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Até ela!
Data 04/jan/2002

Quando reconheceu aquele espécime perfeito. Decerto o cérebro tenha-lhe provocado o acesso de riso. Riso controlado. Não convulso. Todavia solto. Os familiares sabiam. Haviam mesmo presenciado o fato mais de uma vez. Quando da estada do bem-te-vi. Grande euforia. E receios. E precauções. Corre desligar o ventilador. O bem-te-vi debatendo em vôo desesperado por saída. Depois a calmaria. Eles, cumplicientemente, quase estáticos. A mulher, contudo, deslizou-se em demanda da máquina. Três vezes clicou-o. Sem o flash. Desintencionalmente compusera a prova. A quem duvidasse.

Nos subseqüentes não houve registros. Nem testemunhos familiares ocasionais. Exceto na vez da borboleta azul. A mansidão da borboleta. O ritmo de brisa. Seus pousos. Suas poses. Suas ousadias de vôo pesado. Poses múltiplas. A mulher acorreu à máquina. A borboleta azul muito bonita. Adaptou-se rápido. Logo, procede como se da casa. A gente torna à vida. Cumpre as lidas. Faz. Desfaz. Refaz. E a borboleta azul lá. Dependurada. Como se empalhada. Enfeite vivo. Compondo com quadros e livros. Cai no hábito. Olhar percuciente. Reflexivo. Quando se esparrama em descanso, dá com a borboleta azul. Entanto, essa é perenidade aparente. Pôde o olhar, quase incrédulo, deparar-se com sua ausência. Até então, ausência infinda. Borboletas outras apareceram. Fugazes. Belas também. A amarela. A alaranjada com seus desenhos em preto e branco. Pintaram por ali. Próximo à grande janela. Mas a azul não mais.

O convívio com os bichos. Energético ao convívio com os homens. Há narrativas outras todas queridas nessa linhagem. Sem recontagem. Recorde-se, entanto, a estada do beija-flor. Eles vêm sempre por ali. Ao contrário da borboleta azul para nunca mais. Parece impossível cansar-se de ver um beija-flor. É como ver as pessoas amadas. Quer-se mais ver quanto mais se vê. Imagine-se dois beija-flores pousados em galho de árvore. Emparelhados. Como se a olharem o que fazemos cá dentro do escritório. Pois isso tem-se dado. Uma gratuidade desmilinguante. O beija-flor que veio não é dos cutelinhos. Era dos beija-flores grandes. Parecia de longe. Ave ainda bem selvagem. Todavia fez o que fez. Foi quem mais deu a entender ser pura intimidade.

Mas o espécime presentemente surgido foi uma libélula. Que bela libélula! Modelar. Encantadora perfeição. Aquele corpo-estame. Erecto. Puxado a verniz. E as suas duas asas duplas. Talhadas a mão de mestre, pareciam. Paralelas entre si. E perpendiculares. Chamativas pela beleza de sua translucidez.

O riso repentino e solto, pois. Presume-se, porque o cérebro ativou simultaneamente os casos demais relembrados e a freqüência dos mesmos.

Ela irrompeu janela adentro. Tão vertiginosamente quanto o beija-flor. Também ruidosa. Também, num átimo, desligou-se o ventilador. Ela, em vôo helicóptero, circunvagou o espaço. Toda garbosa em sua elegância de inseto estranho.

Daí, ambiente sob domínio, pousou na lateral direita da moldura de um quadro de Mondrian. E ali se esqueceu. Como a borboleta azul o fez um dia. Lembrou um 14 bis. Santos Dummont e Mondrian se contemplando. E sendo contemplados. Contemplação feita de encanto e de saudade. Sua permanência criaria hábito. Como a borboleta azul. Uma hora, o olhar esparramando-se em descanso, não mais daria com ela.



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