Não era dado a tal. Mas guardou tudo
do jeito que recebeu.
As surpresas daquela avó. Inigual avó.
Dava uma banana a tudo. Conveniências e inconveniências.
Os quinto dos inferno! Gente à-toa! Cambada! Isso quando
a cachaça extravasava.
Orgulho santo. Sanitário. Dizia o doutor
Zózimo. Zózimo tinha posições
muito semelhantes. Como ela, franco atirador. Não lhe
viessem com delongas! Desafasta! Vocês não têm
o que fazer?! Medicava com firmeza. Determinação.
Mais que tudo, a isso, certamente, se devia a prodigalidade
de sua cura. Médico único do lugar. Mas tinha
fama. Seus diagnósticos incisivos. Seu tratamento aplicava-se
a corpo e alma. Curandeiro psiquiatra. Numa consulta, determinava
que, ao retorno, a mulher trouxesse o marido. Ou que o marido
viesse com a mulher. Ou ele mesmo intimava alguém ligado
a seu paciente. Precisava falar-lhe. A cura passava por aquela
conversa.
Coisa de médico de cidadezinha. Diziam
ter algo de louco. Vidrado por uma boa cachaça. Costumava
dizer que o bom vinho e a boa cachaça deviam ser degustados.
Não engolidos. Receitava vinho do Porto a suas pacientes
que amamentavam. Gostava de dona Ínis. Tinha-a por
despachada. Feito ele. Falas curtas. Quando conversavam, havia
tanto silêncio quanto fala. Às vezes, o silêncio
falava mais. E eles sentiam-se muito bem assim. Das afinidades,
constava a cachaça. Apreciadores comuns.
Ínis era a lavadeira também
deles. A mulher de Zózimo era professora da escola.
Os netos de Ínis passavam pelas mãos dela. Anália.
Enorme. De ascendência austríaca. A roupa da
casa de Anália tinha que ser lavada em sua casa. Ínis
ia. Anália pagava mais caro. O tempo tornou-as amigas.
A lavadeira e a professora discutiam a vida de igual para
igual. Nada de quem tem mais formação e cultura
dá as receitas. Ambas eram sábias. Vividas.
Anália cometia seus textos literários. Poemas.
Um conto de vez em quando. Ínis sempre tinha uma opinião.
Opinião de público. Gostava por isso e isso.
Não gostava por isso e isso. Anália ouvia. Dizia
já ter mudado coisas por causa de comentário
de Ínis.
Quase sempre no dia em que Ínis ia
lavar a roupa, ela e Zózimo bebiam sua cachacinha.
Noite entrada. Ínis passara as últimas peças.
Zózimo chegava. Novidadeiro: Ínis, tenho uma
do alambique tal. De muito longe. Um cliente especial. Anália
não bebia. Entanto, fazia gosto em preparar os petiscos.
Depois ficava também no papo. Ia só de petisco.
A noite, muita vez, ia alta. A lavadeira. A professora. O
médico. Clientes. Alunos. O governo. A miséria.
A pobreza. A ignorância. Ínis, mais que eles,
lia a Bíblia. Não era igrejeira. Mas curtia
seus santos e santas. Suas devoções.
Aquele hábito era de domínio
da cidade. Foi numa dessas noites. Véspera da de Natal.
Anália leu à mesa um poema. Que caiu no agrado
deles. Poema escrito por um seu aluno. Os três ficaram
encantados. Os ouvidos clínicos de Zózimo apontaram
passagens belas. A cultura popular de Ínis gostava
do todo. Do conjunto. Quando Ínis se despediu, Anália
deu-lhe o poema. Guarda-o bem, Ínis. Quando vier a
fama, dê-lhe de presente nosso dessa noite.
E Ínis assim o fez. Confeccionou uma
embalagem. Pôs dentro o poema. E o deu de presente de
natal ao neto. Com a seguinte nota: Eu, Anália (sua
professora, lembra-se?) e o doutor Zózimo, marido dela,
numa noite semelhante a esta, mediante esse poema seu previdenciamos
este seu presente. Vai a nossa assinatura.