Um tiro torto. Completamente fora da mira.
Bola desgovernada no ar. Foi danar-se em Rurrum. Estatelou-o.
Chapéu de feltro puído ao vento longe. Quinquilharia
em saco encardido esparramada. Enormes cabelos e barba desgrenhados.
Esquálidos. Pareceram maiores. A calva avermelhada.
O rosto, cobre sujo. O campo fez-se risadas uníssonas.
Gargalhadas.
Mas foi tudo em lampejo. Súbito, as
pernas inchadas puseram-se em pé. E foram à
bola. Impressão de que tropeçavam. Tão
trôpegas. A bola repousava numa touceira. Agora, agredido
e agressora. Por instantes miraram-se.
Um desentendido quis pegar a bola. Com veemência
de que não parecia capaz, Rurrum rechaçou-o.
O campo continuava espectador divertido. Rurrum. Bola presa
das mãos. Olhou os espectadores. Riu estragado. O campo
respondeu novamente gozador. Gargalhadas zombeteiras. Entanto,
gritou-lhe alguém que devolvesse a bola! A bola, agora,
suspensa pelas mãos. Indicativo de que a arremessaria
com sua nenhuma força. Ou, remota hipótese,
daria, não um chute. Um piparote. Que a estiraria a
uma distância de um mijo. Decerto acendendo na platéia
a zombaria.
Viu-se o não cogitado. Rurrum largou
a bola. Que, mal quedava, sentiu um pé. Ágil.
Acolheu a bola. Controlou-a alguns minutos. Domínio
de embaixadas como se soerguesse bexigas.
E ante o silêncio incrédulo,
Rurrum fazia embaixadas. Indubitavelmente, toques de craque.
Depois desferiu arrojado tiro. Imprevisto, por sua debilitação
aparente. Catou sua casa. Reensacou-a. Depô-la ao pé
de uma manoneira. Dobrou as barras das calças. Correu
para o jogo. Batia palmas como pedido. Que lhe passassem a
bola.
Enxotaram-no. Ele estava atrapalhando o treino.
Ele não se dava por isso. E sol desaparecido, o treineiro,
prudentemente, encerrou. Sem desagrados. Rurrum reapossou-se
da bola. Deixaram. E brincou com técnica e habilidade.
Rurrum fora craque. Concordância unânime.
Ele demorou-se um pouco mais. Parecia completamente
desligado de tudo. Uma criança com sua bola. Com a
bola que obedecia ao seu senhor. A chistes e ironias, respondia
rurrum!
Então passou a fetiche dali. Ninguém
fizesse com Rurrum a mínima desfeita. Era inteligente.
Acolhido, ficou. Sabia não exceder. Não ser
importuno. Passava indo para lugar nenhum. Andarilho. Levou
bolada. Atração antiga acometeu-o de repente.
Tomou-a. Brincou com ela. Como decerto brincara muito em tempo
perdido. Gostaram. Ganhou respeito. Arranchou. Até
quando? Não se sabia. Como chamá-lo. Não
falava. Rurrum.