Destas chuvas de primavera. De verão.
Quando o aguaceiro desaba tormentoso.
A paz parece pairar no universo. Súbito,
aquele fundo azul-esbranquiçado de lá longe
mudou. À conta pouca de uma distração.
Aí o sujeito pára. Acocora-se no cabo da enxada.
Bebe da água boa da moringa. Cata no bolso da camisa
o cigarro de palha. Dedos, e lábios, e saliva o recompõem.
Pronto para a pitada prazerosa. Cata no bolso traseiro da
calça a binga. O ritual do acender. Então dá
a funda tragada. Na devolução da fumaça
ao ar é que se põe a olhar o mundo. Mundão
de meu Deus!
Então constata o horizonte tomado pelo
azul-temporal Vem chuva da braba! Olha o eito da roça.
Terá tempo até aquele pé-de-cedro. Guarda
o resto do cigarro. Põe-se em busca da meta. O temporal
vem recobrindo o céu.
Os pingos esparsos do prenúncio caem.
Ele acabara. Recolhe da árvore o bornal. Apressa-se
ao abrigo do rancho mais a distância. Dali assistirá
a efeméride. Os estalos quase cegantes dos raios. Os
esbravejamentos dos trovões. Depois, o som de mar quebrando
na praia da chuva galopante. Forte. Com pouco, a água
barrenta inundando a roça. Muita vez, o dia ainda é
cedo e se faz noite. Faltando muito para a noite mesma. O
trabalho fica naquele dia suspenso. Esperar o chão
refazer sua textura. Só então tornar a entregar-se
à sua limpa.
Perene efêmero de lida na roça.
Antiqüíssima lida. Mas ainda viva. A lavra da
terra. O seu plantio. A sua limpa. E sua dádiva: a
colheita. Em verdade, a condição humana aí
se origina. "Afagar a terra/conhecer os desejos da terra/Cio
da terra, propícia estação/E fecundar
o chão"; "Debulhar o trigo/Recolher cada
bago do trigo/Forjar no trigo o milagre do pão/E se
fartar de pão".
A chuva. O sol. A lua. E seu trabalho. Substantivos
para esse milagre. Milagre da vida. A comida. O alimento repartido.
Todos dele podendo partilhar. Todos podendo construí-lo.
Alimentar-se. Retemperar-se em força. Energia. E delas
tirar a alegria do trabalho. Ninguém sob o compadecimento
de ninguém. A obrigação cumprida fazendo
jus ao direito devido. Um olhar o outro nos olhos. Não
se empresta a Deus. A Deus se junta, quando do outro nada
se furta. Absolutamente nada se furta. Então, não
se dá a pobre. Porque, assim, pobre não haverá.
Nem rico.
A chuva forte encharcando o chão. O
teto de sapé do rancho. Vez em quando um estalo. Estrondo
de trovão. Alguns pingos se insinuando. Ele, posto
em sossego. Olhando as grossas cordas d'água vergastando
tudo. E deixando o pensamento passear. Olhando a chuva. As
árvores molhando-se. A roça empapando-se. O
gado lá no pasto perto da cerca aglomerado. A chuva
lavando-o.
Só sabe que mal deu o estalo. A cerca
parecia em fogo. O gado, um monte enegrecido chamuscando.
Estava meio leso. Parecia em ressaca de porre de véspera.
A chuva havia cessado. Já não ouvia seu açoite.
Os olhos presos no monte negro chamuscando. Onde antes era
gado. Impressão de que adormecera. E ao abrir os olhos,
novamente um fogo. Não mais na horizontalidade do arame.
Um fogo em grande arco abarcando o céu.
Era um enorme e nítido arco-íris.
Bem no eixo central de sua concavidade, a fumaça fétida
subindo. Talvez aquilo fosse o cachecol de Deus. Que resolvera
espiar qual fora o resultado daquela tempestade.
E, receosa, a natureza, em oferenda, incinerara-lhe
aquele gado. Pura manifestação de apreço
e temor. E agrado. Ao Grande Sagrado.