Afinal, em que resultaremos no final? Não
conseguia desvencilhar-se dessa obsessão. Os anos se
sucedem. Os decênios se sucedem. Sucedem-se os séculos.
Evoluímos. Nos sofisticamos. A ciência. A tecnologia.
A aldeia global se consuma.
Somos concomitantemente todos comuns. Já
na década de 60 o milagre da televisão nos reuniu
em povo único para presenciarmos o outro milagre. Os
astronautas, feitos canguru, passearem pela superfície
da Lua. O milagre da imagem viva. Como o rádio a seu
modo já fazia. O milagre da satelitelização
deu-nos a comunicação simultânea. Estejamos
em qualquer lugar do planeta. O milagre da vida in vítreo.
O milagre dos transplantes. O milagre da clonagem. Tudo parecendo
demandar ao fim maior. Que pelo menos ninguém se nega
em apregoar a plenos pulmões. Um dia pastaremos, como
os animais. Todos apenas animais, pasto e água. E cordeiro
e lobo não mais o serão. Ao lobo sustentarão
os frutos dos pomares. Ao cordeiro, a relva farta. E onde
não há fome alguma, fúria nenhuma haverá.
Mas qual! Então o homem caminha para
seu destino máximo: a imagem e semelhança do
Criador. Inventor tenaz como ele. Descobridor incansável
como ele. O milagre da vida escavado a cada dia. A perpetuação
da vida pelo milagre do suor do vosso rosto. Ide construir
o vosso lugar. E o fazei de modo a dar à vossa descendência
a ambição do prosseguimento. Prosseguir erigindo
um lugar em que a vida é o supremo bem. Porque viver
é simbiose da sabedoria. A síntese a governa.
A dialética empreende seu evoluir. A vida é,
porque feita de coragem e medo. Porque não pode prescindir
do negro e do branco. Porque o tosco instaura a necessidade
do esmero. Porque a riqueza e a abastança pressupõem
a vergonha da pobreza, da miséria, da penúria.
A vida é o exercício do ser
deus sem precisão de morrer. Contudo, sabemos que a
vida absoluta se nos escapa das mãos. É quando
acordamos para a precariedade. Os homens-deuses não
sabem repartir. Não concebem o dividir. Isto é
meu e teu, não. Domínio comum faz-lhes mal.
Tampouco lhes faz bem o isto é para mim e para você.
Homens-deuses projetam Deus à sua imagem e semelhança.
Na Antigüidade fizeram assim. Os homens-deuses gregos
e latinos projetaram seus deuses. A Modernidade, cristã,
tachou-os de pagãos. Porque supostamente inferior à
sua concepção. Entanto, seu Deus é não
menos quanto. O Deus católico. Os deuses protestantes.
O Deus judaico. O Deus maometano. O Deus budista. O Deus da
Bíblia. O Deus do Alcorão. E, sabe-se que é.
Em nome deles pregam o perdão. Pregam o amor. Pregam
a paz. Pregam a aliança. Pregam a vida.
Estes deuses-homens que somos todos nós.
Exercitamos a morte. Exercitamos a desavença. Exercitamos
a guerra. Exercitamos o ódio. Exercitamos a condenação.
Quanto mais lúcidos, mais estúpidos. Quanto
mais engenhos, milagreiros, mais destrutivos. Mais perversos,
quanto mais precisos. Dir-se-ia, tomando a Bíblia,
que ainda não depuramos a sina, a maldição
de Cain.
Felizmente, preservamos a teimosia e a autocrítica.
E a esperança, bem maior da alma, de ver triunfar um
dia a Paz entre os homens. E entre os homens e seus compartidores
demais deste mundo.