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Rurrum
Data 19/nov/2001

Um tiro torto. Completamente fora da mira. Bola desgovernada no ar. Foi danar-se em Rurrum. Estatelou-o. Chapéu de feltro puído ao vento longe. Quinquilharia em saco encardido esparramada. Enormes cabelos e barba desgrenhados. Esquálidos. Pareceram maiores. A calva avermelhada. O rosto, cobre sujo. O campo fez-se risadas uníssonas. Gargalhadas.

Mas foi tudo em lampejo. Súbito, as pernas inchadas puseram-se em pé. E foram à bola. Impressão de que tropeçavam. Tão trôpegas. A bola repousava numa touceira. Agora, agredido e agressora. Por instantes miraram-se.

Um desentendido quis pegar a bola. Com veemência de que não parecia capaz, Rurrum rechaçou-o. O campo continuava espectador divertido. Rurrum. Bola presa das mãos. Olhou os espectadores. Riu estragado. O campo respondeu novamente gozador. Gargalhadas zombeteiras. Entanto, gritou-lhe alguém que devolvesse a bola! A bola, agora, suspensa pelas mãos. Indicativo de que a arremessaria com sua nenhuma força. Ou, remota hipótese, daria, não um chute. Um piparote. Que a estiraria a uma distância de um mijo. Decerto acendendo na platéia a zombaria.

Viu-se o não cogitado. Rurrum largou a bola. Que, mal quedava, sentiu um pé. Ágil. Acolheu a bola. Controlou-a alguns minutos. Domínio de embaixadas como se soerguesse bexigas.

E ante o silêncio incrédulo, Rurrum fazia embaixadas. Indubitavelmente, toques de craque. Depois desferiu arrojado tiro. Imprevisto, por sua debilitação aparente. Catou sua casa. Reensacou-a. Depô-la ao pé de uma manoneira. Dobrou as barras das calças. Correu para o jogo. Batia palmas como pedido. Que lhe passassem a bola.

Enxotaram-no. Ele estava atrapalhando o treino. Ele não se dava por isso. E sol desaparecido, o treineiro, prudentemente, encerrou. Sem desagrados. Rurrum reapossou-se da bola. Deixaram. E brincou com técnica e habilidade. Rurrum fora craque. Concordância unânime.

Ele demorou-se um pouco mais. Parecia completamente desligado de tudo. Uma criança com sua bola. Com a bola que obedecia ao seu senhor. A chistes e ironias, respondia rurrum!

Então passou a fetiche dali. Ninguém fizesse com Rurrum a mínima desfeita. Era inteligente. Acolhido, ficou. Sabia não exceder. Não ser importuno. Passava indo para lugar nenhum. Andarilho. Levou bolada. Atração antiga acometeu-o de repente. Tomou-a. Brincou com ela. Como decerto brincara muito em tempo perdido. Gostaram. Ganhou respeito. Arranchou. Até quando? Não se sabia. Como chamá-lo. Não falava. Rurrum.



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