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Meu, de Anália e de Zózimo
Data 20/dez/2001

Não era dado a tal. Mas guardou tudo do jeito que recebeu.

As surpresas daquela avó. Inigual avó. Dava uma banana a tudo. Conveniências e inconveniências. Os quinto dos inferno! Gente à-toa! Cambada! Isso quando a cachaça extravasava.

Orgulho santo. Sanitário. Dizia o doutor Zózimo. Zózimo tinha posições muito semelhantes. Como ela, franco atirador. Não lhe viessem com delongas! Desafasta! Vocês não têm o que fazer?! Medicava com firmeza. Determinação. Mais que tudo, a isso, certamente, se devia a prodigalidade de sua cura. Médico único do lugar. Mas tinha fama. Seus diagnósticos incisivos. Seu tratamento aplicava-se a corpo e alma. Curandeiro psiquiatra. Numa consulta, determinava que, ao retorno, a mulher trouxesse o marido. Ou que o marido viesse com a mulher. Ou ele mesmo intimava alguém ligado a seu paciente. Precisava falar-lhe. A cura passava por aquela conversa.

Coisa de médico de cidadezinha. Diziam ter algo de louco. Vidrado por uma boa cachaça. Costumava dizer que o bom vinho e a boa cachaça deviam ser degustados. Não engolidos. Receitava vinho do Porto a suas pacientes que amamentavam. Gostava de dona Ínis. Tinha-a por despachada. Feito ele. Falas curtas. Quando conversavam, havia tanto silêncio quanto fala. Às vezes, o silêncio falava mais. E eles sentiam-se muito bem assim. Das afinidades, constava a cachaça. Apreciadores comuns.

Ínis era a lavadeira também deles. A mulher de Zózimo era professora da escola. Os netos de Ínis passavam pelas mãos dela. Anália. Enorme. De ascendência austríaca. A roupa da casa de Anália tinha que ser lavada em sua casa. Ínis ia. Anália pagava mais caro. O tempo tornou-as amigas. A lavadeira e a professora discutiam a vida de igual para igual. Nada de quem tem mais formação e cultura dá as receitas. Ambas eram sábias. Vividas. Anália cometia seus textos literários. Poemas. Um conto de vez em quando. Ínis sempre tinha uma opinião. Opinião de público. Gostava por isso e isso. Não gostava por isso e isso. Anália ouvia. Dizia já ter mudado coisas por causa de comentário de Ínis.

Quase sempre no dia em que Ínis ia lavar a roupa, ela e Zózimo bebiam sua cachacinha. Noite entrada. Ínis passara as últimas peças. Zózimo chegava. Novidadeiro: Ínis, tenho uma do alambique tal. De muito longe. Um cliente especial. Anália não bebia. Entanto, fazia gosto em preparar os petiscos. Depois ficava também no papo. Ia só de petisco. A noite, muita vez, ia alta. A lavadeira. A professora. O médico. Clientes. Alunos. O governo. A miséria. A pobreza. A ignorância. Ínis, mais que eles, lia a Bíblia. Não era igrejeira. Mas curtia seus santos e santas. Suas devoções.

Aquele hábito era de domínio da cidade. Foi numa dessas noites. Véspera da de Natal. Anália leu à mesa um poema. Que caiu no agrado deles. Poema escrito por um seu aluno. Os três ficaram encantados. Os ouvidos clínicos de Zózimo apontaram passagens belas. A cultura popular de Ínis gostava do todo. Do conjunto. Quando Ínis se despediu, Anália deu-lhe o poema. Guarda-o bem, Ínis. Quando vier a fama, dê-lhe de presente nosso dessa noite.

E Ínis assim o fez. Confeccionou uma embalagem. Pôs dentro o poema. E o deu de presente de natal ao neto. Com a seguinte nota: Eu, Anália (sua professora, lembra-se?) e o doutor Zózimo, marido dela, numa noite semelhante a esta, mediante esse poema seu previdenciamos este seu presente. Vai a nossa assinatura.



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