Ganhar o pão com o suor do seu rosto.
Então fazer-se. Crescer. Formar-se. Conquistar seu
trabalho. Com suas mãos. Com sua inteligência.
Com sua competência. Com seus estudos.
Os estudos. A grande saída aos desafortunados.
Os desprovidos de ascendência fausta. Conquistar um
espaço na escola. Estudar. Estudar. Reprovação
conduzia ao fracasso. À desprofissão. A salário
inferiorizado. A sujeito sem carreira.
Ter um ofício. Ter uma profissão.
Resultantes da dedicação de aprendiz. Ser carpinteiro.
Ser mecânico. Ser bancário. Coisa de poucos.
Muitos poucos bem-sucediam-se. Conquanto fossem proclamados
como a boa saída a despossuídos. Todavia, a
grande maioria ficava operário de médio-baixo
e baixo salários.
Mas a expansão da escola realentou
os sonhos. Bom ter um ofício. Aprender ofício.
Dizia-se aprendiz de. Torneiro mecânico. Marceneiro.
Mecânico de automóvel. De caminhão. De
cartório. De contabilidade. De seleiro. De sapateiro.
De farmacêutico. Fazer carreira em banco. Tudo andando
bem, formava-se ali o profissional prático. O oficial.
Tão úteis. Prestativos. Como qualquer raro diplomado
de anel em dedo.
Sim. Era praxe. Moda. Cada profissão
portava anel afim. Caro artefato. Contudo, cobiçado.
Prestações módicas. Preço crescido.
Todavia, se comprava a distinção ostensiva.
Na formatura, traje de gala e anel. As normalistas com seu
anel. Os contabilistas com seu anel. Os bacharéis de
direito com seu anel (anel de doutor).
Sim. Ser estudado era grãfino. Pois
quem podia estudava. Significa: os abastados. Os chamados
ricos. Esses podiam. Os desabastados. Os chamados pobres,
não. A esses os serviços. Os empregos. A melhora,
perspectiva remota. O ofício, talvez. Sina de meu filho
será melhor. Tá aprendendo ofício de.
Entretanto, vida é desejos. Viver é
sonhar para mais. A inconformidade é o seu motor. Parece
que se dar como pronto é ter se acabado. Pois então.
Os pobres deram de almejar os estudos. Os estudos eram a saída.
Grassou a moda de tudo pelos estudos dos filhos. A pão
e banana. Conquanto eles estudem. Mais que ofício.
O diploma. A profissão. Filho doutor. Festa pai d'égua.
Filha professora. A classe média se espaçando.
A escola, o trampolim.
Atingi-la, porém, eram sacrifícios.
A muitos, vãos. Fracassos. Meta ainda aos mais melhorados.
Deles, ainda assim, vários fracassavam a meio. Entrar,
uma etapa apenas vencida. Que vitória ainda se fazia
longe. Vitória eram beca e anel. Antes, muito antes,
obter aprovação. Ano a ano. Estudar. E estudar.
Sabedoria. Conhecimentos. Informações. Na ponta
da língua. Estavam em livros. E livros. Em materias.
E materiais. Raros. Caros. Pedras outras no meio do caminho.
Nas quais se tropeçavam muitos. Ao anel e beca chegavam
poucos.
Aí se deu que a escola se massificou.
Pronto. Ilusões acabadas. Anel desapareceu. Beca tornou-se
literalmente traje de festa. A classe média tratou
de desmisturar-se. A massa ficou com o farelo. À massa
a escola esfarinhada. Escola sem mais nada. Escola dos sem-nada.
Os abastados e remediados saltaram. Enquanto os destituídos
chegavam.
Desenganados. De novo. E a escola se lhes
tornou insuportável. Não dava profissão.
Não dava empregos. Legião de desempregados diplomados.
Desiludida. E sem saída. A massa então ainda
vai à escola. E nela projeta toda a sua raiva.
E o Estado, seu suserano e doador, ainda por
cima passou a estigmatizá-la de incompetente. Instituiu
a avaliação institucional. Com que demonstra
à massa o quanto ela é incapaz aos estudos.
Á aprendizagem dos conhecimentos sistematizados. Logo,
que se conforme com suas migalhas.