
guloseimas, biscoitos, pães; panelas e congêneres
de ferro, de alumínio, de ágata; pratos e congêneres
de alumínio, de ágata, de louça barata.;
aviamentos em geral para roupas. Tudo amontoado. Empilhado.
Espremendo-se. Tomando conta do cômodo. Formando labirínticos
corredores por onde perambulavam ou se acomodavam as pessoas.
Sentadas em caixotes de cebola, em sacas de cereais. Produtos
expostos nas prateleiras afixadas nas paredes. Dependurados
a partir dos caibros e vigotas do teto. Lingüiças.
Mortadelas. Carne-de-sol. Brinquedos. Venda prezada tinha
o seu sortimento de bebida. Cachaça. Ferroquina. Ferneti.
Campary. Conhaques. Cerveja. Sempre cheias de gente. Gente
comprando. Gente bebendo. Aposentados matando o tempo.
Ali se abastecia o povo. Comprava-se por mês.
A compra do mês. Tudo marcado pelo vendeiro. Alguns
valiam-se da caderneta. Um modo de tentar impedir o lucro
excessivo do vendeiro em cima do seu miserável e invisível
dinheiro. Vendeiros quase sempre acusados de marcar em dobro,
em triplo o preço de uma mercadoria.
Os armazéns cerravam suas portas no
horário comercial. As vendas, não. Varavam a
noite servindo a quem trabalhava até tardezinha. E
aos ócios e vícios. Assim se dava no tempo da
venda.