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Perene efêmero
Data 14/dez/2001

Destas chuvas de primavera. De verão. Quando o aguaceiro desaba tormentoso.

A paz parece pairar no universo. Súbito, aquele fundo azul-esbranquiçado de lá longe mudou. À conta pouca de uma distração. Aí o sujeito pára. Acocora-se no cabo da enxada. Bebe da água boa da moringa. Cata no bolso da camisa o cigarro de palha. Dedos, e lábios, e saliva o recompõem. Pronto para a pitada prazerosa. Cata no bolso traseiro da calça a binga. O ritual do acender. Então dá a funda tragada. Na devolução da fumaça ao ar é que se põe a olhar o mundo. Mundão de meu Deus!

Então constata o horizonte tomado pelo azul-temporal Vem chuva da braba! Olha o eito da roça. Terá tempo até aquele pé-de-cedro. Guarda o resto do cigarro. Põe-se em busca da meta. O temporal vem recobrindo o céu.

Os pingos esparsos do prenúncio caem. Ele acabara. Recolhe da árvore o bornal. Apressa-se ao abrigo do rancho mais a distância. Dali assistirá a efeméride. Os estalos quase cegantes dos raios. Os esbravejamentos dos trovões. Depois, o som de mar quebrando na praia da chuva galopante. Forte. Com pouco, a água barrenta inundando a roça. Muita vez, o dia ainda é cedo e se faz noite. Faltando muito para a noite mesma. O trabalho fica naquele dia suspenso. Esperar o chão refazer sua textura. Só então tornar a entregar-se à sua limpa.

Perene efêmero de lida na roça. Antiqüíssima lida. Mas ainda viva. A lavra da terra. O seu plantio. A sua limpa. E sua dádiva: a colheita. Em verdade, a condição humana aí se origina. "Afagar a terra/conhecer os desejos da terra/Cio da terra, propícia estação/E fecundar o chão"; "Debulhar o trigo/Recolher cada bago do trigo/Forjar no trigo o milagre do pão/E se fartar de pão".

A chuva. O sol. A lua. E seu trabalho. Substantivos para esse milagre. Milagre da vida. A comida. O alimento repartido. Todos dele podendo partilhar. Todos podendo construí-lo. Alimentar-se. Retemperar-se em força. Energia. E delas tirar a alegria do trabalho. Ninguém sob o compadecimento de ninguém. A obrigação cumprida fazendo jus ao direito devido. Um olhar o outro nos olhos. Não se empresta a Deus. A Deus se junta, quando do outro nada se furta. Absolutamente nada se furta. Então, não se dá a pobre. Porque, assim, pobre não haverá. Nem rico.

A chuva forte encharcando o chão. O teto de sapé do rancho. Vez em quando um estalo. Estrondo de trovão. Alguns pingos se insinuando. Ele, posto em sossego. Olhando as grossas cordas d'água vergastando tudo. E deixando o pensamento passear. Olhando a chuva. As árvores molhando-se. A roça empapando-se. O gado lá no pasto perto da cerca aglomerado. A chuva lavando-o.

Só sabe que mal deu o estalo. A cerca parecia em fogo. O gado, um monte enegrecido chamuscando. Estava meio leso. Parecia em ressaca de porre de véspera. A chuva havia cessado. Já não ouvia seu açoite. Os olhos presos no monte negro chamuscando. Onde antes era gado. Impressão de que adormecera. E ao abrir os olhos, novamente um fogo. Não mais na horizontalidade do arame. Um fogo em grande arco abarcando o céu.

Era um enorme e nítido arco-íris. Bem no eixo central de sua concavidade, a fumaça fétida subindo. Talvez aquilo fosse o cachecol de Deus. Que resolvera espiar qual fora o resultado daquela tempestade.

E, receosa, a natureza, em oferenda, incinerara-lhe aquele gado. Pura manifestação de apreço e temor. E agrado. Ao Grande Sagrado.



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