Quando reconheceu aquele espécime perfeito.
Decerto o cérebro tenha-lhe provocado o acesso de riso.
Riso controlado. Não convulso. Todavia solto. Os familiares
sabiam. Haviam mesmo presenciado o fato mais de uma vez. Quando
da estada do bem-te-vi. Grande euforia. E receios. E precauções.
Corre desligar o ventilador. O bem-te-vi debatendo em vôo
desesperado por saída. Depois a calmaria. Eles, cumplicientemente,
quase estáticos. A mulher, contudo, deslizou-se em
demanda da máquina. Três vezes clicou-o. Sem
o flash. Desintencionalmente compusera a prova. A quem duvidasse.
Nos subseqüentes não houve registros.
Nem testemunhos familiares ocasionais. Exceto na vez da borboleta
azul. A mansidão da borboleta. O ritmo de brisa. Seus
pousos. Suas poses. Suas ousadias de vôo pesado. Poses
múltiplas. A mulher acorreu à máquina.
A borboleta azul muito bonita. Adaptou-se rápido. Logo,
procede como se da casa. A gente torna à vida. Cumpre
as lidas. Faz. Desfaz. Refaz. E a borboleta azul lá.
Dependurada. Como se empalhada. Enfeite vivo. Compondo com
quadros e livros. Cai no hábito. Olhar percuciente.
Reflexivo. Quando se esparrama em descanso, dá com
a borboleta azul. Entanto, essa é perenidade aparente.
Pôde o olhar, quase incrédulo, deparar-se com
sua ausência. Até então, ausência
infinda. Borboletas outras apareceram. Fugazes. Belas também.
A amarela. A alaranjada com seus desenhos em preto e branco.
Pintaram por ali. Próximo à grande janela. Mas
a azul não mais.
O convívio com os bichos. Energético
ao convívio com os homens. Há narrativas outras
todas queridas nessa linhagem. Sem recontagem. Recorde-se,
entanto, a estada do beija-flor. Eles vêm sempre por
ali. Ao contrário da borboleta azul para nunca mais.
Parece impossível cansar-se de ver um beija-flor. É
como ver as pessoas amadas. Quer-se mais ver quanto mais se
vê. Imagine-se dois beija-flores pousados em galho de
árvore. Emparelhados. Como se a olharem o que fazemos
cá dentro do escritório. Pois isso tem-se dado.
Uma gratuidade desmilinguante. O beija-flor que veio não
é dos cutelinhos. Era dos beija-flores grandes. Parecia
de longe. Ave ainda bem selvagem. Todavia fez o que fez. Foi
quem mais deu a entender ser pura intimidade.
Mas o espécime presentemente surgido
foi uma libélula. Que bela libélula! Modelar.
Encantadora perfeição. Aquele corpo-estame.
Erecto. Puxado a verniz. E as suas duas asas duplas. Talhadas
a mão de mestre, pareciam. Paralelas entre si. E perpendiculares.
Chamativas pela beleza de sua translucidez.
O riso repentino e solto, pois. Presume-se,
porque o cérebro ativou simultaneamente os casos demais
relembrados e a freqüência dos mesmos.
Ela irrompeu janela adentro. Tão vertiginosamente
quanto o beija-flor. Também ruidosa. Também,
num átimo, desligou-se o ventilador. Ela, em vôo
helicóptero, circunvagou o espaço. Toda garbosa
em sua elegância de inseto estranho.
Daí, ambiente sob domínio, pousou
na lateral direita da moldura de um quadro de Mondrian. E
ali se esqueceu. Como a borboleta azul o fez um dia. Lembrou
um 14 bis. Santos Dummont e Mondrian se contemplando. E sendo
contemplados. Contemplação feita de encanto
e de saudade. Sua permanência criaria hábito.
Como a borboleta azul. Uma hora, o olhar esparramando-se em
descanso, não mais daria com ela.