Aguardava de olhos fixos no leste. Seria quando
um filete róseo se listrasse. Anúncio de manhã
brotando. Tempo suficiente. Palavra desobrigada. Por-se-ia
então em cumprimento de seu destino. Não maldizia
ninguém. Acreditava sim em que a hora se faz. Mas não
descria de certo ingrediente superior. Se mapa de vida a se
cumprir não houvesse, acaso havia. Um não se
saber o amanhã. Agora, por exemplo. Nunca se imagina.
Intuição é de poucos. Dela quase nada
sabia. Se de muito meditar não fora, fora-o e era de
assuntar. Ficar assuntando. O pensamento vadiando. Bailando
entre presente e passado. Os barulhos em derredor de seu silêncio.
A vida vivida; em flashes. A vida sendo em cogitação.
E a espera. Esperar. Esse um procedimento
assíduo em sua vida. Não sabia reunir duas ou
três situações em que se fizera esperar.
Esperar a namorada naquele banco de jardim. Pacientemente.
Esperar a noiva no altar. Resistentemente. Esperar a mulher
aprontar-se as vezes quantas a sair. Esperar que o chefe notasse
sua exemplaridade. Esperar uma melhor oportunidade para subir
de posto. Esperar ocasião mais propícia para
que a mulher engravidasse. Salário mais condizente.
Esperar que Deus nunca lhe faltasse.
Talvez o metrô fosse quem menos o fizesse
esperar. Daí, decerto, seu carinho por ele. O metrô
lhe era nostálgico. Isso o incomodava. A lógica
recriminava-o. O lugar seria do trem-de-ferro. O veículo
primeiro e por toda sua infância e adolescência.
Café com pão, manteiga não! Virgem Maria
que foi isso, maquinista! Agora, sim! Passa boi, passa boiada.
O jogral em que era integrante entusiasta. A professora o
destacava. Que dizia a viva voz. A plenos pulmões.
Nunca esquecera. No trem ia repetindo o jogral.
Onde andará aquela sua professora.
Essas professoras primárias marcam muito a gente. Decerto
falecida. Parecia de idade. Tomara que não. Impressão
de menino é fantasia. Então. O metrô apenas
aviva o trem permanente e enrustido. Acordava aquela maria-fumaça
apitando na curva. A primeira vez, o metrô despertou-lhe
vagões desatrelados um dia. E que lá vinham
em velocidade livre. O comboio desapartado. Reboliço
na estação. Havia que contê-lo. Vidas
em risco. Afoitos saltavam. Saíam quicando feito bola
mal chutada. Pânico. De tão pequena a cidade
inteira já sabia antes. O comboio vinha ainda destrambelhando
para a estação. Pânico geral. Como contê-lo?
A maria-fumaça. Seu pungente apito.
Em algumas passagens. A travessia da linha. Um desastre. Catástrofe
para uma cidadezinha. Caminhão velho. Pesado de apanhadores
de algodão. Caminhão gemendo na ladeirazinha.
Quase nem subida. Coincidências que o acaso reserva
para a vida. Caminhão de câmbio seco. A marcha
não entra. Afoga. E o trem rompe na estreita curva.
Apitou de susto. Tarde. Foi tudo de embrulho.
Esperar é para quem sabe que faz a
hora. Tinha nas mãos os seus nervos. Potro devidamente
domado. A quem cuida, a vida ensina. E ele se fizera bom aprendiz.
Vigilância. Concentração. Observação.
Senso crítico. Assim, a seco, parece disciplina autoritária.
Mas não. Tudo temperado a abnegação.
E amor. Ah! amor. Que nos desembeciliza.
Agora o horizonte ia tingindo-se de aurora.
É quando, decerto, a pálpebra do Sol se move
no entressono. No dorme-acorda daquele gigante de luz. Era
hora de ir. O sol lá vinha. O tempo de espera se cumprira.
Chegara a hora de agir.
E ao ir acometera-o comovendo a fala de Augusto
Matraga. Então, a ele chegara, também, sua hora
e vez.