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Revista
Data 25/out/2001

O olhar vazio.Frio dilacerante. Tempos novos. Completamente fora do controle. Primavera friorenta. Parecia que as estações tivessem tramado. Façamos isso. Primavera empresta ao outono. Outono reina fora de seu sítio. Que protestem. Adianta nada. Na atmosfera mandamos nós. Quando o verão chegar, o inverno lhe faça alguns plantões. O inverno corte a carne de quem espera calor.

Coisa mesmo maluca. Novembro friorento. Dormir em novembro agasalhado. Não tinha cabimento. O avô. Matuto de nascimento, vida e morte. Dos de olhar o céu. Farejar as circunstâncias. E prognosticar o tempo de pé no chão.

Aquela hora aguda da tarde. Hora sexta. Os alimentados ressonam. Cães estiram-se para a sua longa sesta. Homens, após a refeição. Arrefecer-se. Repor energia. Rotina de toda vida. Das criaturas da Terra.

Hora maravilhosa. Hora misteriosa. A pino o sol. Sua máxima aventura. Silêncio bom. Breve. Porém intenso. Concentrar-se. Dar vazão aos sentidos. Portadores de vidas avessas. Vem em volutas túmidas de inesperados. Todavia, a realidade mesma permanece. Tem pleno domínio dela. A percepção do fantástico. Quanto do real. O real telúrico. Social. Humano. Animal.

O olhar construtor. Toma um ponto. A baba leve do mascar bovino. O boi saudável. Em sua postura. Deitado. Mascando seu tempo. Alheio olhar. Indiferente. Decerto concentrado em seu mundo. Cumprindo seu destino. Presa completamente entregue à vontade humana.

Então. A baba leve do boi. Seu ruminar impassível. A mecânica animal de seu focinho produzindo a baba. Seu olhar fixo nas ventas e na boca. O curral coberto. Sua arquitetônica carpintaria. Teto e compartimentos de madeira. Belezura da carpintaria. Conquanto muito triste sua finalidade. O decurso do mormaço tremeluzindo lá fora. Dentro, a desprimavera Anos outros, calorão. A brisa boa refrescava vez em quando. Menos confortável. Contudo, compreensível. Que a natureza cumpria seus desígnios. Outonico não é direito em tempo de primavera.

O silêncio da hora sexta. O meio dia incandescente. Um silêncio povoado de pios. Os dos pássaros. O melancólico da codorna. O artístico da corruíra. O lírico do sabiá. Um canto de galo. Outro. Outros. O silêncio povoado de roufenhos mugidos de gado. Uma galinha choca conduzindo-se com sua corte de pintinhos. O pasmo de algum peru.

E na baba do boi escorrem lembranças. Desejos. Saudades. Medos. O beijo abrupto da prima. As carícias trocadas com a prima. Os índices das súbitas aparições da pintada desconhecida. A tonteira boa da tragada no cigarro de palha de Juvenal. O mundo das histórias contadas pela avó. Da baba de Gaúcho. Da cara bonita é mansa de Gaúcho. Do olhar patético de Gaúcho.

Contudo, não demorava muito. Logo soava o fim da modorra. Os preparativos de Juvêncio para a lida vespertina com o gado. O avô saindo no Baio para sua inspeção vespertina.

Então ia para o alpendre. (“Do alpendre sobre o canavial/ a vida se dá tão vazia”.) A rede estendida perante o descortinado céu e sertão. Confortava-se nela. E penetrava no mundo do romance recente.



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