Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Recalcitrância
Data 27/dez/2001

Afinal, em que resultaremos no final? Não conseguia desvencilhar-se dessa obsessão. Os anos se sucedem. Os decênios se sucedem. Sucedem-se os séculos. Evoluímos. Nos sofisticamos. A ciência. A tecnologia. A aldeia global se consuma.

Somos concomitantemente todos comuns. Já na década de 60 o milagre da televisão nos reuniu em povo único para presenciarmos o outro milagre. Os astronautas, feitos canguru, passearem pela superfície da Lua. O milagre da imagem viva. Como o rádio a seu modo já fazia. O milagre da satelitelização deu-nos a comunicação simultânea. Estejamos em qualquer lugar do planeta. O milagre da vida in vítreo. O milagre dos transplantes. O milagre da clonagem. Tudo parecendo demandar ao fim maior. Que pelo menos ninguém se nega em apregoar a plenos pulmões. Um dia pastaremos, como os animais. Todos apenas animais, pasto e água. E cordeiro e lobo não mais o serão. Ao lobo sustentarão os frutos dos pomares. Ao cordeiro, a relva farta. E onde não há fome alguma, fúria nenhuma haverá.

Mas qual! Então o homem caminha para seu destino máximo: a imagem e semelhança do Criador. Inventor tenaz como ele. Descobridor incansável como ele. O milagre da vida escavado a cada dia. A perpetuação da vida pelo milagre do suor do vosso rosto. Ide construir o vosso lugar. E o fazei de modo a dar à vossa descendência a ambição do prosseguimento. Prosseguir erigindo um lugar em que a vida é o supremo bem. Porque viver é simbiose da sabedoria. A síntese a governa. A dialética empreende seu evoluir. A vida é, porque feita de coragem e medo. Porque não pode prescindir do negro e do branco. Porque o tosco instaura a necessidade do esmero. Porque a riqueza e a abastança pressupõem a vergonha da pobreza, da miséria, da penúria.

A vida é o exercício do ser deus sem precisão de morrer. Contudo, sabemos que a vida absoluta se nos escapa das mãos. É quando acordamos para a precariedade. Os homens-deuses não sabem repartir. Não concebem o dividir. Isto é meu e teu, não. Domínio comum faz-lhes mal. Tampouco lhes faz bem o isto é para mim e para você. Homens-deuses projetam Deus à sua imagem e semelhança. Na Antigüidade fizeram assim. Os homens-deuses gregos e latinos projetaram seus deuses. A Modernidade, cristã, tachou-os de pagãos. Porque supostamente inferior à sua concepção. Entanto, seu Deus é não menos quanto. O Deus católico. Os deuses protestantes. O Deus judaico. O Deus maometano. O Deus budista. O Deus da Bíblia. O Deus do Alcorão. E, sabe-se que é. Em nome deles pregam o perdão. Pregam o amor. Pregam a paz. Pregam a aliança. Pregam a vida.

Estes deuses-homens que somos todos nós. Exercitamos a morte. Exercitamos a desavença. Exercitamos a guerra. Exercitamos o ódio. Exercitamos a condenação. Quanto mais lúcidos, mais estúpidos. Quanto mais engenhos, milagreiros, mais destrutivos. Mais perversos, quanto mais precisos. Dir-se-ia, tomando a Bíblia, que ainda não depuramos a sina, a maldição de Cain.

Felizmente, preservamos a teimosia e a autocrítica. E a esperança, bem maior da alma, de ver triunfar um dia a Paz entre os homens. E entre os homens e seus compartidores demais deste mundo.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético