Os mortos. Muitos são os mortos. Os
anônimos talvez os mais tristes. A vida dos mortos depende
dos vivos. Os vivos, mortos próximos. Cultuam os seus
mortos. São nomes de rua. São nomes de praça.
São nomes de casas. Inscrever a memória do morto.
O morto se ressuscita a cada lembrança sua.
Todo morto tem a sua história de vida.
Os anônimos também. Contudo construíram
uma história modesta. Normal. Vida dada à família.
Do trabalho para casa. Amando mulher e filhos. Respeitando
o vizinho. Os outros. Apoiando amigos. Contribuindo para as
caridades. Engolindo desaforos. Amargando frustrações.
Perdoando agressões. Incentivando os descaídos.
Os anônimos de vida normal. Decerto sem os quais a vida
seria anormal. Mas a eles cabem as páginas do livro
do santo esquecimento. Foram bons enquanto duraram.
Agora, a memória remota. Sabe, se seu
pai fosse vivo, faria tantos anos hoje. Se sua avó.
Se minha mãe. Mas são mortos comuns. Ou melhor,
foram vivos comuns. E aos comuns dos mortais, o santo esquecimento.
Assacá-los da memória, quando em vez. E em finados
dar-nos à sua memória. Ir visitá-los
onde já não são. Pousar-lhes demorado
olhar no retrato. Da parede. Do álbum. Da mesa. Dizer-lhes
uma palavra de consternação reavivada. Devolver-nos
a nós mesmos depois. Dar graças à vida
que permite reverenciá-los. E pedir. Que, sendo chama,
ganhe sempre vitalidade. O que nos estende ao mais longínquo
fim. Que, por mais domínio supomos exercer-lhe, a vida
é o imponderável: súbito!
Sim. Há os mortos de sobrecasaca. É
certo: os de sobrecasaca postiça; os de sobrecasaca
conquista. Contudo, a vala da imortalidade é quase
sempre comum. Ambos a compõem. Dado que pelos vivos,
muitas vezes escusamente.
A excepcionalidade, instante de desentorpecimento
do mando, ganha, quando não, a justa sobrecasaca. Ainda
que quando, ou logo após a morte. A sobrecasaca, então,
corre normatizar essa esdrúxula imortalidade. Sobrepõe-se
ao anonimato. Precisa garantir o domínio.
A postiça passa a vida tendo a imortalidade
em mira. Faz quase nada pela vida. E em tudo, empreende assegurar
a vida em morte. De modo que a cada ato em vida se inaugura,
se reinagura para quando a morte. Então, serão
monumentos. Nome de nobres estabelecimentos. De avenidas de
prestígio. Em solenidades festivas de aniversário.
De nascimento. De morte. Com missas e outras salva-almas.
Os sobrecasacas de conquista. Se vivos, as
repeliriam. Por não admiti-las. Porque contra elas
passaram toda a vida. Entanto, por mais que as tenham denunciado,
com elas recobrem-nos, os que ficam. Que em morto, manda quem
é vida. Os seus, que por sua imortalidade primam, consolam-se
com aceita-las como mais do que merecidas. E à consciência
justificam que, conquanto notórios, tinham suas implicâncias.
Sem dúvida. Exemplo mais vivo de espécie
desta é Cristo. Que mais que estátua. Embora
seja muitas e várias. Mais que nobre casa. Avenida.
Ou enseada. Tornou-se mito. E Deus vivo.