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A hora e vez
Data 29/nov/2001

Aguardava de olhos fixos no leste. Seria quando um filete róseo se listrasse. Anúncio de manhã brotando. Tempo suficiente. Palavra desobrigada. Por-se-ia então em cumprimento de seu destino. Não maldizia ninguém. Acreditava sim em que a hora se faz. Mas não descria de certo ingrediente superior. Se mapa de vida a se cumprir não houvesse, acaso havia. Um não se saber o amanhã. Agora, por exemplo. Nunca se imagina. Intuição é de poucos. Dela quase nada sabia. Se de muito meditar não fora, fora-o e era de assuntar. Ficar assuntando. O pensamento vadiando. Bailando entre presente e passado. Os barulhos em derredor de seu silêncio. A vida vivida; em flashes. A vida sendo em cogitação.

E a espera. Esperar. Esse um procedimento assíduo em sua vida. Não sabia reunir duas ou três situações em que se fizera esperar. Esperar a namorada naquele banco de jardim. Pacientemente. Esperar a noiva no altar. Resistentemente. Esperar a mulher aprontar-se as vezes quantas a sair. Esperar que o chefe notasse sua exemplaridade. Esperar uma melhor oportunidade para subir de posto. Esperar ocasião mais propícia para que a mulher engravidasse. Salário mais condizente. Esperar que Deus nunca lhe faltasse.

Talvez o metrô fosse quem menos o fizesse esperar. Daí, decerto, seu carinho por ele. O metrô lhe era nostálgico. Isso o incomodava. A lógica recriminava-o. O lugar seria do trem-de-ferro. O veículo primeiro e por toda sua infância e adolescência. Café com pão, manteiga não! Virgem Maria que foi isso, maquinista! Agora, sim! Passa boi, passa boiada. O jogral em que era integrante entusiasta. A professora o destacava. Que dizia a viva voz. A plenos pulmões. Nunca esquecera. No trem ia repetindo o jogral.

Onde andará aquela sua professora. Essas professoras primárias marcam muito a gente. Decerto falecida. Parecia de idade. Tomara que não. Impressão de menino é fantasia. Então. O metrô apenas aviva o trem permanente e enrustido. Acordava aquela maria-fumaça apitando na curva. A primeira vez, o metrô despertou-lhe vagões desatrelados um dia. E que lá vinham em velocidade livre. O comboio desapartado. Reboliço na estação. Havia que contê-lo. Vidas em risco. Afoitos saltavam. Saíam quicando feito bola mal chutada. Pânico. De tão pequena a cidade inteira já sabia antes. O comboio vinha ainda destrambelhando para a estação. Pânico geral. Como contê-lo?

A maria-fumaça. Seu pungente apito. Em algumas passagens. A travessia da linha. Um desastre. Catástrofe para uma cidadezinha. Caminhão velho. Pesado de apanhadores de algodão. Caminhão gemendo na ladeirazinha. Quase nem subida. Coincidências que o acaso reserva para a vida. Caminhão de câmbio seco. A marcha não entra. Afoga. E o trem rompe na estreita curva. Apitou de susto. Tarde. Foi tudo de embrulho.

Esperar é para quem sabe que faz a hora. Tinha nas mãos os seus nervos. Potro devidamente domado. A quem cuida, a vida ensina. E ele se fizera bom aprendiz. Vigilância. Concentração. Observação. Senso crítico. Assim, a seco, parece disciplina autoritária. Mas não. Tudo temperado a abnegação. E amor. Ah! amor. Que nos desembeciliza.

Agora o horizonte ia tingindo-se de aurora. É quando, decerto, a pálpebra do Sol se move no entressono. No dorme-acorda daquele gigante de luz. Era hora de ir. O sol lá vinha. O tempo de espera se cumprira. Chegara a hora de agir.

E ao ir acometera-o comovendo a fala de Augusto Matraga. Então, a ele chegara, também, sua hora e vez.



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