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O arquiteto e o poeta
Data 10/jan/2002

A régua. O compasso. Aprumando-o para arquiteto próximo. A arquitetura, depois, por certo, serviu-lhe régua e compasso. A jugo deles não se submetera por completo. A régua, decerto, tracejava as dimensões possíveis. As quais o móvel compasso desenhava a poder de idéias. Muitas idéias povoam um arquiteto. E sonhos. Latejam-lhe as idéias. Que projetam invenções. Que inventivam mundos. Situações-objeto. O arquiteto é um constante acometido de ficções que, todavia, logo se transmutam em matéria real. Dão-lhe espaço. Forma. Carnadura. Cor.

Difícil. Concertar alhos com bugalhos. Combinar tijolo com tijolo em desenho lógico. Ajustar ferro com concreto. Já não cabe a quem sonha. Tarefa que pede empreitada de sentido concreto. Nada de miragens. Gema de ovo nadando em clara. Guarnecidas pelo invólucro-casca. Objeto físico sopesado. Definido em seu equilíbrio. Dar sopro de vida à idéia (alma) concebida.

Cabe a engenheiro essa modelagem. É quando então engenho e arte se agregam. O arquiteto imagina a paisagem. O engenheiro constrói-lhe a passagem. Não creio mesmo que se atraiam desse modo exatamente. Contudo, presumo que se completam. E por força se atraem. Tampouco creio na pura especificidade. Há arquitetagem no engenho. Como há algo de engenhagem na arquitetura.

Vista de olhos precários se arrisca a ver similitude. Atento ao não primado da exclusividade, poderia intentar-se uma comparação. Se diria mesmo até óbvia. A arquitetura está para a poesia como a engenharia, para a língua. Sabendo-se, sem dúvida, que a arte não é sem a língua. E que para a existência da língua a arte é imprescindível.

Ora, o arquiteto foi pensando espaços outros. Sua arquitetura quis sonhar mais largo. Em vez de prédios, moradas, ambientes, ousou outras investidas. Sua arquitetura estendeu-se. Desaguou na formação humana. Instalou-se na educação. Arrebatou-lhe a cultura. Seduziu-o o universo moderno da comunicação. Arquitetura empreendedora. O arquiteto-empresário fazendo das suas no universo educativo-cultural. A princípio se supunha coisa de maluco. Entanto, seus olhos-arquitetos sonhavam abertos. Via além do muro estabelecido. Sua lúcida maluquez foi abrindo espaços. Inovações. Invenções. Instaurando qualidade.

E o seu caminho cruzou com um poeta. Conquista mútua. Sem muita namoração. E seus sonhos logo se conheceram. Se comungaram. Se estranharam. Se reverenciaram. Se ensinaram. Ao fim sentiam-se crescidos. Lúcidos amigos cheios de amor. Cada qual com seus limites. Suas vaidades. Suas fantasias. Irmanados no desvanecimento pela arquitetura. No desvanecimento pela poesia.

O poeta levara o arquiteto a encantar-se pela poesia de um poeta-maior. E prepara surpresa ao arquiteto. Presenteá-lo pelo aniversário com os poemas "O engenheiro" e "Fábula de um arquiteto". Mandara emoldurá-los em quadro. Ficou eufórico à espera do aniversário.

Entretanto, a senhora Morte, mais inventiva que arquiteto; mais fantasiosa que poeta; mais imprevista e supreendente que os dois, interveio. Arrebatou o arquiteto. Ficou o poeta com "O engenheiro" e a "Fábula de um arquiteto" na mão.

Então sua fantasia transcreveu na lápide do arquiteto a "Fábula de um arquiteto", de João Cabral de Melo Neto:

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

2. Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outras vez feto.



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