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Os Mortos
Data 01/nov/2001

Os mortos. Muitos são os mortos. Os anônimos talvez os mais tristes. A vida dos mortos depende dos vivos. Os vivos, mortos próximos. Cultuam os seus mortos. São nomes de rua. São nomes de praça. São nomes de casas. Inscrever a memória do morto. O morto se ressuscita a cada lembrança sua.

Todo morto tem a sua história de vida. Os anônimos também. Contudo construíram uma história modesta. Normal. Vida dada à família. Do trabalho para casa. Amando mulher e filhos. Respeitando o vizinho. Os outros. Apoiando amigos. Contribuindo para as caridades. Engolindo desaforos. Amargando frustrações. Perdoando agressões. Incentivando os descaídos. Os anônimos de vida normal. Decerto sem os quais a vida seria anormal. Mas a eles cabem as páginas do livro do santo esquecimento. Foram bons enquanto duraram.

Agora, a memória remota. Sabe, se seu pai fosse vivo, faria tantos anos hoje. Se sua avó. Se minha mãe. Mas são mortos comuns. Ou melhor, foram vivos comuns. E aos comuns dos mortais, o santo esquecimento. Assacá-los da memória, quando em vez. E em finados dar-nos à sua memória. Ir visitá-los onde já não são. Pousar-lhes demorado olhar no retrato. Da parede. Do álbum. Da mesa. Dizer-lhes uma palavra de consternação reavivada. Devolver-nos a nós mesmos depois. Dar graças à vida que permite reverenciá-los. E pedir. Que, sendo chama, ganhe sempre vitalidade. O que nos estende ao mais longínquo fim. Que, por mais domínio supomos exercer-lhe, a vida é o imponderável: súbito!

Sim. Há os mortos de sobrecasaca. É certo: os de sobrecasaca postiça; os de sobrecasaca conquista. Contudo, a vala da imortalidade é quase sempre comum. Ambos a compõem. Dado que pelos vivos, muitas vezes escusamente.

A excepcionalidade, instante de desentorpecimento do mando, ganha, quando não, a justa sobrecasaca. Ainda que quando, ou logo após a morte. A sobrecasaca, então, corre normatizar essa esdrúxula imortalidade. Sobrepõe-se ao anonimato. Precisa garantir o domínio.

A postiça passa a vida tendo a imortalidade em mira. Faz quase nada pela vida. E em tudo, empreende assegurar a vida em morte. De modo que a cada ato em vida se inaugura, se reinagura para quando a morte. Então, serão monumentos. Nome de nobres estabelecimentos. De avenidas de prestígio. Em solenidades festivas de aniversário. De nascimento. De morte. Com missas e outras salva-almas.

Os sobrecasacas de conquista. Se vivos, as repeliriam. Por não admiti-las. Porque contra elas passaram toda a vida. Entanto, por mais que as tenham denunciado, com elas recobrem-nos, os que ficam. Que em morto, manda quem é vida. Os seus, que por sua imortalidade primam, consolam-se com aceita-las como mais do que merecidas. E à consciência justificam que, conquanto notórios, tinham suas implicâncias.

Sem dúvida. Exemplo mais vivo de espécie desta é Cristo. Que mais que estátua. Embora seja muitas e várias. Mais que nobre casa. Avenida. Ou enseada. Tornou-se mito. E Deus vivo.



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