A régua. O compasso. Aprumando-o para
arquiteto próximo. A arquitetura, depois, por certo,
serviu-lhe régua e compasso. A jugo deles não
se submetera por completo. A régua, decerto, tracejava
as dimensões possíveis. As quais o móvel
compasso desenhava a poder de idéias. Muitas idéias
povoam um arquiteto. E sonhos. Latejam-lhe as idéias.
Que projetam invenções. Que inventivam mundos.
Situações-objeto. O arquiteto é um constante
acometido de ficções que, todavia, logo se transmutam
em matéria real. Dão-lhe espaço. Forma.
Carnadura. Cor.
Difícil. Concertar alhos com bugalhos.
Combinar tijolo com tijolo em desenho lógico. Ajustar
ferro com concreto. Já não cabe a quem sonha.
Tarefa que pede empreitada de sentido concreto. Nada de miragens.
Gema de ovo nadando em clara. Guarnecidas pelo invólucro-casca.
Objeto físico sopesado. Definido em seu equilíbrio.
Dar sopro de vida à idéia (alma) concebida.
Cabe a engenheiro essa modelagem. É
quando então engenho e arte se agregam. O arquiteto
imagina a paisagem. O engenheiro constrói-lhe a passagem.
Não creio mesmo que se atraiam desse modo exatamente.
Contudo, presumo que se completam. E por força se atraem.
Tampouco creio na pura especificidade. Há arquitetagem
no engenho. Como há algo de engenhagem na arquitetura.
Vista de olhos precários se arrisca
a ver similitude. Atento ao não primado da exclusividade,
poderia intentar-se uma comparação. Se diria
mesmo até óbvia. A arquitetura está para
a poesia como a engenharia, para a língua. Sabendo-se,
sem dúvida, que a arte não é sem a língua.
E que para a existência da língua a arte é
imprescindível.
Ora, o arquiteto foi pensando espaços
outros. Sua arquitetura quis sonhar mais largo. Em vez de
prédios, moradas, ambientes, ousou outras investidas.
Sua arquitetura estendeu-se. Desaguou na formação
humana. Instalou-se na educação. Arrebatou-lhe
a cultura. Seduziu-o o universo moderno da comunicação.
Arquitetura empreendedora. O arquiteto-empresário fazendo
das suas no universo educativo-cultural. A princípio
se supunha coisa de maluco. Entanto, seus olhos-arquitetos
sonhavam abertos. Via além do muro estabelecido. Sua
lúcida maluquez foi abrindo espaços. Inovações.
Invenções. Instaurando qualidade.
E o seu caminho cruzou com um poeta. Conquista
mútua. Sem muita namoração. E seus sonhos
logo se conheceram. Se comungaram. Se estranharam. Se reverenciaram.
Se ensinaram. Ao fim sentiam-se crescidos. Lúcidos
amigos cheios de amor. Cada qual com seus limites. Suas vaidades.
Suas fantasias. Irmanados no desvanecimento pela arquitetura.
No desvanecimento pela poesia.
O poeta levara o arquiteto a encantar-se pela
poesia de um poeta-maior. E prepara surpresa ao arquiteto.
Presenteá-lo pelo aniversário com os poemas
"O engenheiro" e "Fábula de um arquiteto".
Mandara emoldurá-los em quadro. Ficou eufórico
à espera do aniversário.
Entretanto, a senhora Morte, mais inventiva
que arquiteto; mais fantasiosa que poeta; mais imprevista
e supreendente que os dois, interveio. Arrebatou o arquiteto.
Ficou o poeta com "O engenheiro" e a "Fábula
de um arquiteto" na mão.
Então sua fantasia transcreveu na lápide
do arquiteto a "Fábula de um arquiteto",
de João Cabral de Melo Neto:
A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
2. Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outras vez feto.