O olhar vazio.Frio dilacerante. Tempos novos.
Completamente fora do controle. Primavera friorenta. Parecia
que as estações tivessem tramado. Façamos
isso. Primavera empresta ao outono. Outono reina fora de seu
sítio. Que protestem. Adianta nada. Na atmosfera mandamos
nós. Quando o verão chegar, o inverno lhe faça
alguns plantões. O inverno corte a carne de quem espera
calor.
Coisa mesmo maluca. Novembro friorento. Dormir
em novembro agasalhado. Não tinha cabimento. O avô.
Matuto de nascimento, vida e morte. Dos de olhar o céu.
Farejar as circunstâncias. E prognosticar o tempo de
pé no chão.
Aquela hora aguda da tarde. Hora sexta. Os
alimentados ressonam. Cães estiram-se para a sua longa
sesta. Homens, após a refeição. Arrefecer-se.
Repor energia. Rotina de toda vida. Das criaturas da Terra.
Hora maravilhosa. Hora misteriosa. A pino
o sol. Sua máxima aventura. Silêncio bom. Breve.
Porém intenso. Concentrar-se. Dar vazão aos
sentidos. Portadores de vidas avessas. Vem em volutas túmidas
de inesperados. Todavia, a realidade mesma permanece. Tem
pleno domínio dela. A percepção do fantástico.
Quanto do real. O real telúrico. Social. Humano. Animal.
O olhar construtor. Toma um ponto. A baba
leve do mascar bovino. O boi saudável. Em sua postura.
Deitado. Mascando seu tempo. Alheio olhar. Indiferente. Decerto
concentrado em seu mundo. Cumprindo seu destino. Presa completamente
entregue à vontade humana.
Então. A baba leve do boi. Seu ruminar
impassível. A mecânica animal de seu focinho
produzindo a baba. Seu olhar fixo nas ventas e na boca. O
curral coberto. Sua arquitetônica carpintaria. Teto
e compartimentos de madeira. Belezura da carpintaria. Conquanto
muito triste sua finalidade. O decurso do mormaço tremeluzindo
lá fora. Dentro, a desprimavera Anos outros, calorão.
A brisa boa refrescava vez em quando. Menos confortável.
Contudo, compreensível. Que a natureza cumpria seus
desígnios. Outonico não é direito em
tempo de primavera.
O silêncio da hora sexta. O meio dia
incandescente. Um silêncio povoado de pios. Os dos pássaros.
O melancólico da codorna. O artístico da corruíra.
O lírico do sabiá. Um canto de galo. Outro.
Outros. O silêncio povoado de roufenhos mugidos de gado.
Uma galinha choca conduzindo-se com sua corte de pintinhos.
O pasmo de algum peru.
E na baba do boi escorrem lembranças.
Desejos. Saudades. Medos. O beijo abrupto da prima. As carícias
trocadas com a prima. Os índices das súbitas
aparições da pintada desconhecida. A tonteira
boa da tragada no cigarro de palha de Juvenal. O mundo das
histórias contadas pela avó. Da baba de Gaúcho.
Da cara bonita é mansa de Gaúcho. Do olhar patético
de Gaúcho.
Contudo, não demorava muito. Logo soava
o fim da modorra. Os preparativos de Juvêncio para a
lida vespertina com o gado. O avô saindo no Baio para
sua inspeção vespertina.
Então ia para o alpendre. (Do
alpendre sobre o canavial/ a vida se dá tão
vazia.) A rede estendida perante o descortinado céu
e sertão. Confortava-se nela. E penetrava no mundo
do romance recente.